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Economia

‘Pacote de bondades’ aprovado no Senado agrava incerteza fiscal; onde buscar proteção?

Benefícios turbinados devem pressionar as contas do governo e o endividamento

Data de publicação:01/07/2022 às 08:07 -
Atualizado 16 dias atrás
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Uma PEC (Proposta de Emenda Constitucional), que aumenta e cria benefícios sociais, foi aprovada na noite desta quinta-feira, 30, pelo Senado com ampla maioria. Agora o 'pacote de bondades' segue para votação na Câmara e provoca uma piora na percepção de risco fiscal, acrescentando uma pitada mais de preocupação ao cenário de incertezas do mercado financeiro. Onde buscar refúgio?

Além dos auxílios previstos inicialmente, o texto prevê a criação de um vale mensal de R$ 200 para taxistas, elevando o custo total do pacote para R$ 41,2 bilhões. Valores que ficaram fora do teto de gastos e deverão ser cobertos por créditos extraordinários, pressionando o resultado das contas do governo e também o endividamento. 

Pacote de bondades
Despesas do pacote de bondades chegam a R$ 41,2 bilhões - Foto: Reprodução

Essa gastança em ano eleitoral, que agrava o risco fiscal, impacta os ativos do mercado, do dólar aos juros, passando pela Bolsa de Valores. Especialmente o mercado de ações, um dos segmentos mais sensíveis às incertezas político-econômicas.

Especialistas indicam onde buscar proteção diante desse quadro.

Qual setor da Bolsa sofre menos?

A Bolsa de Valores, a B3, vive um ciclo de quedas, mas algumas ações contam com maior resiliência e oferecem proteção, mesmo em um cenário de persistente pressão inflacionária e juros altos.

Um dos segmentos de maior resistência e proteção na Bolsa, em um momento desses, é o que abarca empresas exportadoras de commodities.

As companhias que se dedicam ao comércio exterior se expõem menos a fatores de instabilidade domésticos e costumam ter dupla vantagem, apontam especialistas. Como são exportadoras, recebem em dólar, que costuma subir em cenário de incerteza, pela venda de produtos que estão, em geral, com alta de preços lá fora.

Dennis Esteves, especialista em renda variável da Blue3, afirma que “o dólar está alto, os preços dos produtos básicos também, o que propicia aumento de margem a empresas que vendem ao exterior”.  Ele avalia que as companhias com melhores perspectivas são as do setor de mineração, exportadoras de minério de ferro, como a Vale (VALE3).

Alguns especialistas, como Jennie Li, estrategista de ações da XP, são um pouco mais cautelosos na avaliação e recomendação de ações do setor. Para ela, o risco crescente de recessão nos Estados Unidos, que trava na economia global, pode impactar o segmento no curto prazo.

A estrategista avalia como positiva, porém, a perspectiva para o setor de commodities, sobretudo de minério de ferro. Jennie acredita em um cenário de demanda crescente para uma oferta limitada, no médio prazo, um descompasso que tenderia a pressionar os preços para cima.

Esteves amplia a recomendação no setor de commodities ainda para as ações de companhias exportadoras de alimentos e carne, principalmente, produtos que, segundo ele, continuarão com demanda global crescente.

Outro segmento que reúne indicação de boa parte dos analistas é o financeiro, especialmente bancos, mas também seguradoras. “Os bancos se beneficiam dos juros altos, com ganho maior na margem de spread (diferença entre taxa de captação e de empréstimo)”, comenta Gabriel Meira, estrategista da Valor Investimentos.

“A expectativa é que os bancos continuem performando com bons resultados, apesar da perspectiva do aumento de inadimplência”, analisa Dennis Esteves, da Blue3.

“As seguradoras também se beneficiam dos juros altos”, acrescenta Vitorio Galindo, analista de investimentos CNPI e head de análise da Quantzed. “O dinheiro em caixa pode ser investido com boa remuneração, por taxas entre 12 e 13% ao ano”, calcula.

Pressão sobre os juros dos títulos públicos

As taxas de juro dos títulos públicos que o investidor pessoa física compra na plataforma do Tesouro Direto também continuam subindo diante da piora na percepção de agravamento do risco fiscal.

O temor é de que o estouro do teto de gastos, agravado com a nova PEC, gere mais inflação e leve a juros mais altos estimulou ajustes nas taxas. Tanto nos juros de títulos prefixados quanto nos dos papeis indexados ao IPCA.

Nos prefixados, os juros passaram a orbitar em torno de 13% ao ano. O Tesouro Prefixado com vencimento em 2025 oferecia esta semana taxa de 12,97% (após cravar momentaneamente 13%) ao ano e o com vencimento em 2029, 13,08%.

Os juros dos papeis indexados à inflação também mantiveram a rentabilidade em alta. O Tesouro IPCA+ com vencimento em 2026 ofereceu um juro real (ganho positivo prefixado) de 5,72% ao ano e o com vencimento em 2035, juro real positivo de 5,93%.

O título com vencimento mais longo dessa classe, o Tesouro IPCA+ 2055, com juros semestrais, ofereceu um retorno positivo de 6,03% ao ano.

A estimativa de economistas e analistas é que essa PEC, aprovada no Senado, provoque um estouro capaz de jogar mais lenha na fogueira da inflação, pressionar mais os juros e atiçar o temor com o quadro fiscal.

O que prevê o pacote de bondades

- Auxílio Brasil: ampliação de R$ 400 para R$ 600 mensais e cadastro de 1,6 milhão de novas famílias no programa (custo estimado: R$ 26 bilhões)

- Bolsa-caminhoneiro: criação de um benefício de R$ 1 mil (custo estimado: R$ 5,4 bilhões)

- Auxílio-Gás: ampliação de R$ 53 para o valor de um botijão a cada dois meses (o preço médio atual do botijão de 13kg, segundo a ANP, é de R$ 112,60; custo estimado: R$ 1,05 bilhão)

- Transporte gratuito de idosos: compensação aos Estados para atender a gratuidade, já prevista em lei, do transporte público de idosos (custo estimado: R$ 2,5 bilhões)

- Etanol: repasse de até R$ 3,8 bilhões a Estados para manutenção do ICMS em 12% para manter a competitividade do biocombustível em relação à gasolina.

- Taxistas: auxílio-gasolina de R$ 200 para os taxistas ao custo de R$ 2 bilhões

- Alimenta Brasil: R$ 500 milhões seriam direcionados ao programa para a compra de alimentos de agricultores familiares.

Como não há clareza sobre a fonte de recursos que custeariam os gastos adicionais desses programas nem verbas no Orçamento para bancá-los, o temor do mercado é que a concessão desses benefícios comprometa ainda mais as contas públicas e crie mais instabilidade econômica.

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Sobre o autor
Regina Pitoscia
Editora do Portal Mais Retorno.