Economia

Na segunda quinzena de fevereiro de 2021, o mercado financeiro apresentou uma alta volatilidade sobre as ações da Petrobras, uma das principais petrolíferas globais. O motivo? A interferência do governo na presidência da companhia.

Uma prática como essa costuma desagradar os investidores, pois mostra outros interesses como prioritários em relação à geração de lucro. Não por acaso, os papéis da petrolífera se desvalorizaram em 25% em quatro dias, entre 18 e 22 de fevereiro.

No entanto, será que esse é o único desafio da interferência governamental? Vamos entender melhor esse cenário e como ele impacta os nossos investimentos.

O que aconteceu com a Petrobras?

Para começar, vamos relembrar os fatos que marcaram esse período turbulento para a Petrobras. Afinal, você pode estar lendo em um futuro distante este artigo e sem a referência do cenário econômico atual.

O assunto de interferência estatal nas petrolíferas não é exatamente uma novidade. Já aconteceu em outras oportunidades e, historicamente, não costuma ser algo positivo do ponto de vista financeiro. Prova disso é que há um forte prejuízo acumulado por empresas estatais deficitárias.

Desta vez, o problema começou com um novo aumento de preços sobre a gasolina, algo que fatalmente afeta o consumidor final na medida em que abastecer o seu veículo ficaria muito mais caro. O mesmo vale para os caminhoneiros, grupo que precisa do combustível para levar mercadorias.

A pressão desse segundo grupo levou o Presidente da República Jair Bolsonaro a demitir o então presidente da Petrobras, Roberto Castello Branco. A medida foi muito mais populista do que técnica, fato que causou desconfiança do mercado inclusive sobre a governança corporativa da empresa.

Como resultado desse processo, os investidores passaram a vender suas ações da Petrobras. Esse é um cenário comum em situações de incerteza, na medida em que há dúvida sobre o futuro da companhia. O aumento da volatilidade é, portanto, um dos efeitos da intervenção do governo.

Por que a Petrobras é controlada pelo governo?

Talvez você esteja se perguntando por que o Presidente da República pode demitir o CEO da Petrobras, visto que a sua composição acionária é extremamente diluída, com mais de 63% das ações em free float (livre circulação entre investidores).

De fato, quando olhamos apenas para a estrutura acionária da companhia, temos uma grande pulverização das ações. No entanto, a Petrobras possui dois tipos de ativos em negociação:

Ou seja, na prática o que realmente importa em termos de controle está na posse das ações ordinárias da Petrobras. E, neste caso, o cenário até março de 2021 era o seguinte:

Veja, portanto, que mais da metade das ações PETR3 estavam em controle do Governo Federal. Ou seja, mesmo que todos os demais acionistas ordinários se posicionassem contra a decisão estatal, eles ainda seriam minoritários na votação final. É justamente esse quadro que faz de uma companhia subordinada ao governo e permite, entre outros fatores, uma interferência direta na sua gestão.

Qual é o impacto da interferência do governo sobre as petrolíferas estatais?

Agora que entendemos o cenário ao qual a Petrobras estava exposta. No entanto, o que isso representa na prática para os seus investimentos? Quais são os reais impactos da inferência estatal sobre a empresa?

Em primeiro lugar, como vimos, está a volatilidade dos papéis. Em um movimento desse tipo, os investidores tendem a não manter o seu capital aportado na empresa já que precificam um maior risco em função da incerteza da atuação da gestão no curto prazo.

Além disso, a própria governança corporativa da empresa passa a ser questionada. Ainda mais sendo a Petrobras, uma organização que passou por um processo de reestruturação após alguns escândalos de corrupção.

Outro impacto que podemos encontrar nesse tipo de influência do Governo Federal é o uso da empresa para questões políticas com viés populista. A demissão recente em resposta ao aumento de preços é uma forma de reforçar a "defesa da população", algo que se converte em votos em muitas vezes.

Este ponto, aliás, é o mais preocupante para os investidores, pois a companhia deixa de ter o seu foco na geração de caixa para atender outros aspectos que não são essenciais para a atividade que ela exerce na prática. Considerando que a Petrobras é uma empresa de commodities e, portanto, tem alta exposição ao preço do petróleo, esse passa a ser um risco elevado pela redução da sua liberdade de atuação no mercado.

