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Economia

Cinco teses de investimentos na mira dos gestores

Que variáveis considerar para moldar as melhores estratégias de alocação dos recursos

Data de publicação:28/09/2022 às 05:00 -
Atualizado 2 meses atrás
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É fato que muita gente investe olhando para o retrovisor, seja por conta da performance passada, seja por conta da indicação de amigos. Isso quer dizer que fazem seus investimentos com base em premissas que talvez já não façam mais sentido, o que explica os resultados obtidos.

O objetivo desse artigo é apontar cinco teses, que inclusive já foram temas de artigos da Mais Retorno, e que moldarão as melhores estratégias de investimento.

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Foto: Reprodução

A volta da inflação

Voltando no tempo, poucos arriscavam um movimento orquestrado de aumento de juros entre os bancos centrais. 

A verdade é que o mundo ficou mais incerto e inflacionário, dada a politica de “tolerância zero” da China e a guerra na Ucrânia.  No caso da Europa especificamente, existe ainda a questão dos orçamentos dos países membros e de seus respectivos níveis de endividamento.

Um outro fator estrutural que entrou no debate sobre como os preços se manifestam na economia é a mudança nas cadeias globais de valor, estruturadas de acordo com a lógica da globalização.

Baterias para armazenamento

Um dos fatores a definir novos arranjos geopolíticos. 

Com a emergência climática, atender nas quantidades desejadas é um dos grandes desafios para as mineradoras.  Novas minas levam mais de uma década para se tornarem operacionais e, desde o fim do superciclo de commodities liderado pela China, as empresas deixaram de investir.

Isso quer dizer que elas podem se deparar com dois cenários:

  1. Minas cujas reservas são de qualidade inferior, o que aumentaria os seus custos de produção;
  2. Minas em economias instáveis, como na África, cujos problemas tendem a piorar conforme se tornam mais dependentes de uma única commodity (“commodity curse”).

Oportunidade para a América Latina

Mais da meta das reservas de lítio, mineral crítico para a fabricação de baterias, está na Argentina, no Chile e na Bolívia. No que diz respeito à sua produção para comercialização, o Chile fica em segundo lugar enquanto a Argentina, em quarto lugar.

Entretanto, em nível de governo, faltam órgãos e agentes munidos de informações detalhadas sobre os impactos reais e potencias de uma nova mina. Inevitavelmente, o dinheiro para esse tipo de mapeamento acaba vindo de outras fontes. 

Hoje, os chineses não só compram da região como também a exploram de forma bastante ativa, tomando o lugar que antes era dos norte-americanos, motivo pelo qual não há qualquer receio de se sofrer sanções.

Criptomoedas de emissão soberana

O Banco de Compensações Internacionais (BIS, na sigla em inglês), também conhecido como o “banco central dos bancos centrais”, recebe contribuições do mundo todo sobre as moedas soberanas digitais (internacionalmente chamadas de Central Bank Digital Currencies – CDBCs).

O objetivo de se aglutinar ideias em um único lugar tem um objetivo bastante prático: desenvolver uma infraestrutura de pagamentos mundial mais ágil e acessível, incorporando algumas regras básicas de tecnologia, regulamentação e tributação.

Adicionalmente, a iniciativa visa endereçar algumas questões, como um eventual papel do dólar digital nesse novo arranjo. Uma das grandes críticas ao sistema financeiro internacional é que ele gira em torno do dólar, fazendo com que boa parte do mundo esteja exposta à política monetária dos EUA.

Experimentos como os feitos por El Salvador mostram as limitações de se utilizar o Bitcoin. Além da população desconhecer o seu funcionamento, a criptomoeda depende de uma carteira digital cujo valor está exposto a uma enorme volatilidade, conforme as taxas de juros sobem nos EUA.

Regionalização

Considerando os novos arranjos, onde países mais alinhados politicamente tentariam garantir a autossuficiência e algum grau de influência, o exemplo da União Europeia (UE) traz algumas lições.

Originalmente composto por Bélgica, França, Alemanha, Itália, Luxemburgo e Holanda, o grupo se expandiu, abarcando países cada vez mais distintos.

Nos anos 2000, foi a vez da UE levar seu modelo de desenvolvimento para os países do leste europeu, preenchendo o vácuo deixado pela queda da União Soviética e visando evitar novos conflitos na região. 

A candidatura para se entrar no bloco exige a aprovação unânime, ocasião em o país candidato precisa adequar as suas leis ao extenso arcabouço jurídico da UE, conhecido como acquis communautaire.

Produtividade

Os benefícios desse tipo de investimento só são percebidos após um período entre 3 e 5 anos. Isso se deve à curva de aprendizado necessária para o uso das novas tecnologias nos diversos setores da economia.

Conforme são incorporadas aos negócios, geram o chamado “capital intangível”.  Ele altera permanentemente a forma como operam, deixando um legado de conhecimento (“know-how”) que propulsiona a produtividade conforme se torna mais disseminado (“curva J de produtividade”).

A produtividade só ocorre via políticas públicas indutoras desses elementos pois, se deixadas a cargo dos agentes privados, as inovações se concentram em poucas empresas.

Além do incentivo à pesquisa, a recomendação de um mercado de capitais desenvolvido, para que os recursos sejam alocados nas melhores oportunidades, e um arcabouço jurídico que contemple leis de falência mais aderentes ao mundo onde as empresas experimentam (e falham) até acertarem.

No que diz respeito à competição, a redução das barreiras de entrada e das leis trabalhistas que restringem a mobilidade de mão de obra, além de recursos para o aprendizado contínuo de atuais e futuros trabalhadores.

Conclusão

O sucesso no combate à inflação dependerá não só de fatores internos, mas também do diferencial de juros entre os países, conforme as moedas se alinham umas com as outras (para o delírio dos operadores de Forex).

Por mais que os altos preços de energia tenham alterado a matriz energética, as mudanças climáticas não deixarão de mostrar a sua força, o que fará com que a garantia de suprimento de minerais críticos continue a todo vapor.

No que diz respeito às criptomoedas de emissão soberana, as experiências da China e a própria pandemia colocaram no foco das autoridades financeiras mundiais a necessidade de se rever a forma como o dinheiro circula no mundo.

Com mais países tentando se blindar de fatores externos, a regionalização dependerá de arranjos mais flexíveis quando comparados aos definidos pela União Europeia.

A cereja do bolo ficará com aquele que, no meio de todos esses desafios, encontrar a produtividade, indutora de crescimento econômico e item fundamental na valorização de qualquer carteira.

Sobre o autor
Nohad Harati
Possui MBA em Finanças e LLM em Direito do Mercado Financeiro (ambos pelo Insper/SP). É gestora de uma carteira proprietária, além de ser responsável por um Family Office.

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