Mercado Financeiro

No último pregão da semana nesta quinta-feira, 8, véspera de feriado em São Paulo, a Bolsa despencou 1,25%, marcando 125.427,77 pontos, seguindo a preocupação do mercado externo quanto à retomada da atividade econômica mundial com a nova variante delta do coronavírus. A tensão no quadro político doméstico também teve forte influência no resultado negativo.

No acumulado da semana o Ibovespa registrou uma queda acentuada de 1,72% em relação à sexta-feira passada. Além do exterior cauteloso e a incerteza política por aqui, a semana foi marcada por mais um adiamento da reunião da Opep+, influenciando na queda de preços na Petrobras que tem peso na composição do índice; as ações dos bancos também sofreram com a perspectiva de tributação de dividendos na proposta de reforma tributária do Governo; e a divulgação de dados da política monetária americana.

O dólar, que fechou o dia cotado a R$ 5,255, com uma valorização de 0,29%, teve forte alta se comparado com a última sexta-feira, 2. No acumulado da semana, a moeda americana saltou 3,56% influenciada, também, pela preocupação dos mercados e o cenário doméstico.

Foto: B3/Divulgação
Sede da B3 em São Paulo - Foto: B3/Divulgação

Mercados externos cautelosos

"Há esse medo da volta de surtos da covid-19, além das preocupações com a variante delta do coronavírus, o que pode segurar a reabertura econômica", avalia Caio Kanaan Eboli, sócio e diretor operacional da mesa proprietária Axia Investing.

O mau humor do mercado neste pregão vem, principalmente, após a China sinalizar um possível relaxamento monetário, que gera dúvidas sobre o ritmo de recuperação da segunda maior economia do mundo.

"De certa forma, indica uma preocupação com o enfraquecimento da economia, e coloca mais lenha na fogueira nessas preocupações com a recuperação da economia global", avalia Jennie Li, estrategista de ações da XP, em nota.

"É a soma de vários fatores. Na verdade, o que está acontecendo, e estamos batendo nesta tecla há algum tempo, é que quem está preocupado com a inflação está há alguns meses atrasado. A preocupação é com o crescimento", avalia o diretor-presidente da Ohmresearch, Roberto Attuch Jr.

Conforme ressalta o diretor, o pico do crescimento econômico nos Estados Unidos aconteceu entre o segundo e o terceiro trimestres deste ano. "Que a economia americana crescerá na faixa de 7% este ano ninguém tem dúvida. A questão é quando a situação normalizar. Será que crescerá 2,5%, 3% em 2022? Isso faz muita diferença", afirma.

Na mais recente reunião de política monetária do Fed, os dirigentes avaliaram que o "progresso substancial" esperado para a retirada de estímulos à economia ainda não foi alcançado, e que ainda há espaço para buscar. No entanto, vários dirigentes disseram acreditar que as condições para o "tapering" podem ser alcançadas antes do previsto.

Wall Street: bolsas em forte baixa

Nos Estados Unidos, as bolsas de Nova York também fecharam o dia com recuo acentuado, com as preocupações e os temores em relação à pandemia tomando conta dos mercados. O S&P 500, Dow Jones e Nasdaq 100 registraram queda de 0,83%, 0,75% e 0,60%, respectivamente.

Para ajudar a azedar ainda mais o humor do mercado financeiro americano, que na véspera recebeu a ata da última reunião do Fomc (Copom Americano) sem grandes solavancos, o Departamento de Trabalho informou nesta manhã que o número de pedidos de auxílio-desemprego no país teve leve aumento de 2 mil na semana encerrada em 3 de julho, somando 373 mil.

O resultado veio bem acima da expectativa dos analistas, que previam algo em torno de 350 mil solicitações. O total da semana anterior foi revisado para cima, de 364 mil para 371 mil pedidos.

Sobe e desce da B3

Nesta quinta-feira, a maioria dos papéis da Bolsa fechou no vermelho.

A Petrobras, refletindo a tensão entre a Opep+, Emirados Árabes Unidos e Arábia Saudita, que resultou em mais uma suspensão da reunião da organização, registrou um dia de fortes perdas em seus papéis, com desvalorização de 2,07%.

As mineradoras e siderúrgicas, bem como os chamados bancões, fecharam o pregão na mesma esteira de queda. Vale, CSN, Usiminas e Gerdau tiveram um resultado negativo de 0,12%, 4,49%, 0,91% e 3,10%. Enquanto isso, Itaú, Bradesco e Santander viram suas ações caírem 1,25%, 1,05% e 3,05%, respectivamente.

Dólar sobe

O dólar fechou em alta nesta quinta-feira, seguindo a tendência dos últimos dias, com valorização de 0,29%, cotado a R$ 5,255. Mas durante o dia, a alta chegou a 1%.

As pautas de reformas em meio ao agravamento da crise política, prisão em plena CPI da Covid, a nota de repúdio pelos comandantes das Forças Armadas contra o presidente da comissão e novos ataques do presidente Bolsonaro ao STF exerceram pressão sobre o resultado do dólar.

Além disso, a aversão ao risco no exterior também contribuiu para a apreciação da moeda americana frente ao real.

Inflação no Brasil

No cenário local, o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) divulgou nesta manhã o Índice Nacional de Preços ao Consumidor (IPCA) de junho, que subiu 0,53% e veio perto da faixa de intervalo entre 0,52% e 0,79% projetada pelos analistas.