Veja, portanto, que existem muitas situações as quais as petrolíferas estatais estão expostas ao ter o Governo Federal como acionista controlador. E todas elas impactam na forma pela qual os investidores enxergam a empresa — algo que influencia diretamente a sua precificação na Bolsa de Valores ou, de maneira mais objetiva, os resultados dos seus investimentos.

Vale a pena investir em empresas estatais?

Toda essa conversa sobre a influência governamental nas petrolíferas estatais certamente traz uma grande dúvida aos nossos leitores: afinal, considerando todos esses riscos, será que vale a pena investir em empresas que tenham o Governo Federal como acionista controlador?

A verdade é que não temos uma resposta objetiva. Seria muito cômodo dizer para que você evite companhias estatais pelos riscos implícitos ao negócio, mas há um detalhe importante: todo mercado financeiro sabe disso.

Na prática, isso significa que o risco de intervenção governamental na gestão da empresa está, na maior parte das vezes, precificado na Bolsa de Valores. Ou seja, elas costumam apresentar um desconto em relação a seus pares.

Usando múltiplos para avaliar petrolíferas estatais

Nós podemos usar de alguns comparativos para entender melhor esse processo. No caso das petrolíferas globais, como a Petrobras, uma boa forma de fazê-lo é comparando o EV/EBITDA, um indicador que compara o valor da empresa versus a sua capacidade de geração de caixa com as atividades.

Em março de 2021, o múltiplo de Petrobras era próximo a 4,10, enquanto que a média das grandes empresas do setor (como Exxon Mobil e Shell) estava em 8,5. Ou seja, o preço de compras das ações da petrolífera brasileira era bem descontado.

Outras empresas estatais no Brasil

Vale observar que a Petrobras não é o único exemplo de empresa com grande influência por parte do Governo Federal na Bolsa de Valores. Outro caso bem conhecido é do Banco do Brasil que, inclusive, viu suas ações caírem mais de 13% naquele mesmo período de quatro dias, entre 18 e 22 de fevereiro.

O motivo foi o mesmo: preocupação do mercado sobre potenciais intervenções na companhia. Ao mesmo tempo, o Banco do Brasil também é uma empresa que possui um desconto de preço em função disso quando comparamos o segmento bancário.

Veja abaixo o múltiplo de Preço/Lucro, que representa o tempo que você levaria para recuperar o seu investimento de acordo com a geração de caixa do negócio. Observe como, no caso do banco estatal, o mercado oferece uma relação bem mais atrativa:

E o mesmo pode ser verificado ao olhar para outros negócios que possuem influência governamental. É o caso de Sabesp, BB Seguridade, Copel, Cemig ou Eletrobrás, por exemplo.

Afinal, eu devo investir em empresas estatais?

Diante de tudo que vimos ao longo do artigo, portanto, é necessário uma análise muito aprofundada para responder se devemos ou não investir em empresas estatais, como a petrolífera Petrobras.

O risco de intervenção na gestão existe, assim como a possibilidade de injeção de capital em momentos de crise. Além disso, a Petrobras continua sendo uma grande geradora de capital e pagadora de dividendos, mesmo diante dessas influências externas.

Portanto, na prática, o que você enquanto investidor deve fazer é dedicar uma atenção especial a entender todos os detalhes de um negócio antes de investir. Mesmo com a chance de influência do governo, por vezes o preço descontado pode fazer sentido na composição da sua carteira de ações.

Ademais, todos os negócios possuem seus riscos, inclusive aqueles sem qualquer participação do Governo Federal. E a melhor forma de mitigá-los não é simplesmente excluindo um segmento da sua carteira, mas diversificando os setores.

Imagem do autor

Formado em Administração pela PUC-SP. Trabalhou em empresas do segmento financeiro (Itaú BBA) e varejo (BRMALLS) até 2016, quando iniciou a jornada de produção de conteúdo para a internet com foco em finanças.

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