Mercado Financeiro

Uma frase que circulou entre especialistas e gestores nos últimos dias, a de que o mercado financeiro viveu em setembro o pior mês do ano até agora, pode ser comprovada com um passar de olhos pelos dados que definem a classificação no ranking das aplicações. A Bolsa de Valores de São Paulo, a B3, apurou desvalorização de 6,57% e terminou como a pior aplicação do mês. Na ponta de cima ficou o dólar, com alta de 5,34%.

O destaque positivo do dólar, no topo da lista, e negativo da bolsa de valores, na lanterninha, refletem o clima de turbulência que permeou o mercado financeiro em setembro. Fontes de pressão sobre os mercados que vieram tanto do cenário internacional quanto do doméstico.

Confira quanto renderam as aplicações em setembro na tabela elaborada com dados calculados pelo administrador de Investimentos Fabio Colombo

Fonte: administrador de investimentos, Fabio Colombo

No exterior, a principal fonte de tensão e incertezas, que abalou os mercados globais e doméstico, foi a crise financeira da incorporadora chinesa Evergrande. A possibilidade de um calote da construtora deixou os investidores temerosos de um contágio na economia da China e, por extensão, nos demais mercados globais.

Rachel de Sá, chefe de Economia da Rico Investimentos, afirma que o episódio Evergrande causou desassossego nos mercados por causa da aversão ao risco e também pelos efeitos sobre as commodities, o que gerou dúvidas sobre o crescimento da economia chinesa.  Ela explica que “o setor imobiliário responde bastante pelo PIB (Produto Interno Bruto) chinês”, uma participação que influencia a demanda e os preços das commodities, como o minério de ferro e aço.

Turbulência para as commodities

Esse conjunto de fatores geradores de incerteza “mexeu com o mercado e isso tudo afeta bastante o Brasil”, principalmente a bolsa de valores, “considerando que 30% do Ibovespa (Índice Bovespa, principal índice da B3) são ações de empresas ligadas a commodities”.

Outro fator no cenário internacional que influenciou o mercado financeiro ao longo de setembro foi o debate sobre inflação e política monetária nos Estados Unidos. A principal dúvida de analistas e investidores é quando o Fed (Federal Reserve, o banco central americano) iniciará o tapering, a redução de recompra de títulos do programa de estímulos monetários que despeja US$ 120 bilhões mensalmente no sistema financeiro dos EUA. 

O Fed já sinalizou um corte na compra de ativos, “mas não está claro quando o tapering vai começar”, afirma Gustavo Bertotti, economista da Messem Investimentos. Ele acredita que a decisão pode ser tomada na reunião do Fed em novembro e pode ter início ainda este ano.

Pressões domésticas

O acirramento de instabilidade política e de incertezas em relação à questão fiscal, no cenário doméstico, também contribuiu para a forte queda da bolsa de valores e a escalada do dólar. A turbulência provocada pelos atos de 7 de setembro “pesou muito na aversão ao risco”, afirma Bertotti, assim como as preocupações com o equilíbrio das contas públicas, com a indefinição do pagamento de precatórios e do financiamento do novo programa social, rebatizado de Auxílio Brasil.

Inflação em alta e sinalização de uma política monetária contracionista, pelo Banco Central, com a Selic rodando acima da inflação no fim do atual ciclo de elevação da taxa básica de juros, também deram um tom negativo aos mercados, porque podem deprimir a recuperação de atividade.

Confira quanto renderam as aplicações em setembro na tabela elaborada com dados calculados pelo administrador de Investimentos Fabio Colombo.

Apesar das seguidas altas da Selic, que chegou a 6,25% ao ano em setembro, as aplicações tradicionais em renda fixa continuam com rendimento negativo. O motivo é que a Selic, taxa à qual estão atreladas, permanece abaixo da inflação corrente, diferentemente de título vinculado ao IPCA, medida da inflação oficial.

Alguns fundos de renda com carteira apimentada por títulos de crédito privado, como debêntures, estão muito mais competitivos que os relacionados na lista do ranking, como apontam os levantamentos de fundos de renda fixa da Mais Retorno.

Perspectivas para outubro

O mercado financeiro dá o pontapé aos negócios em outubro, nesta sexta-feira, cauteloso e sem baixar a guarda, em meio a um cenário persistente de incertezas, tanto no exterior como internamente, avalia o economista da Messem Investimentos.

“Alguns dados já estão precificados”, adianta o economista, referindo se à sinalização dada pelo Banco Central de que a Selic terá mais uma elevação, de 1 ponto porcentual, na próxima reunião do Copom (Comitê de Política Monetária), dias 28 e 29 deste mês.

Nas demais frentes, como a política e econômica, as dúvidas persistem e continuarão sendo monitorados no radar pelos investidores e gestores de mercado. Um dos pontos de preocupação, aponta Bertotti, é a questão fiscal para 2022, com a indefinição ainda sobre o critério de pagamento de precatórios e dos benefícios do novo programa social do governo. “O temor do mercado é que essas despesas levem ao furo do teto de gastos.”

São questões que para Rachel de Sá, da Rico Investimentos, “mantêm a percepção de risco fiscal crescente no mercado”,  já que as dúvidas persistem, “porque ainda não houve definição” sobre a fonte de recursos para bancar esses pagamentos.

As incertezas não são menores pelo lado externo, de acordo com especialistas. Bertotti aponta como dúvidas questões pendentes como a falta ainda de uma solução para o caso Evergrande, que não está resolvido, “porque há falta de clareza, entre outras, em relação ao pagamento de juros de dívida que vencem semanalmente”.

Somam-se a isso, como fatores de agravamento de aversão ao risco, as incertezas com a crise energética global e os indicadores econômicos da China que têm apontado para uma desaceleração de atividade. “Outra dúvida, o tapering (redução de recompra de títulos pelo banco central americano) já estaria sendo precificada pelo mercado financeiro”, acredita o economista da Messem Investimentos. 

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Colaborador do Portal Mais Retorno.

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