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Mercado Financeiro

Lojas Americanas: saiba tudo sobre a crise e sua recuperação judicial

Como a empresa chegou ao rombo de R$ 20 bilhões, o que poder acontecer na Recuperação Judicial e também com as ações da companhia

Data de publicação:31/01/2023 às 08:00 -
Atualizado um ano atrás
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Ainda que você não seja o mais assíduo acompanhante do mercado financeiro, é bastante provável que esteja inteirado sobre o caso das Lojas Americanas. A empresa, que tem seu capital aberto e é listada na bolsa de valores, anunciou neste começo de 2023 uma dívida bilionária que coloca em dúvida o futuro da companhia.

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Dívida da Americanas é alta e será desafiador honrar os compromissos no longo prazo - Foto: Reprodução

A dívida de mais de R$ 20 bilhões inicialmente já chegou até a casa dos R$ 40 bilhões e pode exigir que a empresa entre com um pedido de Recuperação Judicial — fato esse que preocupa diversos acionistas minoritários e investidores do mercado financeiro em geral.

Mas por que a companhia chegou a esse nível de endividamento? Há salvação para as Lojas Americanas? Como vai funcionar esse possível processo de Recuperação Judicial? 

O que aconteceu com as Lojas Americanas?

No dia 11 de janeiro de 2023, explodiu a notícia do alto endividamento das Lojas Americanas. Isso aconteceu por meio de um anúncio do então novo CEO Sérgio Rial, que havia chegado ao cargo há menos de um mês.

Conhecido pelo excelente trabalho à frente do Banco Santander, entregando uma rentabilidade expressiva, Sérgio Rial resolveu se inteirar da nova companhia e analisar os seus números junto ao novo CFO da Americanas, André Covre.

Ao perceber algumas inconsistências contábeis, Rial emitiu um comunicado oficial sobre o tema e renunciou ao cargo com menos de quinze dias. Neste dia, a única informação dada ao mercado foi da falta de R$ 20 bilhões que estariam fora do balanço patrimonial da empresa.

Como a Americanas chegou ao problema atual?

A pergunta que ficou nesse momento foi "como é possível uma empresa desse porte, com auditoria, ter uma falha desse nível nos seus demonstrativos contábeis?".

Em resumo, o que aconteceu foi uma falha de um procedimento financeiro. A companhia tinha como prática solicitar empréstimos bancários para comprar e pagar antecipadamente aos seus fornecedores. Em outras palavras, as Lojas Americanas passavam a dever apenas para os bancos. Diga-se, esse é um procedimento relativamente comum no varejo.

Acontece que, ao menos pelo que foi divulgado até aqui, esses empréstimos eram registrados como "fornecedor" dentro do capital de terceiros do seu balanço patrimonial. E essa decisão acabou por omitir a cobrança de juros, que é habitual em uma transação com uma instituição financeira.

Agora imagine esse processo repetido ano após ano em uma empresa do tamanho das Lojas Americanas cujas compras junto aos seus fornecedores não eram de pequenas cifras. Foi assim que Sérgio Rial se deparou com uma inconsistência de mais de R$ 20 bilhões ao analisar os números da companhia.

Qual é o tamanho da dívida das Lojas Americanas?

E o problema não parou por aí. Um dia após a renúncia ao cargo de CEO, Sérgio Rial prestou alguns esclarecimentos sobre a situação da empresa. Esse fato trouxe pânico aos seus credores, que passaram a pedir a antecipação do pagamento da dívida já prevendo um possível calote em função do cenário apresentado.

No total, considerando o valor dos pagamentos devidos e os juros dessas dívidas, as Lojas Americanas possuem hoje um endividamento superior a R$ 40 bilhões. Essa quantia é devida a pouco menos de oito mil credores.

Não por acaso, esses credores passaram a querer receber o mais rápido possível os seus direitos, mas o processo passou para o nível jurídico. Assim, as Lojas Americanas conseguiram uma Tutela de Urgência, no dia 13 de janeiro de 2023. Esse processo representa o congelamento de qualquer pagamento antecipado por 30 dias.

A Lojas Americanas vai falir?

Como é comum no Brasil, as notícias trouxeram o caos ao mercado financeiro — desta vez, ao menos aparentemente, com razão. As dúvidas sobre o futuro da companhia ou mesmo sobre uma falência se multiplicavam a cada nova informação divulgada sobre a situação financeira da empresa.

No entanto, ao menos nesse primeiro mês do ano, não há ainda um posicionamento oficial e é preciso ter calma para analisar os desdobramentos da situação atual.

Aproximadamente um terço da companhia pertence aos empresários Carlos Alberto Sicupira, Jorge Paulo Lemann e Marcel Telles. Eles possuem, em conjunto, a 3G Capital, uma empresa de Private Equity.

O trio chegou a apresentar uma proposta para injeção de capital, mas os bancos credores acharam a quantia de R$ 6 bilhões baixa. Não houve, portanto, um acordo inicial.

Uma das decisões tomadas pela empresa foi apresentar a nova CFO das Lojas Americanas, Camille Faria. Ela possui o diferencial de ter experiência com o processo de Recuperação Judicial, que parece ser o caminho para a companhia ao longo dos próximos meses.

O processo de Recuperação Judicial das Lojas Americanas

No dia 19 de janeiro de 2023, conforme já esperado, a Lojas Americanas divulgou um fato relevante ao mercado informando que protocolou o pedido de Recuperação Judicial.

Esse é o nome de um processo no qual a empresa endividada tenta renegociar as suas dívidas junto aos seus credores, chegando a novos acordos sobre juros e prazos de pagamento, por exemplo. Ao mesmo tempo, a marca continua existindo e em funcionamento no mercado, mantendo assim a sua atividade econômica.

Embora possa ser considerada como uma espécie de "luz no final do túnel", um processo de Recuperação Judicial costuma ser lento e longo. Ainda que a companhia venda alguns ativos, a dívida é extremamente alta e será desafiador honrar todos os seus compromissos no longo prazo.

Neste caso, especificamente, ainda existem discussões adicionais. O Banco Bradesco, por exemplo, já acionou a justiça em busca de investigação sobre uma possível fraude. Então, por enquanto, resta acompanhar o processo.

Como ficam as ações das Lojas Americanas?

Para o pequeno investidor das Lojas Americanas, as últimas semanas se tornaram uma verdadeira montanha russa. Inicialmente, com um futuro promissor após o anúncio de Sérgio Rial como CEO. O mercado gostou da novidade e as ações da companhia subiram mais do que 20%.

No entanto, após o anúncio dos problemas contábeis da companhia e a dívida bilionária, a reação foi completamente oposta. No mesmo dia, houve desvalorização de 77% do preço de mercado das Lojas Americanas. O preço do ativo, que chegou a ser de R$ 12,00, estava em apenas R$ 1,45 no fechamento do pregão desta segunda-feira, 30.

Ao longo de 2023, as ações devem ser alvo de especuladores, com altas e baixas de acordo com as notícias. Entretanto, não passa de um exercício de achismo uma vez que, por ora, o que resta aos investidores e credores será acompanhar o processo de Recuperação Judicial e os próximos passos sobre o futuro da companhia.

Sobre o autor
Stéfano Bozza
Formado em Administração pela PUC-SP. Trabalhou em empresas do segmento financeiro (Itaú BBA) e varejo (BRMALLS) até 2016, quando iniciou a jornada de produção de conteúdo para a internet com foco em finanças.

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