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Fundos de Investimentos

Por que os maiores fundos de renda fixa, dos grandes bancos, remuneram tão mal o cotista? Entenda

Mesmo com alta dos juros, maioria dos grandes fundos não remunera com 100% do CDI

Data de publicação:28/01/2022 às 02:00 -
Atualizado 4 meses atrás
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Não é a primeira vez, nem será a última, os maiores fundos de renda fixa entregaram ao investidor um resultado pra lá de modesto em 2021. Mas por que fundos escorados em grandes patrimônios, sob a gestão dos grandes bancos do mercado, remuneram tão mal os cotistas? Para especialistas, esses fundos, em sua maioria controlados pelos maiores bancos, costumam render pouco, entre outros motivos, porque impõem um custo elevado na cobrança de taxa de administração.

O rendimento acumulado no ano pelos dez detentores de patrimônio mais avantajado variou entre 5,12%, do Itaú Privilège RF Referenciado DI FIC FI, e 2,38%, do FIC FI Caixa Prático RF Curto Prazo. Desempenho abaixo da inflação de 10,06% acumulada pelo IPCA no ano passado. Quem investiu em um desses dez fundos obteve no de melhor desempenho, o Itaú Privilège, só a metade da inflação como rendimento. Ou seja, teve rendimento negativo.

FundoPatrimônio
em R$ bilhões
Nº de cotistasRend. 2021
BB RF CURTO PRAZO AUTOM. SETOR PUB.96,220 172.8852,51%
BB RF CURTO PRAZO DIFERENCIADO44,893 1.4593,80%
BB RF AUTOMÁTICO EMPRESA SIMPLES34,385 282.2982,55%
ITAÚ PRIVILÈGE REFERENCIADO33,443 198.1045,12%
BB RF MAIS AUTOMÁTICO33,2781.154.633 2,55%
ITAÚ VERSO A REFERENCIADO29,967 1194,49%
FIC FI CAIXA PRÁTICO29,201 15.8482,38%
BB REF. DI PLUS ÁGIL23,743 418.3733,48%
ITAÚ SOBERANO SIMPLES23,233 2.2064,34%
BB RF SIMPLES19,443 603.6103,12%
Fonte: Mais Retorno

O levantamento exclusivo da Mais Retorno considerou os fundos de renda fixa com pelo menos um ano de operação, um mínimo de 60 cotistas, patrimônio a partir de R$ 17 milhões, e abertos ao público em geral. Nessas condições, encontram-se 694 fundos.

10 maiores fundos de renda fixa na mão de 3 bancos

Os 10 fundos com maior patrimônio estão não mão de apenas 3 grandes instituições financeiras: do BB com 6 fundos, do Itaú e da Caixa com 1. Números que já demonstram um alto grau de concentração. Mas a concentração não se limita a isso.

Esses fundos detêm um patrimônio total de R$ 367,8 bilhões, o equivalente a 27% do total do patrimônio dos 694 fundos. A equivalência se mantém em número de cotistas: os 10 fundos reunidos contam 2,849 cotistas, o que é 28% dos 10 milhões de cotistas do universo considerado na pesquisa com 694 fundos.

Como esses fundos conseguem atrair e reter tanto investidor se a remuneração deixa muito a desejar? Não protegeram os recursos da inflação e apenas dois deles conseguiram bater o CDI, de 4,42% no período, que o principal benchmark do setor. Os melhores fundos de renda fixa apresentaram rendimento acima de 10% em 2021.

Por que remuneram mal?

Thiago Machado, especialista da SVN, diz que os maiores são na maioria fundos conservadores que em geral realocam os recursos em outros fundos, todos sob gestão da mesma instituição, gerando uma cobrança de taxa em cadeia em cada um dos fundos onde a alocação é feita.

É uma estratégia que permite que, em vez de cobrar um valor pesado em um único fundo, a taxa seja diluída com a cobrança sequencialmente em vários fundos – em vez de uma taxa de 3% ao ano em um fundo, uma realocação em dois outros fundos possibilitaria a cobrança de 1% em cada um deles. Na soma de todas, é uma forma de o banco conseguir valor maior na gestão, já que os fundos são todos da mesma instituição.

A rentabilidade mais baixa dos grandes fundos de bancões “não está relacionada propriamente à qualidade dos títulos, dos ativos em carteira”, avalia Machado. “O custo elevado é que achata o rendimento.”

fundos de renda fixa
Maiores fundos de renda fixa não cobriram a inflação - Foto: Envato

Recorte com os 100 maiores revela concentração e baixo retorno

Dentre os 100 maiores fundos de renda fixa, 89 estão nas mãos dos cinco maiores bancos do País, reunindo estoque total de R$ 1,009 trilhão em recursos. Um volume equivalente a 75% do patrimônio total de R$ 1,352 trilhão que compõe o estoque dos 694 fundos. Apenas 11 fundos dessa amostragem significativa estão sob a gestão de outras 7 instituições financeiras.

O Banco do Brasil é o que detém o maior número de fundos, 30 dentre os 100 de maior patrimônio. Eles reúnem mais de R$ 456 bilhões de patrimônio, ou 45% do patrimônio total dos 100, de R$ 1,009 trilhão. O número total de cotistas do BB também impressiona, 3,954 milhões, o que representa 62% do total de cotistas dos 100 fundos, ou 40% do total de cotistas dos 694 fundos.

