Mercado Financeiro

O mercado financeiro reagiu bem à ata divulgada pelo Fed (Federal Reserve, banco central americano), na tarde da última quarta-feira, 7, após uma manhã cautelosa permeada de expectativas acerca de possível alteração nos juros ou na política de estímulos monetários nos EUA. Localmente, o mercado aguarda o resultado da inflação de junho.

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Sinalização de que retirada de estímulos e alta dos juros nos EUA não são para agora tira pressão sobre as bolsas - Foto: Envato

Inflação doméstica/IPCA

Nesta sexta-feira, o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) divulga o Índice de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA), que mede a inflação do País, número referente ao mês de junho que deve mexer com o mercado financeiro ao longo do dia.

Segundo as expectativas dos analistas, é que o índice desacelere em relação ao mês de maio e fique em 0,59%. Segundo a economista da CM Capital, Carla Argenti, apesar da desaceleração já é possível dizer que o IPCA vai ser bastante elevado, mesmo vindo abaixo das estimativas do mercado.

"Nos meses de junho, julho e agosto, sazonalmente o IPCA apresenta resultados mais baixos. Como a inflação está em 0,60% gera uma pressão muito grande sobre o indice para o próprio Banco Central que terá que levar a cabo um ajuste da taxa de juros na próxima reunião em agosto", analisa.

Carla acredita que alguns grupos do IPCA, mais do que o resultado dele, podem fazer barulho no mercado hoje.

"Nós estamos passando um período complicado em relação às chuvas e também de avanço da vacinação e de retomada do nível de atividade econômica. A cada mês que passa, temos uma significativa diferença em alguns setores da economia", ressalta.

De acordo com a economista, um dos grupos que mais deve chamar a atenção é o de alimentação à domicílio.

"Ele tem um peso gigantesco sobre o IPCA e também pelo fato de que, com a escassez de chuvas pode provocar uma inflação ainda mais elevada e pressionar ainda mais o BC. O IPCA acumulado de 12 meses está muito além do teto da meta de inflação", analisa Carla.

Segundo ela, tanto esse grupo quanto o de preços livres - principalmente serviços e bens industriais - podem tirar a atenção do próprio resultado do IPCA, pois seus resultados darão a tônica para os próximos meses.

Ata do Fomc: tom moderado

O documento, referente à reunião do Comitê de Mercado Aberto (Fomc) realizada em 16 de junho, trouxe poucas novidades. Limitou-se praticamente a reafirmar as declarações e pronunciamentos feitos pelas autoridades do Fed após o último encontro.

Avaliação de que a economia está em recuperação mais acelerada em alguns setores, o que pode estar gerando uma pressão inflacionária que o Fed classifica como temporária.

Nesse ambiente, a ata não faz nenhuma referência a uma possível elevação dos juros no curto prazo, mas reforça a mensagem de que poderá haver alguma redução no volume de compra de ativos (títulos públicos e privados), os chamados estímulos monetários, ainda este ano.

A perspectiva de que o programa de diminuição de compra de títulos não seja executado de imediato, como temiam os investidores, deixou o mercado financeiro mais confortável.

A Bolsa de Valores de São Paulo, a B3, ganhou maior mobilidade e fechou com valorização de 1,54%. O dólar moderou a alta, avançou 0,60%, embora tenha resistido acima de R$ 5,20.

Fed tira pressão sobre mercado de ações

“O mercado reagiu positivamente à ata, porque o Fed sinalizou uma redução de estímulos, mas não para agora”, comenta Davi Lelis, especialista e sócio da Valor Investimentos.

A manutenção da política de recompra de títulos como é hoje agrada ao mercado porque aumenta a liquidez no sistema financeiro e canaliza parte dos recursos para investimento em ações e títulos de renda fixa fora dos Estados Unidos.

Mesmo que seja uma opção mais arriscada, investidores menos conservadores preferem correr maior risco em troca de uma rentabilidade mais atraente em outras praças.

Os títulos do Tesouro americano são considerados os mais seguros do mundo, mas a taxa de juros de curto prazo dos fed funds, títulos americanos equivalentes a LFT ou Tesouro Selic do Brasil, transita no intervalo entre zero e 0,20% ao ano, enquanto a taxa Selic está rodando em 4,25% ao ano e pode fechar 2021 acima de 6%, segundo estimativas.

Uma redução no programa de incentivos monetários poderia significar menos dinheiro no sistema financeiro americano, portanto menos fluxo de recursos em trânsito para mercados de demais países, um estreitamento na liquidez global que tenderia a deprimir a bolsa de valores e a pressionar o dólar, cuja oferta ficaria mais reduzida. 

O cenário econômico externo, sobretudo o americano, tem sido um dos fatores determinantes da trajetória do mercado doméstico, mais sensível a eventos internacionais dos que a fatores internos, como a CPI da Covid no Senado, que tem provocado desgaste político do presidente Bolsonaro.

