Mercado Financeiro

Em uma semana marcada pela divulgação de dados econômicos abaixo do esperado e aprovação da reforma do IR pela Câmara, a Bolsa recuou 3,10% em relação à semana passada. De todo modo, o Ibovespa conseguiu manter o patamar dos 116 mil pontos, considerado o principal suporte de curto prazo de mercado.

Nesta sexta-feira, 3, a B3 fechou com alta de 0,22%, aos 116.933,24 pontos, influenciada pelos números do Relatório de Emprego dos EUA, divulgados pela manhã.

Foto: B3/Divulgação
Sede da B3 em São Paulo - Foto: B3/Divulgação

O valor do payroll, que veio bem abaixo das expectativas do mercado, dá sinais de que os estímulos monetários devem continuar no país americano, incentivando os estrangeiros a investirem em ativos de risco, como os mercados de ações dos países emergentes. A valorização do Ibovespa só não foi maior por conta da tensão no cenário político e fiscal do Brasil, com os investidores na expectativa para as manifestações do feriado de 7 de Setembro.

Também seguiram na pauta da semana as preocupações quanto à inflação e à crise hídrica, que ameaça o País com perspectivas de racionamento de energia, além da alta no preço do minério de ferro no mercado internacional.

Sobe e desce da B3

Nesta sexta-feira, os bancões - que, juntos, respondem por 17% da carteira de ativos do índice - impediram uma alta mais vigorosa do Ibovespa, bem como as petroleiras. Itaú, Bradesco e Santander reportaram perdas de 0,57%, 0,49% e 1,37%, respectivamente. Já a Petrobras e a PetroRio caíram 1,02% e 3,30%.

As siderúrgicas e mineradoras fecharam majoritariamente no azul. A Vale - que hoje responde por mais de 14% do peso da cesta de ativos do Ibovespa - a CSN e a Usiminas tiveram alta de 0,07%, 1,72% e 0,31% em seus papéis. Já a Gerdau - que anunciou que pode antecipar o pagamento de dividendos por conta da reforma do IR - registrou recuo de 0,04%.

Após a S&P subir o rating de crédito concedido à Braskem do grau de investimento BB+ para BBB-, as ações da companhia caíram 0,43%.

A Equatorial informou, por meio de fato relevante, que venceu a disputa pela concessão de saneamento básico no estado do Amapá, realizada na véspera. Os papéis da empresa caíram 1,42% na B3.

Dólar

O dólar fechou o dia com alta de 0,34%, após trafegar em baixa durante a manhã e parte da tarde, e ficou cotado a R$ 5,199. A moeda americana subiu acompanhando a cautela dos investidores quanto ao cenário político e fiscal interno.

Em relação ao fechamento da última sexta-feira, o dólar ficou estável.

Cenário político: 7 de Setembro

No País, os investidores seguem acompanhando a movimentação política em relação ao feriado de 7 de setembro, que será na próxima terça-feira e conta com um clima de tensão por conta das declarações do presidente Jair Bolsonaro a respeito das manifestações, que serão feitas durante o Dia da Independência do Brasil.

O chefe do Executivo espera que essas manifestações em 7 de setembro influenciem "mudanças de comportamento" de ministro do STF. "Espero que uma ou duas pessoas mudem seu comportamento depois desse movimento. E se não mudar, aí fica difícil a convivência", afirmou o presidente, sem citar diretamente os desafetos do Supremo Tribunal Federal (STF), ministros Luís Roberto Barroso e Alexandre de Moraes.

Em pé de guerra com o Judiciário, Bolsonaro tem apostado na demonstração de apoio popular nas ruas para influenciar decisões sobre as próximas eleições. "Vai ser uma manifestação nunca antes vista no Brasil", prometeu.

Durante transmissão semanal ao vivo, Bolsonaro disse que ninguém precisa temer o movimento previsto. Segundo o governador de São Paulo, João Doria, setores de inteligência policial identificaram ameaças de violência durante os protestos favoráveis a Bolsonaro, em especial, de setores ligados às Forças Armadas e de Segurança Pública.

Para o presidente, é "um absurdo" que policiais militares sejam proibidos de participarem dos atos e comparou a medida, em São Paulo, a uma ditadura. De acordo com regimento das corporações, é proibida a participação em eventos de cunho político-eleitoral.

Na abertura da sessão de julgamento da tese "marco temporal" das terras indígenas, na véspera, o presidente do Supremo Tribunal Federal (STF), Luiz Fux, fez um duro discurso sobre as manifestações bolsonaristas convocadas para o feriado, quando se comemora o aniversário da Independência do Brasil.