O fundo com patrimônio mais encorpado é o BB RF Curto Prazo Automático Setor Público FIC FI, com R$ 96,2 bilhões, dos quais R$ 20,4 bilhões ingressados no ano passado. E o fundo com maior número de cotistas de todos os de renda fixa é o BB RF Mais Automático Simples FIC FI, com 1,154 milhão.

Ainda no time dos bancões, 20, entre os 100 maiores, são da Caixa, 19 do Itaú, 11 do Santander, 9 do Bradesco e 3 do Safra. Os demais fundos estão pulverizados entre bancos e gestores de menor porte, como os 2 da XP, 2 do Credit Suisse Hedging-Griffo, 1 do Riza, 1 do Porto Seguro, 1 do Banrisul e 1 do BTG Pactual.

Entre os 100 maiores, o que proporcionou o melhor rendimento ao cotista foi o Porto Seguro RF Referenciado DI CP. Mas, mais da metade, 56 deles não conseguiram sequer acompanhar e render o benchmark, o CDI de 4,42% acumulado no ano. E nenhum deles cobriu a inflação.

Desinteresse pode levar a perdas nos fundos de renda fixa

Cristina Cardoso, especialista da Veedha Investimentos, tem ainda outra visão na análise sobre o baixo rendimento oferecido pelos fundos dos grandes bancos, além do efeito da taxa de administração. “É um problema histórico”, acredita. “A maioria das pessoas tem conta nos grandes bancos, principalmente no Banco do Brasil, e se sente no conforto”, sem se preocupar com o rendimento de aplicação.

Um comportamento que, para Cristina, “reproduz o período que as taxas de juros estiveram muito altas no País, a renda fixa bastante rentável”, o que provocou certo desinteresse do investidor em acompanhar o que acontece com seu dinheiro. 

Satisfeito com a segurança e a liquidez, e até por falta de informação, “esse investidor nunca teve interesse de tomar risco, para tentar uma rentabilidade maior”, analisa. Quem cuida da conta, em geral o gerente do banco, tampouco se preocupa com uma gestão mais ativa ou eficiente que possa remunerar melhor o dinheiro do cliente. “É um fundo meio padrão que o gerente oferece ao cliente, que nem olha a rentabilidade ou compara com a de outras aplicações”, comenta Machado, da SVN.

Cristina, da Veedha Investimentos, chama a atenção também para o fato de que, embora os juros tenham voltado a subir e a Selic possa chegar a 10,75% ao ano na próxima semana, “os produtos da maioria desses bancos não remuneram o investidor com 100% do CDI”, apenas uma com parcela dele, o que dá uma rentabilidade menor que a Selic.

Ramon Coser, especialista da Valor Investimentos, atribui a fraca performance desses fundos “à gestão passiva” e também à taxa de administração, embora afirme que os fundos que fazem a subalocação em outros fundos costumam em geral devolver a taxa cobrada pelo fundo principal. 

Para ele, “uma forma de evitar tudo isso é comprar diretamente um Tesouro Selic”, título da dívida pública ofertado na plataforma do Tesouro Direto, que remunera o investidor de acordo com a Selic.

Números dos 100 gigantes pouco rentáveis

O estudo exclusivo da Mais Retorno considerou um total de 694 fundos. O recorte com os 100 maiores escancara a concentração da gestão entre os cinco maiores bancos do País: Banco do Brasil, Caixa, Itaú, Bradesco e Santander. São 89 fundos sob a gestão do quinteto. Acompanhe:

  • O patrimônio total dos 100 fundos alcança R$ 1,009 trilhão
  • Isso é 75% do patrimônio total dos 694 fundos, que é de R$ 1,352 trilhão
  • O número total de cotistas dos 100 maiores chega a 6,356 milhões
  • Isso é 64% do total de cotistas dos 694 fundos, que chega a 10 milhões
  • Dos 100 fundos, 89 estão sob a gestão dos cinco maiores bancos do País
  • Entre esses 89, 30 são do Banco do Brasil
  • O patrimônio dos 30 fundos do BB chega a R$ 456 bilhões
  • Isso é 45% do patrimônio total dos 100 fundos, ou 33% do patrimônio total dos 694 fundos
  • O total de cotistas do BB chega a quase 4 milhões (3,954 milhões)
  • Isso é 62% do total dos cotistas dos 100 fundos, ou 40% do total dos 694 fundos
  • Ainda entre os bancões, do total de 100 fundos, 20 são da Caixa, 19 do Itaú, 11 do Santander e 9 do Bradesco
  • Os 11 fundos restantes estão assim distribuídos: 3 do Safra, 2 do Crèdit Suisse Hedging Griffo, 2 Trends da XP, 1 do BTG Pactual, 1 do Riza, 1 do Banrisul, 1 do Porto seguro
  • O fundo com o maior número de cotista é o BB RF Mais Automático Simples FIC FI, com 1,154 milhão
  • O segundo fundo em total de cotista é o da FI Caixa Simples RF LP, com 618.588
  • Entre os 100 maiores, o de rentabilidade mais alta foi o Porto Seguro RF Referenciado DI CP, com 6,51%
  • O de pior desempenho foi o FIC FI Caixa Brasil Gestão Estratégica RF com variação negativa de 0,11
  • Mais da metade, 56 deles renderam abaixo dos 4,42% do CDI
  • Todos renderam abaixo da inflação, de 10,06%

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Sobre o autor
Tom Morooka
Colaborador do Portal Mais Retorno.