Mercado Financeiro

Na semana passada alertamos que o dólar poderia cair frente ao real em direção a R$5,30 e R$5,20. Pois bem, vamos analisar o que ocorreu.

Para começar, o modelo da Wagner Investimentos aponta que o dólar entrou em uma tendência de baixa de médio prazo já que foi negociado na semana passada de forma consistente abaixo do nosso gatilho de reversão de tendência: a linha preta horizontal pontilhada e que estava em R$5,48. 

Foto: envato
Dólar, moeda americana - Foto: Envato

Em geral, uma tendência de médio prazo dura pelo menos de 2 a 3 meses e muito raramente ocorre uma “falsa reversão”, ou seja, muito raramente o modelo erra uma indicação de tendência. Com isso, atingimos (ou quase atingimos) o primeiro objetivo de queda, projetado em R$5,30.

A alta do dólar na última sexta-feira de abril ocorreu basicamente devido a uma recuperação técnica do Dollar Index em meio a declarações de Robert Kaplan (detalhes abaixo), fator muito mais importante do que a formação da Ptax mensal (que é a taxa de câmbio média do último dia do mês divulgada pelo Banco Central e que é utilizada para ajustes nos contratos derivativos e ajustes do dólar nos balanços das empresas). 

Reunião do Fed

Ainda sobre a coluna da semana passada, comentamos que tínhamos dois eventos muito importantes na semana passada, a reunião do FOMC (comitê de política monetária do Fed)no dia 28 de abril, e a divulgação do índice PCE.

Sobre o FOMC, o comunicado veio em linha com o esperado pelos investidores. O comitê basicamente manteve o viés de juro muito baixo (a taxa básica está em 0,15% ao ano) e a manutenção do atual programa de compra de ativos em US$ 120 bilhões por mês. 

Além disso, o comunicado alegou que a “inflação subiu, refletindo em grande parte fatores transitórios” (inflation has risen, largely reflecting transitory factors) e Jerome Powell, presidente do Federal Reserve, disse que não é o momento para discutir a redução das compras dos ativos. Assim, o Dollar Index caiu de forma acentuada após a reunião monetária (linkar a matéria: https://maisretorno.com/portal/dolar-rompe-sustentacao-dos-r-540-e-transita-na-faixa-de-r-539-queda-e-de-57-no-mes);

Sobre o índice PCE, ele subiu 2,3% anualizado, porém o seu núcleo deste índice variou 1,8% anualizado, um pouco abaixo da meta de 2% da autoridade monetária. Apesar de o dado ter vindo em linha com o esperado pelos investidores, confirmou a expectativa de aceleração da inflação em meio a reabertura da economia com a queda consistente dos casos de Covid.

Porém, o que de fato incomodou os investidores na sexta-feira e que provocou uma alta do Dollar Index foi a declaração de Robert Kaplan, presidente do Fed de Dallas. Ele disse que “na primeira oportunidade seria apropriado começarmos a discutir sobre o ajuste nas compras” mensais por parte do Fed, de US$ 120 bilhões em ativos.

Observando o passado como guia, uma redução das compras de títulos pelo Fed está associada à valorização do dólar. Como os últimos dados da economia dos Estados Unidos estão bem fortes e os investidores projetam a continuação do fortalecimento do mercado de trabalho (veja abaixo sobre “payroll”), houve uma busca por dólares.

Mas, o que gostaria de chamar atenção, é que a regional de Dallas somente terá um assento no FOMC no ano de 2023. Assim, sugiro que observemos com mais atenção as declarações dos membros do Board do Fed e do presidente da regional de Nova York porque tem garantia de voto em todas as reuniões e também dos atuais presidentes das regionais que votam este ano e no próximo ano. As declarações dessas pessoas serão mais relevantes. 

O que observar na agenda da semana

Sobre a agenda desa semana, teremos dois eventos muito importantes e que podem afetar a atual dinâmica do dólar mais fraco, sempre com foco no mercado cambial brasileiro.

A primeira é a reunião do Comitê de Política Monetária (Copom) do BC, que termina na quarta, dia 5 de maio. Os técnicos do BC deverão subir a taxa Selic de 2,75% para 3,50%. O mais importante será o teor do comunicado: quanto mais forte o tom (ou seja, indicando a continuação da alta dos juros), melhor para o real (ou seja, queda do dólar).

