Mercado Financeiro

O fluxo de capital estrangeiro na Bolsa de Valores brasileira foi positivo em R$ 6,576 bilhões, em agosto, sem considerar os números obtidos com as ofertas públicas iniciais (IPO, na sigla em inglês) e com follow-on de ações - valores que ainda não foram contabilizados nem informados.  

Enquanto o montante de compras ficou em R$ 336,525 bilhões, as vendas chegaram a R$ 329,948 bilhões. As informações são da B3, com base nos dados registrados até a última sexta-feira, 27.

Foto: B3
Sede da B3 em São Paulo - Foto: B3/Divulgação

O resultado de agosto, até aqui, se mostrou melhor do que o registrado em julho, quando o saldo total do fluxo estrangeiro foi negativo em R$ 1,318. Esse número, aliás, só não foi ainda menor por conta do número expressivo de empresas que estrearam na Bolsa naquele mês, movimentando altos volumes de recursos.

A melhora registrada em agosto, no entanto, ainda está bem abaixo dos valores do segundo trimestre. Entre abril e junho, o acumulado do capital de investidores internacionais ultrapassou o patamar dos R$ 46 bilhões.

  • Abril: fluxo de capital estrangeiro foi de R$ 12,572 bilhões
  • Maio: fluxo de capital estrangeiro foi de R$ 17,063 bilhões
  • Junho: fluxo de capital estrangeiro foi de R$ 17,249 bilhões

Cenário da Bolsa em agosto

O mês foi marcado pela volatilidade dos mercados, provocada por preocupações locais e externas. Internamente, o cenário político seguiu na mesma toada tensa de julho, com uma sequência de confrontos entre os três Poderes.

Além disso, continuou no radar dos investidores as perspectivas de risco fiscal, com o presidente Jair Bolsonaro tentando aprovar reformas populistas que podem furar o teto de gastos, como o aumento do valor do Novo Bolsa Família, o Auxílio Brasil.

Ainda analisando os destaques domésticos, a inflação seguiu avançando e ameaça subir mais nos próximos meses, o que levou o Banco Central a adotar um tom mais duro na última ata do Copom, aumentando a taxa de juros em um ponto percentual, para 5,25%, e prometendo mais uma alta do mesmo tamanho patamar para a próxima reunião, que acontece em setembro.

Entre os principais pontos para a escalada de preços está a crise hidrológica que atinge o Brasil. O aumento de juros, no entanto, "não controla a questão climática", afirma Charo Alves, especialista da Valor Investimentos. "A inflação está vindo maior que o esperado, e o Copom vai ter que equilibrar".

Neste contexto, as ações de consumo e construção civil foram algumas das mais prejudicadas em agosto. Juros mais altos, combinados a uma inflação elevada, diminuem o poder de compra dos consumidores e tornam o financiamento (no varejo ou de imóveis) mais caro, explica o especialista.

A inflação em alta não é exclusividade do Brasil, o mesmo comportamento vem sendo observado nas principais economias do mundo, principalmente nos EUA, destaca Alves. O mercado passou o mês atento aos movimentos do Federal Reserve (Fed, o Banco Central americano), de modo a ter pistas mais claras sobre quando será o início do processo de retirada de estímulos econômicos no país norte-americano.

Crise no Afeganistão, dados da economia global, avanço da variante delta da covid-19 pelo mundo e queda no preço do minério de ferro, com medidas de controle do governo chinês, foram fatores determinantes em agosto, que impactaram o mercado e devem seguir na pauta em setembro.

Fluxo de capital estrangeiro em 2021

Até a última sexta-feira, o saldo de capital estrangeiro no Brasil em 2021 está positivo em R$ 74,766 bilhões.

Até aqui, o setor que mais atraiu a entrada de capital internacional no mercado brasileiro foi o de commodities. Especialistas explicam que a demanda por elas cresceu em nível global e, junto a isso, a desvalorização do real desde o início da pandemia da covid-19 favoreceu as exportações dos produtos brasileiros.

Em agosto, cabe destacar, também o desempenho das empresas de utilities - bens e serviços considerados essenciais (água, eletricidade e gás), ou seja, mesmo com as crises, a demanda por esses bens e serviços sempre vai existir -, em especial as de energia elétrica. Essas companhias possuem uma receita estável por conta dos contratos de longo prazo que mantêm com os governos, sendo boas pagadoras de dividendos.

De acordo com o especialista da Valor Investimentos, o mercado costuma "fugir" para as ações ligadas à commodities e utilities quando está "estressado", porque isso acontece porque essas são "empresas mais estáveis e perenes".

Simultaneamente, depois de um período de quedas acentuadas tanto para o Ibovespa quanto para as ações de diversos setores da economia, analistas do mercado consideram que os ativos brasileiros estão bastante descontados. Charo Alves ressalta que "o indicador preço/lucro está muito abaixo do que pode chegar".

Condição que tende a atrair mais o fluxo de capital estrangeiro nos próximos meses, num cenário onde a taxa de juros americana ainda está baixa e mercados emergentes são opções atrativas para a diversificação de portfólio dos investidores. Entretanto, os ruídos políticos e temor em relação ao risco fiscal podem travar esse movimento.

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