Logo Mais Retorno
Mercado Financeiro

Mercado ao vivo: Ibovespa acentua queda a 2% e dólar sobe, com embróglio na PEC dos Precatórios

Investidores repercutem votação da PEC dos precatórios e dados econômicos locais

Data de publicação:04/11/2021 às 10:39 -
Atualizado 9 meses atrás
Compartilhe:

O mercado financeiro opera nesta quinta-feira, 4, com a Bolsa em queda, um dia após a PEC dos Precatórios ter sido aprovada em 1º turno na Câmara dos Deputados. Às 16h, o Ibovespa caía 2,05% aos 103.455,51. O dólar operava com leve alta, de 0,54%, e cotado a R$ 5,620.

É verdade que os investidores vinham considerando a aprovação da PEC como um dos remédios menos amargos para contornar a questão de fontes de custeio para o pagamento dos auxílios sociais, com temor que uma decisão ainda mais drástica viesse a comprometer o equilíbrio fiscal do País. Por isso, em um primeiro momento, a passagem da PEC pelo primeiro crivo do Congresso, faltam mais três, chegou em tom apaziguador no mercado.

Foto: B3/Divulgação
Sede da B3 em São Paulo | Foto: B3/Divulgação

Mas há o outro lado da moeda. O pano de fundo continua o mesmo, porque a PEC promove a extinção de limite mais severo para o teto de gastos, e abre a possibilidade de calote do governo aos detentores dos precatórios. Em outras palavras, há uma perspectiva de agravamento para o cenário fiscal, sendo que boa parte do aumento do teto se dilua em uma farra política em ano eleitoral. Ao mesmo tempo, a PEC permite o rompimento de normas e contratos legalmente estabelecidos entre devedor e credor nos precatórios.

Não bastasse a gravidade do cenário, Ciro Gomes ameaçou retirar sua pré-candidatura à presidência da República, caso integrantes do seu partido, que votaram a favor da PEC, não voltem atrás nas próximas etapas de votação. Essa pressão poderá afetar o trâmite da PEC, que já era tido como mais certo e tranquilo no Congresso.

São informações que provocam reações difusas no mercado, aliadas ainda a resultados nada positivos em balanços divulgados pela manhã, como o do Grupo Pão de Açúcar que apresentou um prejuízo de R$ 88 milhões no terceiro trimestre espelhando os efeitos negativos da inflação no bolso do consumidor. Às 14h40, os papéis da rede recuavam 5,65%.

Bancos e commodities

Os bancos operam em queda - juntos, os bancões respondem por cerca de 17% de peso na cesta de ativos do Ibovespa - o que ajuda a empurrar o principal indicador da B3 ladeira abaixo.

Mesmo com resultados positivos em seu balanço do terceiro trimestre divulgado na noite anterior, as ações do Itaú caíam 4,,42%, às 14h30, com o Bradesco - que apresenta seus números após o expediente - e Santander recuando 4,31% e 3,36%.

A perspectiva de adiamento na quitação dos precatórios pode estar influenciando o setor no presão desta quinta-feira.

Já em commodities, o desempenho das principais empresas do setor no pregão é misto. As gigantes Petrobras e Vale operavam no positivo, às 12h30: altas de 2,61% e 0,97%, mesmo com o preço do petróleo em queda e expectativa no aguardo das decisões que virão da reunião da Opep+ que acontece hoje. O minério de ferro segue a mesma trajetória de baixa por mais um dia.

Após divulgar seus resultados do trimestre, os papéis da CSN caíam 4,93%, às 13h35. Já a Usiminas e Gerdau reportavam avanço de 0,40% e 0,70%, nesta ordem.

Refletindo os resultados divulgados na véspera que vieram acima do esperado pelo mercado, a Cielo lidera as altas da B3 durante a manhã, avançando 6,03%, às 14h36. No entanto, as companhias AES Brasil, Copasa, Ultrapar e Petro Rio, que também divulgaram seus números, reportavam queda de 3,18%, 10,15%, 3,15%, 8,31% e 0,25%, respectivamente.

PEC dos Precatórios

Em uma votação apertada – com margem de apenas quatro votos – o governo conseguiu aprovar, em primeiro turno, a PEC dos Precatórios, que abre espaço de R$ 91,6 bilhões no Orçamento de 2022 para o pagamento do programa social Auxílio Brasil e acomodar outros gastos durante o ano eleitoral.

Foram dias de negociações, pressão sobre a oposição e promessas de emendas parlamentares para o governo obter 312 votos a favor da PEC, contra 144. Desta vez, até o presidente da Câmara, Arthur Lira, que normalmente adota uma postura neutra nas votações, deu o seu voto favorável ao texto, reforçando o apoio à PEC.

O líder do governo na Câmara, Ricardo Barros, disse que a votação dos oito destaques da PEC será feita na próxima terça-feira, 9. Barros está reunido com parlamentares na residência de Lira para discutir os próximos passos da tramitação do texto.

Havia expectativa de votação dos destaques ainda nesta quinta-feira, mas, de acordo com Barros, a votação continua na próxima semana. Além da avaliação dos destaques, o texto da PEC tem que ser votado em mais um turno na Câmara e seguirá, então, para o Senado, onde deve enfrentar resistências.

No Twitter, Lira disse há pouco que, com a votação, a Câmara mostrou "compromisso com os mais desfavorecidos". "Conversamos muito internamente, como também com todos os segmentos. Buscamos atender as demandas de cada grupo e, principalmente, acolher aqueles que sofrem com a fome e desemprego", tuitou.

O presidente da Câmara disse ainda que, num esforço para o pós-pandemia, o Brasil seguirá sem deixar ninguém para trás. "Sensibilidade, compromisso e responsabilidade social devem andar juntos", completou.