O ministro enfatizou que a Corte está vigilante aos movimentos, e não vai tolerar atos atentatórios à democracia.

"Num ambiente democrático, manifestações públicas são pacíficas; por sua vez, a liberdade de expressão não comporta violências e ameaças. O exercício de nossa cidadania pressupõe respeito à integridade das instituições democráticas e de seus membros", afirmou o ministro.

O ato desperta receio nas autoridades e está no foco das agências de inteligência diante da possibilidade de manifestantes armados, muitos deles policiais, serem insuflados a invadir o Congresso Nacional e o STF.

Oficiais das Polícias Militares de diversos estados atuam ativamente nas redes sociais na convocação de parceiros de corporação para participarem dos eventos.

Ambiente fiscal

Na ambiente doméstico, os investidores mantêm a atenção no cenário fiscal e político do País. Em evento, o presidente do Banco Central, Roberto Campos Neto, disse que “existe movimento de reprecificação de inflação para frente no mundo e que pode ter mudança estrutural com pandemia e, por isso, uma inflação mais prolongada".

Para ele, "não importa se retomada é em V ou não, mas que temos PIB em nível pré-pandemia".

Contudo, as preocupações fiscais persistem no mercado, com a crise hídrica pressionando ainda mais a inflação, as indefinições sobre os precatórios, as fontes de recursos para o Bolsa Família e a reforma do Imposto de Renda, aprovada na véspera pela Câmara, mas que pode sofrer alterações no Senado.

O temor fiscal tem sustentado a inclinação maior da curva de juros nas últimas semanas. Serão monitorados também o secretário especial do Tesouro e Orçamento, Bruno Funchal, que fala em evento online, às 12h10, e o ministro da Economia, Paulo Guedes, às 18h.

CPI da Covid: filhos de Bolsonaro

Outro assunto que está na pauta de monitoramento do mercado é o avanço dos trabalhos da Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) da Covid no Senado. Documentos da comissão indicam um cerco de lobistas aos filhos do presidente Jair Bolsonaro.

Uma troca de conversa pelo WhatsApp em poder da comissão mostra que Jair Renan recorreu à ajuda de um lobista para abrir sua empresa privada em Brasília. Um outro documento aponta outro lobista pedindo ajuda ao senador Flávio Bolsonaro para conseguir uma agenda no Ministério da Saúde envolvendo compra de vacinas.

As mensagens que envolvem Jair Renan foram apreendidas pelo Ministério Público Federal do Pará no celular do lobista Marconny Nunes Ribeiro Albernaz de Faria e repassadas à CPI. O telefone foi apreendido em uma investigação do MP, no ano passado.

 Ao se depararem com mensagens que citavam a empresa Precisa Medicamentos, a Procuradoria da República compartilhou o material com os senadores. As mensagens do lobista com Jair Renan foram reveladas pelo jornal O Globo no dia 15 de agosto e confirmadas pelo O Estado de S.Paulo.

O conteúdo inclui também conversas com Ana Cristina Siqueira Valle, ex-mulher de Bolsonaro e mãe de Jair Renan, e a advogada Karina Kufa, que defende o presidente. A CPI já aprovou requerimento para ouvir Karina, mas ainda não marcou a data do depoimento.

Segundo a troca de mensagens, de setembro do ano passado, Jair Renan, em vez de buscar os caminhos oficiais, procurou o lobista para abrir uma produtora de eventos em Brasília.

A CPI também identificou o elo entre um lobista e Flávio Bolsonaro. Nesse caso, o objetivo era o de abrir as portas e os cofres do Ministério da Saúde.

Em junho, uma funcionária do filho mais velho do presidente encaminhou à cúpula da pasta pedido de um suposto vendedor, que tentava garantir ao governo uma "negociação prioritária" e a "reserva" de lotes da Vaxxinity, uma nova vacina contra o coronavírus de origem privada, dos Estados Unidos, com pesquisas em desenvolvimento.

Flávio confirmou ter repassado o pedido ao ministério, mas negou ter se encontrado com qualquer representante da Vaxxinity. O Ministério da Saúde disse, em nota, que mantém diálogo com laboratórios que têm registro de autorização da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) para o uso de imunizantes no Brasil.

A defesa de Karina Kufa criticou a convocação dela na CPI. "O requerimento de convocação da doutora Karina criminaliza o próprio exercício da advocacia", afirmou a defesa. Procurado por meio de seu advogado, Jair Renan não se manifestou.

