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Economia

Como uma possível recessão nos EUA vai respingar no Brasil? Entenda

Uma das principais atividades que devem ser afetadas são as exportações

Data de publicação:29/06/2022 às 05:00 -
Atualizado um mês atrás
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A palavra recessão já está fazendo parte do vocabulário do mercado financeiro quando o assunto refere aos Estados Unidos. Com a possibilidade de dias difíceis para a terra do Tio Sam, os especialistas já começam a traçar cenários sobre os impactos disso para o Brasil.

O que leva os entendidos no assunto a considerar uma possível recessão para os EUA é a inflação no país, que é a maior dos últimos 40 anos – em maio atingiu alta de 8,6% e está distante da meta de 2%. O avanço dos preços está difícil de ser contido, mesmo com o Federal Reserve (Fed, o banco central americano) elevando a taxa básica de juros.

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Especialistas começam a considerar uma possível recessão nos EUA, o que pode impactar diretamente a economia brasileira - Foto: Reprodução

No último dia 15, o Fed elevou os juros da maior economia do mundo em 0,75 ponto percentual, para um intervalo entre 1,5% e 1,75% ao ano. O ajuste nessa magnitude foi o maior promovido pela autoridade monetária dos EUA desde 1994.

Os questionamentos giram em torno do fato de que o risco de recessão – alguns acreditam em uma recessão técnica, com queda do PIB em dois trimestres seguidos – está se tornando cada vez maior, o que vem impactando as bolsas mundiais, incluindo a brasileira, que se movimenta bastante guiada pelo comportamento do mercado financeiro americano.

Além do timing – quando isso ocorrerá – os especialistas avaliam a intensidade dessa recessão. “Vai depender de como a economia vai responder ao aumento da taxa de juros. Pode ocorrer perda de produtividade e demissões, mas pode ser uma aterrissagem mais leve, o que chamamos de soft landing”, afirma Vandyck Silveira, diretor-presidente da Trevisan Escola de Negócios.

Uma das grandes problemáticas apontadas pelo diretor da Trevisan é a elevação “irracional” dos preços das ações nas bolsas americanas.

“Isso ocorreu porque o Fed manteve a taxa de juros muito baixa que, em termos reais, estavam no patamar negativo. Muita gente investiu em ações de tecnologia com a expectativa de ter ganhos extraordinários, com uma valorização de mais de 40%”.

Vandyck Silveira, diretor-presidente da Trevisan Escola de Negócios

Brasil deve ser afetado pela recessão americana

Para Silveira, a economia brasileira pode ser impactada com uma recessão nos Estados Unidos. João Victor Patrocinio, especialista em mercado internacional da Blue 3, o Brasil não chegará a ter uma recessão de fato com esses reflexos, mas sim uma forte desaceleração, “pois o País já estava nesse ciclo recessivo”.

Um dos aspectos negativos está ligado à redução das exportações. Os EUA hoje são considerados o segundo maior parceiro comercial do Brasil, responsável por mais de 10% das transações comerciais, ficando somente atrás da China.

De acordo com Davi Lelis, especialista da Valor Investimentos, a redução do consumo das importações de produtos brasileiros, incluindo as commodities, refletiria na redução do volume de dólares enviados para o País.

Com uma situação mais complicada nos EUA, a disponibilidade de estrangeiros investindo no País tende a diminuir. “Pode haver uma queda no investimento direto com a percepção de que isso desencadearia uma recessão global”.

No entanto, o impacto pode ser pior se esse quadro econômico americano ocasionar uma forte queda no crescimento da China. “Aí o cenário muda. No entanto, acredito que isso não deve ocorrer pois a China começa devagar a sair do lockdown por conta da covid-19”.

Luciano Costa, economista-chefe da Monte Bravo Investimentos, complementa que a situação desafiadora dos EUA pode elevar os prêmios de risco e trazer dificuldade de rolagem de dívida para as empresas, por conta do custo alto.

Outro ponto destacado pelo especialista é a própria situação do Brasil, que vive um ano de eleições e fragilidade fiscal, o que aumenta as incertezas em relação ao País.

Inflação mais forte

Debora Nogueira, economista-chefe da Tenax Capital, aponta que as dificuldades mais acentuadas da economia americana trariam uma correção no preço das commodities sob o ponto de vista inflacionário.

“O câmbio suaviza esse processo. Se a aversão ao risco for mais forte, a desinflação é interrompida pela desvalorização da moeda”.

Debora Nogueira, da Tenax Capital

O efeito líquido do câmbio depreciando mais do que as commodities pode ocasionar um choque inflacionário no Brasil.

“E dependendo de qual será a trajetória da inflação e o momento do ciclo de juros do BC, ele pode ter que elevar a Selic, postergar os cortes ou fazer isso de forma mais lenta. O timer é difícil de prever”, diz Costa.

Mercado de capitais

Silveira traça ainda um outro cenário, com um impacto mais forte para o Brasil de um aperto monetário mais agressivo por parte do Fed, com as taxas de juros chegando a uma faixa entre 3% e 5%.

“O Brasil vai sofrer muito com a fuga de capitais, pois os mercados emergentes representam maior risco para os investidores estrangeiros, que vão acabar indo buscar segurança no dólar e nos títulos públicos americanos. Com isso, teremos um real desvalorizado”, avalia.

Silveira, da Trevisan

Por aqui, a Bolsa já enfrenta uma fase de baixa, refletindo as movimentações de alta de juros do Fed e segundo Patrocinio, a volatilidade deve continuar aumentando. “Os investidores vão seguir migrando da renda variável para a renda fixa em busca de controle de volatilidade e liquidez, pois o poder de compra deve cair ainda mais”, complementa.

Patrocinio destaca que grande parte das empresas listadas na Bolsa tem consumo dolarizado, o que vai trazer tempos difíceis para os próximos balanços. “Por exemplo, o varejo já sente os impactos de uma possível recessão nos EUA. O setor é a chama da nossa economia”.

Lado positivo

Sob a ótica positiva, Silveira aponta que se a recessão americana for mais amena isso pode representar uma oportunidade de desvio de investimentos para a renda fixa brasileira, em função do patamar elevado da Selic, hoje na casa dos 13,25% ao ano.

“Esse cenário ainda é incerto, pois vai depender do comportamento do Fed e em qual nível chegará a taxa de juros americana”, reforça.

Por outro lado, Lelis, da Valor Investimentos, destaca que, com o enfraquecimento da economia americana, com menor atratividade para investimentos, o Brasil deve ganhar espaço com a desvalorização do dólar.

“Isso pode trazer um maior poder de compra para o País principalmente para ativos dolarizados, como é o caso do trigo”.

Davi Lelis, da Valor Investimentos

Recessão no médio prazo

Enquanto uma corrente de especialistas projeta que a recessão americana não deve demorar para acontecer, há outros que acreditam que ela só vai tomar fôlego no médio prazo. “Se ocorrer uma recessão nos EUA, acredito que isso deve acontecer entre 12 e 18 meses”, afirma Luciano Costa, da Monte Bravo.

O especialista aponta que o aperto monetário nos EUA está começando agora e em um momento no qual os fundamentos da economia do país estão bastante robustos, “com um mercado de trabalho forte, famílias capitalizadas em ponto recorde e empresas desalavancadas”.

“Se o Fed perceber que a economia americana pode perder mais força do que o esperado, a autoridade monetária provavelmente vai ajustar a política monetária. Alguns membros já falaram sobre pausa no ciclo quando a taxa de juros se aproximar de 3%, um pouco acima do juro neutro”, conclui.

Sobre o autor
Julia Zillig
Repórter do Portal Mais Retorno.