Nos últimos 12 meses, acumula alta de 8,35%, acima dos 8,06% observados na mesma base de comparação do ano anterior. A alta de 0,53% em junho foi o maior resultado para o mês desde 2018, quando havia subido 1,26%, de acordo com o IBGE.

"O contexto da época era o das paralisações dos caminhoneiros", lembrou André Almeida, analista do IBGE. O resultado fez a taxa de inflação em 12 meses atingir o maior patamar desde setembro de 2016, quando estava em 8,48%.

Segundo a economista-chefe da CM Capital, Carla Argenta, apesar da queda, a inflação não oferece vida fácil ao Banco Central daqui para frente.

“Quando colocamos uma lupa sobre o IPCA de junho e identificamos alguns movimentos, na verdade a inflação tende a assustar nos próximos meses, pois esse índice mais baixa veio do arrefecimento de preços administrados: energia elétrica e gasolina”, analisa.

Segundo ela, ambos os itens apresentaram inflação bastante elevada nos últimos meses e apesar de continuar no terreno positivo, foi mais modesta no mês de junho. “Por isso vimos o índice um pouco abaixo da mediana", reforça

Por outro lado, Carla ressalta que os preços livres mostram alguns movimentos preocupantes. O primeiro deles está no grupo de alimentação em domicílio.

“Sazonalmente, esse item tende a apresentar inflação mais baixa nos meses de junho, julho e agosto, mas não é isso o que estamos vendo. Muito pelo contrário, começou a acelerar e tende manter esse movimento”.

Outro ponto de preocupação, de acordo com a economista, é a inflação identificada nos preços negociáveis. “O que estamos vendo nesse momento é o repasse dos IGPs, que deve ser longo e pressionar o índice nos próximos meses. Em junho, especificamente, esse repasse aconteceu por conta da apreciação do real frente ao dólar”.

CPI da Covid: ruídos políticos

Os trabalhos da Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) da Covid no Senado ganham novos capítulos a cada dia, que estão sendo acompanhados pelos investidores com mais atenção.

Nesta quinta-feira, o colegiado ouve a ex-coordenadora do Programa Nacional de Imunizações (PNI) do Ministério da Saúde, Franciele Fantinato.

A servidora foi convocada para explicar por que recomendou a aplicação da segunda dose a gestantes que tinham recebido a 1ª dose da AstraZeneca com qualquer vacina que estivesse disponível, sem apresentar comprovação de eficácia.

Na véspera, o colegiado ouviu o ex-diretor do Departamento de Logística do Ministério da Saúde, Roberto Dias, que acabou sendo preso, porém libertado após passar cinco horas na delegacia do Senado e fazer pagamento de fiança de R$ 1.100.

O presidente da comissão, senador Omar Aziz, foi alvo de uma nota de repúdio assinada pelo ministro da Defesa, Walter Braga Neto, e pelos comandantes das Forças Armadas, com críticas à postura de Aziz.

Além disso, a prisão do ex-diretor dividiu os integrantes da comissão e provocou críticas até entre velhos aliados, que compõem o grupo G-7. Em público, porém, todos negaram.

Acusado pelo policial militar Luiz Paulo Dominguetti de pedir propina em negociação para compra de vacinas contra o coronavírus, Dias foi pego em contradição ao dizer que o encontro com o homem que tentava vender o imunizante havia sido “acidental”.

No entanto, conversas gravadas desmentiram a versão. O auto de prisão elenca uma lista de 12 contradições do ex-diretor.

Bolsas asiáticas fecham em baixa

As bolsas asiáticas fecharam majoritariamente em baixa nesta quinta-feira, em meio a uma crescente ofensiva de Pequim contra grandes empresas de tecnologia chinesas e após uma inesperada sinalização de relaxamento monetário pela China gerar dúvidas sobre o ritmo de recuperação da segunda maior economia do mundo.

O mercado em Hong Kong liderou as perdas, com queda de 2,89% do Hang Seng, aos 27.153,13 pontos, menor nível neste ano.

O Hang Seng vem acumulando perdas há oito pregões seguidos, principalmente no setor de tecnologia, à medida que Pequim intensificou a pressão regulatória sobre "big techs" chinesas.

Na China continental, o Xangai Composto recuou 0,79%, aos 3.525,50 pontos, enquanto o menos abrangente Shenzhen Composto caiu 0,48%, aos 2.435,21 pontos.

Em outras partes da Ásia, o japonês Nikkei se desvalorizou 0,88% em Tóquio hoje, a 28.118,03 pontos, e o sul-coreano Kospi cedeu 0,99% em Seul, aos 3.252,68 pontos. Exceção, o Taiex registrou alta marginal de 0,09% em Taiwan, aos 17.866,09 pontos.

A indicação de que a China poderá relaxar sua política monetária também gerou um alerta sobre fragilidades na economia do país que podem comprometer a recuperação da economia global, após os choques da pandemia de covid-19.

Ontem, o gabinete da China disse que autoridades usarão instrumentos de política monetária, inclusive cortes de compulsórios, para sustentar a economia real, principalmente pequenas e médias empresas.

Na Oceania, a bolsa australiana conseguiu evitar o viés negativo da região asiática, e o S&P/ASX 200 avançou 0,20% em Sydney, aos 7.341,40 pontos. / com Júlia Zillig e Agência Estado

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