Especialistas dizem que a fase atual dos trabalhos da comissão não tem gerado maior preocupação em investidores e gestores de mercado, que, embora mantenham o tema no radar, não parecem incomodados ainda com os possíveis desdobramentos práticos da investigação.

Ainda assim, entendem que a prisão de ex-diretor do Ministério da Saúde por declarações consideradas inconsistentes na CPI do Senado, ontem à tarde, pode elevar a temperatura política e criar algum ruído nos mercados nesta quinta-feira, véspera de feriado estadual em São Paulo.

O ex-diretor Roberto Dias, preso no dia anterior e solto cinco horas depois, é acusado de pedir propinas por vacinas na gestão do presidente Bolsonaro.

Wall Street: futuros em baixa

No cenário externo, os contratos futuros negociados nas bolsas de Nova York operam em forte baixa, em meio à crescente ansiedade de que a disseminação de novas variantes da covid-19 possa impactar nas expectativas de crescimento econômico e na volta à normalidade.

O número global de mortes da pandemia ultrapassou 4 milhões conforme a variante se espalha e a Organização Mundial da Saúde (OMS) recomendou cautela nas reaberturas em todo o mundo.

Os planos de estímulos do banco central norte-americano permanecem críticos para as perspectivas do mercado, especialmente o destino das compras mensais de títulos, na ordem de US$ 120 bilhões pelo Fed.

Na ata da última reunião, divulgada na véspera, os funcionários da autoridade financeira não sinalizaram um cronograma para reduzir seu programa de compras de títulos, devido à grande incerteza sobre o curso da recuperação.

O documento, bastante aguardado pelo mercado, não trouxe grandes indicativos sobre a alta ou a manutenção dos juros básicos nos Estados Unidos.

Segundo o documento, as autoridades monetárias consideram que a economia americana ainda não atingiu o padrão considerado, por elas, como “melhora substancial" para a retirada de estímulos, e que a alta da inflação é transitória.

As indicações são as de que, por enquanto, não serão retirados os estímulos monetários para a retomada mais rápida da economia nem há perspectiva de necessidade imediata de elevação dos juros americanos.

A ata expressa a dificuldade de identificar o atual estágio em que se encontra o processo de recuperação econômica, o que deve ficar mais claro nos próximos meses, com novos dados do mercado de trabalho e comportamento da inflação nos próximos meses.

CPI da Covid: Roberto Dias

Os trabalhos da Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) da Covid no Senado ganham novos capítulos a cada dia, que estão sendo acompanhados pelos investidores com mais atenção.

Na véspera, o colegiado ouviu o ex-diretor do Departamento de Logística do Ministério da Saúde, Roberto Dias, que acabou sendo preso, porém libertado após passar cinco horas na delegacia do Senado e fazer pagamento de fiança de R$ 1.100.

Acusado pelo policial militar Luiz Paulo Dominguetti de pedir propina em negociação para compra de vacinas contra o coronavírus, Dias foi pego em contradição ao dizer que o encontro com o homem que tentava vender o imunizante havia sido “acidental”.

No entanto, conversas gravadas desmentiram a versão. O auto de prisão elenca uma lista de 12 contradições do ex-diretor.

Bolsas asiáticas fecham em baixa

As bolsas asiáticas fecharam majoritariamente em baixa nesta quinta-feira, em meio a uma crescente ofensiva de Pequim contra grandes empresas de tecnologia chinesas e após uma inesperada sinalização de relaxamento monetário pela China gerar dúvidas sobre o ritmo de recuperação da segunda maior economia do mundo.

O mercado em Hong Kong liderou as perdas, com queda de 2,89% do Hang Seng, aos 27.153,13 pontos, menor nível neste ano.

O Hang Seng vem acumulando perdas há oito pregões seguidos, principalmente no setor de tecnologia, à medida que Pequim intensificou a pressão regulatória sobre "big techs" chinesas.

Na China continental, o Xangai Composto recuou 0,79%, aos 3.525,50 pontos, enquanto o menos abrangente Shenzhen Composto caiu 0,48%, aos 2.435,21 pontos.

Em outras partes da Ásia, o japonês Nikkei se desvalorizou 0,88% em Tóquio hoje, a 28.118,03 pontos, e o sul-coreano Kospi cedeu 0,99% em Seul, aos 3.252,68 pontos. Exceção, o Taiex registrou alta marginal de 0,09% em Taiwan, aos 17.866,09 pontos.

A indicação de que a China poderá relaxar sua política monetária também gerou um alerta sobre fragilidades na economia do país que podem comprometer a recuperação da economia global, após os choques da pandemia de covid-19.

Ontem, o gabinete da China disse que autoridades usarão instrumentos de política monetária, inclusive cortes de compulsórios, para sustentar a economia real, principalmente pequenas e médias empresas.

Na Oceania, a bolsa australiana conseguiu evitar o viés negativo da região asiática, e o S&P/ASX 200 avançou 0,20% em Sydney, aos 7.341,40 pontos. / com Júlia Zillig e Agência Estado

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Colaborador do Portal Mais Retorno.

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