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Economia

Mesmo positivo, crescimento de 1,0%, PIB do 1° trimestre ficou abaixo do esperado pelos analistas

Serviços e Consumo das Famílias cresceram menos do que era esperado pelo mercado

Data de publicação:02/06/2022 às 13:01 -
Atualizado um mês atrás
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O resultado do Produto Interno Bruto (PIB) brasileiro do primeiro trimestre de 2022 surpreendeu negativamente os analistas. Divulgado na manhã desta quinta-feira, 02, pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), o PIB do País cresceu 1,00% entre janeiro e março em relação aos três meses anteriores, enquanto a média das expectativas do mercado era de alta de 1,2%.

PIB brasileiro no Boletim Focus
PIB brasileiro foi de 1,0% no primeiro trimestre de 2022 | Imagem: Shutterstock

Um consenso entre os especialistas é que as Exportações exerceram forte peso positivo na composição do PIB do trimestre, que subiram 5,0%. O setor de Serviços, que tem um peso de 70% na composição do indicador, também teve variação positiva no período, com alta de 1,0%, e isso explica, em grande parte, o porquê do indicador ter avançado.

No entanto, apesar do avanço, o resultado de Serviços também veio abaixo das expectativas do mercado, refletindo uma inflação ainda muito persistente. A Agropecuária, que caiu 0,9%, e os Investimentos no País, que recuaram 3,5%, também surpreenderam negativamente os analistas, enquanto a Indústria permaneceu praticamente estável, com alta residual de 0,1%.

Para os próximos trimestres, os especialistas esperam um baixo crescimento para o Brasil na maioria dos setores, como reflexo da adoção de uma política monetária contracionista por parte do Banco Central, a fim de tentar controlar a pressão inflacionária.

Principais destaques do PIB brasileiro

Serviços e Consumo das Famílias

Embora tenha apresentado alta, Igor Barenboim, sócio e economista-chefe da Reach Capital, considera que uma das principais surpresas negativas do lado da oferta veio de Serviços e, do lado da demanda, do Consumo nas Famílias, que subiram menos do que as projeções.

A economista para o Brasil do BNP Paribas, Laiz Carvalho, compartilha da mesma opinião e destaca que as expectativas do banco para o crescimento de Serviços no primeiro trimestre era de 1,2%, enquanto o resultado veio em alta de 1,0%. Já para o Consumo das Famílias, as projeções apontavam para uma alta de 1,6%, diferente do que foi reportado pelo IBGE: uma alta menos expressiva, de 0,7%.

Por um lado, os Serviços e o Consumo das Famílias avançaram refletindo "a abertura da economia e diversos benefícios fiscais, como reajuste do salário mínimo, Auxílio Brasil e liberação do FGTS", comenta Gustavo Sung, analista-chefe da Suno Research.

Em contrapartida, "avaliando mais pormenorizadamente o resultado, o Consumo das Famílias, que possui grande relevância na composição (do PIB), ainda não conseguiu ganhar tração", pontua o economista-chefe da Órama, Alexandre Espírito Santo, que ressalta ainda que a inflação elevada, bem como a política monetária mais restritiva, parece ter afetado o comportamento da demanda para pior.

Indústria e Agropecuária

De acordo com Camila Abdelmalack, economista-chefe da Veedha Investimentos, a Indústria ainda sofre com os desafios trazidos pela falta de insumos na cadeia produtiva global, principalmente no que diz respeito aos semicondutores. Portanto, a especialista afirma que "essa performance tímida (de uma alta de 0,1%) já era esperada no primeiro trimestre".

Sobre a Agropecuária, a economista destaca que os resultados (queda de 0,9%) vieram ainda mais negativos do que o que era projetado pelo mercado, de uma contração menos expressiva, de 0,5%. O principal fator para essa baixa foi a quebra de safra de diversas culturas ocasionada pelas questões climáticas adversas que atravessaram o País no último ano, principalmente na Região Sul.