Também ficaremos atentos ao non-farm-payroll (criação de vagas de trabalho) nos Estados Unidos, no dia 7 de maio. A previsão está em torno da criação de 950.000 vagas e quanto maior este número, maior a chance de o Fed apertar a política monetária.

Abaixo o gráfico do dólar/real, que está agora em tendência de baixa de médio prazo. Importante comentar que no longo prazo o dólar segue em tendência de alta no Brasil:

Eventualmente o dólar pode fazer um repique para a região de R$5,55, a linha vermelha e que indica a concentração de médio prazo, mas isto não desarma o provável movimento de queda com objetivo em torno de R$5,20, a linha verde de cor escura, que indica o objetivo de queda. 

Duas observações sobre o nosso modelo proprietário:

  1. Tendência de alta é identificada quando as barras de preços (que são diárias) estão acima da linha preta horizontal pontilhada. A tendência de baixa é identificada quando as barras de preços estão abaixo da linha preta horizontal pontilhada. Note que indiquei em um círculo roxo essa nova tendência, que agora é de baixa. A linha preta pulou de R$5,48 para R$5,68, o que significa que o dólar somente voltará a ficar forte no médio prazo acima desta cotação;
  2. As linhas do modelo, como pode ser observado no gráfico, são ajustadas diariamente. Essa é a fotografia de sexta-feira, dia 30 de abril.

Estrutura do Federal Open Market Comittee (FOMC)

O Mais Retorno detalhou muito bem a estrutura do Federal Reserve (Fed) na matéria https://maisretorno.com/portal/termos/f/fed-federal-reserve. Vale a pena a leitura!

Gostaria de explicar um pouco sobre o Federal Open Market Comittee (FOMC), o Comitê do Fed que determina a taxa de juros básica da economia (Fed rate). 

O FOMC se reúne 8 vezes por ano e toma a decisão de subir, manter ou cortar o Fed rate com base nos dados macroeconômicos do Beige Book, uma publicação técnica das unidades regionais do Fed e que é divulgada 15 dias antes de cada reunião e sempre em uma quarta-feira. O FOMC tem duplo mandato: manter a inflação próxima da meta de 2% ao ano e garantir o pleno emprego. 

A meta da inflação é o núcleo do PCE (Personal Consumption Expenditures Price Index), que exclui a alta dos preços dos alimentos e dos combustíveis por serem muito voláteis ao longo dos anos. Esta medida de inflação não tem semelhante no Brasil, que utiliza o IPCA, equivalente ao CPI (Consumer Price Index) dos Estados Unidos. 

Atualmente o Comitê é composto por 11 membros: 6 membros da agência governamental central e 5 presidentes de bancos centrais regionais. O número máximo de membros são 12, sendo 7 da agência central e 5 das regionais. O presidente do FOMC é o presidente do Fed e o vice-presidente do FOMC é o presidente da regional de Nova York.

A agência governamental central é composta pelo Board of Governors (Conselho de Governadores), que neste momento tem 6 membros e que pode ter até 7 membros, assim há uma vaga disponível. Essa agência central é responsável pela taxa de redesconto (que rege as operações de empréstimos entre o Fed e os bancos comerciais), pela determinação do nível de reservas bancárias e pela supervisão das operações e atividades das regionais. Além disto, o Board participa das reuniões do FOMC. 

Além dos membros do Board, o FOMC também é composto pelos presidentes dos bancos centrais regionais. Há 12 regionais, mas apenas 5 podem compor o FOMC de forma simultânea, assim há um sistema de rotação anual. Apenas uma regional é fixa, a de Nova York, porque é a responsável pela implementação da política monetária e o seu presidente é o vice-presidente do FOMC. Na prática sobram 11 bancos centrais regionais para 4 vagas. Veja abaixo o quadro com o sistema de rotação até 2024:

2021202220232024
New YorkNew YorkNew YorkNew York
RichmondClevelandChicagoCleveland
AtlantaBostonPhiladelphiaRichmond
San FranciscoSt. LouisDallasAtlanta
ChicagoKansas CityMinneapolisSan Francisco
Fonte: Federal Reserve

Desejo a todos uma ótima semana e bons negócios!

*Este artigo não expressa necessariamente a opinião do portal Mais Retorno

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José Raymundo de Faria Júnior é economista graduado pela Universidade Federal de Juiz de Fora (UFJF) e mestre em Administração pela Fecap. Sócio desde 2006 da Wagner Investimentos, possui as certificações financeiras CFP®️, CNPI, CGA e é Consultor de Valores Mobiliários.

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