A aprovação coloca em modo de espera o "plano B" que o governo tem engatilhado: uma consulta ao Tribunal de Contas da União (TCU) para prorrogar o auxílio emergencial com crédito extraordinário, fora do teto de gastos - a regra que limita o avanço das despesas à inflação.

Dados econômicos

Em paralelo à PEC dos Precatórios, os investidores também absorvem os novos dados econômicos do País, como o resultado da produção industrial de setembro, que registrou queda de 0,4% em setembro ante agosto, na série com ajuste sazonal, segundo dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) divulgados durante a manhã.

O resultado veio semelhante à mediana das expectativas dos analistas, que esperavam entre queda de 1,3% a alta de 0,7%. Sobre o mesmo período de 2020, houve queda de 3,9%, abaixo da mediana negativa de 4,2% prevista pelo mercado. Em 12 meses, o indicador acumula alta de 6,4% e de 7,5% no ano.

Juros futuros

Os juros futuros estão pressionados para cima após breve alívio na abertura diante da queda da produção industrial dentro do esperado, da aprovação da PEC dos Precatórios em primeiro turno na Câmara e mesmo com o Tesouro tendo adiantado a divulgação do leilão, com ofertas pequenas, para não adicionar volatilidade aos negócios.

Às 9h50 desta quinta, a taxa do contrato de depósito interfinanceiro (DI) para janeiro de 2027 subia para 12,15%, de 12,04% no ajuste anterior. O DI para janeiro de 2025 subia para 12,15%, de 12,03%, e o para janeiro de 2023 avançava para 12,11%, de 12,10% no ajuste de quarta-feira.

Balanços corporativos

Correndo em paralelo ao cenário macroeconômico, chama a atenção dos investidores, a temporada de balanços corporativos referente ao terceiro trimestre do ano, que segue aquecida. Na véspera, o Itaú apresentou um lucro gerencial 34,8% maior no período – R$ 6,779 bilhões - antes a mesma base de 2020.

Segundo analistas, os bancos mostram que têm mantido um nível baixo de provisões, o que aponta um sinal positivo de confiança em relação à retomada econômica. Nesta quinta-feira, o Bradesco apresenta seus números após o fechamento do mercado.

“Em média, os resultados das companhias brasileiras estão positivos para o trimestre, mostrando que as empresas têm feito seu papel para buscar a retomada econômica”, disse Jerson Zanlorenzi, chefe da mesa de renda variável do BTG Pactual.

A preocupação, segundo ele, é que a degradação do cenário macroeconômico afete os números dessas companhias no próximo ano.

Para esta quinta-feira, além do Bradesco, está prevista a divulgação dos balanços das empresas Minerva, Eneva, Tenda, entre outras.

No exterior

Lá fora, os ânimos seguem positivos, com o mercado repercutindo a decisão de política monetária do Federal Reserve (Fed, o banco central americano) sobre a redução da compra de títulos pelo banco central, a avaliação dos dirigentes sobre a ameaça da inflação como algo temporário e a postura acomodatícia que a autoridade monetária deve manter.

Durante a manhã, o Departamento do Comércio americano divulgou que o déficit comercial dos Estados Unidos aumentou 11% em setembro ante agosto, somando US$ 80,9 bilhões. O resultado veio praticamente em linha com a expectativa de analistas, que previam US$ 81 bilhões.

Já o saldo negativo da balança de agosto foi levemente revisado para baixo, de US$ 73,3 bilhões para US$ 72,8 bilhões. As exportações dos EUA sofreram queda de 3% na comparação mensal de setembro, a US$ 207,6 bilhões, enquanto as importações avançaram 0,6% no período, a US$ 288,5 bilhões.

Na coletiva à imprensa no dia anterior, Jerome Powell, presidente do Fed, disse que o foco da reunião desta semana foi o tapering, e não uma possível elevação da taxa básica de juros. O dirigente afirmou ainda que o apoio à recuperação da economia continuará.

A Capital Economics observou um tom "surpreendentemente" leve na postura do Fed, e não espera uma alta de juros antes do começo de 2023. A percepção de que a alta na inflação nos Estados Unidos é majoritariamente transitória sugere que a ala menos dura segue comandando a autoridade, avalia a consultoria.

Sobre a temporada de balanços, seguindo a todo vapor, o banco Julius Baer avalia que as empresas continuaram a entregar resultados surpreendentemente fortes no terceiro trimestre, apesar dos ventos contrários da variante delta e dos problemas nas cadeias de suprimentos.

No entanto, "o próximo trimestre se traduzirá em um cenário mais desafiador", já que as questões no fornecimento provavelmente se intensificarão enquanto o ímpeto econômico desacelera ainda mais, projeta o banco.

Na Ásia, as bolsas reagiram positivamente à decisão do Fed e fecharam em alta nesta quinta-feira. Na volta de um feriado nacional, o índice japonês Nikkei subiu 0,93% em Tóquio, aos 29.794,37 pontos.

O Hang Seng avançou 0,80% em Hong Kong, aos 25.225,19 pontos, e o sul-coreano Kospi teve modesto ganho de 0,25% em Seul, aos 2.983,22 pontos.

Já na China continental, o Xangai Composto subiu 0,81%, aos 3.526,87 pontos, e o menos abrangente Shenzhen Composto avançou 1,32%, aos 2.425,16 pontos. Exceção na Ásia, o Taiex caiu 0,25% em Taiwan, aos 17.078,86 pontos.

Na Oceania, a bolsa australiana seguiu o tom majoritariamente positivo da Ásia, e o S&P/ASX 200 avançou 0,48% em Sydney, aos 7.428,00 pontos. / com Tom Morooka e Agência Estado

Sobre o autor
Julia Zillig
Repórter do Portal Mais Retorno.