NY: bolsas sem direção única

Nos Estados Unidos, as bolsas de Nova York fecharam com sinais mistos, com os investidores repercutindo dos dados do payroll de agosto divulgados na manhã. Os índices S&P 500 e Dow Jones caíram 0,03% e 0,21%, na sequência. Já o Nasdaq 100 subiu 0,31%.

O Departamento de Trabalho dos Estados Unidos divulgou que a economia do país criou 235 mil empregos em agosto, resultado bem abaixo da expectativa dos analistas, que esperavam uma mediana de 750 mil novas vagas. Já a a taxa de desemprego do país recuou de 5,4% em julho para 5,2% em agosto, em linha com as previsões.

A questão é que, embora o desemprego tenha recuado, a criação de vagas foi bem modesta, o que mostra a dificuldade de reação da economia, com o avanço da variante Delta e falta de mão de obra.

Se por um lado a fraqueza da economia sinalize que ainda não é hora do Fed (Federal Reserve, o banco central americano) começar a reduzir o lote de compra de títulos, que despeja US$ 120 bilhões mensalmente no sistema financeiro dos EUA,o que seria positivo para as bolsas emergentes, de outro, a leitura é que a recuperação econômica deve acontecer em um processo mais lento que o projetado..

Além disso, o Departamento do Comércio revisou para cima os números de geração de postos de trabalho de julho, de 943 mil para 1,053 milhão, e também de junho, de 938 mil para 962 mil.

Em agosto, o salário médio por hora aumentou 0,56% em relação a julho, ou US$ 0,17, a US$ 30,73. Neste caso, a previsão era de alta menor, de 0,30%. Na comparação anual, houve acréscimo salarial de 4,28% em agosto, também acima do avanço previsto de 3,90%

Segundo o banco de investimentos TD Securities, que apostava em uma mediana de 400 mil novas vagas, o resultado não será suficiente para que o Fed recue no seu plano de começar a retirar gradualmente os estímulos monetários em breve.

Para os analistas da instituição, a autoridade monetária provavelmente adiará um anúncio formal da redução dos estímulos para a reunião de novembro do Comitê Federal de Mercado Aberto (Fomc, na sigla em inglês).

Bolsas asiáticas fecham mistas

As bolsas asiáticas fecharam sem direção única nesta sexta-feira, reagindo à notícia de que o primeiro-ministro japonês deixará o cargo em breve e a dados fracos da atividade econômica chinesa. Investidores da região também aguardam o relatório de emprego dos EUA.

Em Tóquio, o Nikkei teve expressiva alta de 2,05% hoje, aos 29.128,11 pontos, após anúncio de que o primeiro-ministro do Japão, Yoshihide Suga, não se candidatará à reeleição a líder do partido do governo, o que na prática fará com que ele deixe o posto de premiê até o final do mês.

No cargo há apenas um ano, Suga enfrenta uma crescente onda de impopularidade em meio a um novo surto de casos de covid-19 no país.

Também ficaram no azul o mercado sul-coreano, com avanço de 0,79% do Kospi em Seul, aod 3.201,06 pontos, e o de Taiwan, onde o Taiex se valorizou 1,14%, aos 17.516,92 pontos.

Por outro lado, as bolsas chinesas e de Hong Kong tiveram desempenho negativo. Na China continental, o Xangai Composto recuou 0,43%, aos 3.581,73 pontos, e o Shenzhen Composto caiu 0,55%, aos 2.414,30 pontos. O Hang Seng, por sua vez, teve queda de 0,72% em Hong Kong, aos 25.901,99 pontos.

Pesquisa da IHS Markit em parceria com a Caixin Media mostrou que o índice de gerentes de compras (PMI) composto da China, que engloba os setores industrial e de serviços, caiu de 53,1 em julho para 47,2 em agosto, ficando abaixo da marca de 50 que indica contração de atividade pela primeira vez desde abril de 2020. Apenas o PMI de serviços chinês diminuiu de 54,9 para 46,7 no mesmo período.

Os números são os últimos a evidenciar a tendência de desaceleração da economia chinesa, a segunda maior do mundo.

Na Oceania, a bolsa australiana terminou o pregão em alta, favorecida por ações de mineradoras e petrolíferas. O S&P/ASX 200 avançou 0,50% em Sydney, aos 7.522,90 pontos. / com Tom Morooka e Agência Estado

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