Os insumos também impactaram negativamente o setor, explica Marilia Fontes, sócia-fundadora da Nord Research. Por conta do alto preço das commodities nos mercados internacionais - e, até mesmo, a falta de alguns produtos que são originários da região do leste europeu que está em guerra - os gastos com insumos para a Agropecuária também pesaram na conta final.

Formação Bruta de Capital Fixo

Outro ponto que chamou a atenção do mercado negativamente foram os dados sobre a Formação Bruta de Capital Fixo (FBCF), que teve forte retração de 3,5% entre janeiro e março deste ano. Esse indicador reflete os investimentos que são feitos no País.

Segundo Ricardo Jacomassi, economista-chefe da TCP Partners, há dois principais fatores que explicam essa queda: o aumento da taxa básica de juros e, principalmente, a demora nos processos de privatizações e concessões de empresas estatais, o que acabou afastando os investimentos nacionais e estrangeiros no Brasil.

"Os gastos do governo ficaram praticamente estáveis. Sinal de que o teto de gastos está cumprindo seu papel. Já a FBCF recuou significativamente, o que é particularmente preocupante. Se o crescimento da demanda doméstica, aqui representado pelo Consumo das Famílias, não é acompanhado de investimentos produtivos, a capacidade da produção nacional atender a demanda nacional fica comprometida. Nos últimos quatro trimestres, foi verificado o crescimento da FBCF apenas uma vez. Essa evolução contínua e indesejada pode comprometer o nível da atividade dos próximos anos."

Carla Argenta e Matheus Pizzani, da equipe econômica da CM Capital, em relatório.

O que esperar do PIB brasileiro nos próximos trimestres?

Um consenso entre todos os especialistas ouvidos pela Mais Retorno é que o PIB brasileiro deve subir ainda um pouco mais nos próximos trimestre de 2022, mas em um crescimento limitado, em cerca de 1,5% no ano. Entretanto, para 2023 as perspectivas são de um crescimento ainda menos expressivo e próximo de zero.

O economista da Guide Invetsimentos Victor Beyruti destaca que é importante ter em mente que o crescimento observado no primeiro trimestre se deve a alguns fatores pontuais, sobretudo a reabertura econômica pós-pandemia. Além disso, o Brasil vinha de um período de juros muito baixos, os menores da história, em torno de 2,0% ao ano.

Beyruti explica que o impacto das movimentações que o Banco Central faz com a taxa de juros demoram alguns trimestres até serem sentidos na economia real. Assim, as recentes elevações nas taxas de juros, que atualmente está em 12,75% ao anos, devem começar a impactar nas próximas medições do PIB.

Composição do PIB brasileiro no 1° trimestre de 2022

Atividades Industriais

  • As atividades de eletricidade e gás, água, esgoto e gestão de resíduos tiveram alta de 6,6%;
  • Indústrias de transformação reportaram avanço de 1,4%;
  • Construção avançou 0,8%;
  • Indústrias extrativas tiveram queda de 3,4%.

Serviços

  • Transporte, armazenagem e correio subiram 2,1%;
  • Comércio avançou 1,6%;
  • Atividades imobiliárias tiveram alta de 0,7%;
  • Administração, saúde e educação pública reportaram avanço de 0,6%;
  • Informação e comunicação caíram 5,3%;
  • Intermediação financeira e seguros tiveram queda de 0,7%
  • Outros serviços subiram 2,2%.

Despesas e setor externo no PIB do Brasil

"Pela ótica da despesa, a Despesa de Consumo das Famílias (0,7%) teve crescimento, a Despesa de Consumo do Governo (0,1%) apresentou estabilidade e Formação Bruta de Capital Fixo (-3,5%) registrou queda. No setor externo, as Exportações de Bens e Serviços cresceram 5,0%, enquanto as Importações de Bens e Serviços caíram 4,6% em relação ao quarto trimestre de 2021."

Nota do IBGE

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Sobre o autor
Bruna Miato
Repórter na Mais Retorno