Mercado Financeiro

A Bolsa de Valores encerrou o pregão desta quarta-feira, 19, em queda de 0,28%, aos 122.636,30 pontos. Investidores dividiram atenção entre o cenário externo, movimentado pela ata do Fomc (o Copom americano) e o ambiente interno, marcado por ruídos políticos.

Como reflexo das tensões do cenário político doméstico, o dólar teve alta nesta quarta-feira. A moeda americana à vista avançou 1,17%, cotada a R$ 5,316.

Foto: B3/Divulgação
Sede da B3 em São Paulo - Foto: B3/Divulgação

A Vale e as siderúrgicas, que haviam registrado altas significativas nos dois últimos pregões, sofreram forte recuo, em linha com a queda de 8% dos contratos futuros de minério de ferro negociados na China.

O governo chinês estabeleceu restrições para a produção de aço no polo de Tangshan, na província de Hebei, que responde por um quarto da produção da matéria prima no país. A demanda deve reduzir como consequência da medida, cujo objetivo é evitar a rápida elevação do preço do minério de ferro, que tem prejudicado as margens das siderúrgicas e pressionado custos de produção. A sinterização (preparação do aço) deve ser interrompida até quinta-feira.

Em outra frente, a mineradora australiana BHP anunciou que a mina de South Flank, situada na região oeste do país, deve entregar a primeira leva de minério de ferro nos próximos dias. Segundo Mike Henry, CEO da companhia, serão 80 milhões de toneladas por ano com teor alto de qualidade. Portanto, o projeto terá forte impacto do lado da oferta, uma resposta à alta demanda pela commodity que deve ter repercussões negativas sobre o preço. 

No cenário corporativo, os papéis do setor de mineração e siderurgia vivem um dia de perdas, em resposta à baixa nas cotações do aço e do minério de ferro na China.

Segundo a analista da Toro Investimentos Paloma Brum, junta-se a isso a expectativa de desaceleração de atividades de construção em meio à proximidade da chegada da estação de chuvas. "Nesta temporada de menor demanda, dificilmente o vergalhão atingirá novas máximas", avalia.

Os papéis da Gerdau, Vale e Usiminas registraram retração de 0,97%, 2,19% e 1,15%, respectivamente.

Ata do Fed: inflação

A divulgação da ata do Fomc (Comitê de Política Monetária americano) afetou negativamente o mercado americano e o brasileiro, cujos índices caíram após a divulgação do documento, no qual os responsáveis pela política monetária dos Estados Unidos reafirmaram o caráter transitório da atual pressão inflacionária. No entanto, muitos investidores temem possível alteração de rota com alta de juros, avalia a especialista de investimentos da Rico Investimentos Júlia Aquino.

"A sinalização de que o Fed pode diminuir o ritmo de compra de ativos gerou um efeito de realização nos mercados que também chegou por aqui. Os integrantes do comitê reforçaram o que vêm falando desde a semana passada, que a pressão inflacionária é transitória, mas alguns participantes já admitem que podem ocorrer mudanças nas políticas de compra de ativos se a economia continuar caminhando rapidamente em direção à meta", diz.

Outro dado que será conhecido hoje nos EUA e pode dar melhor ideia do ritmo da economia americana é o referente ao estoque de petróleo bruto. A expectativa de especialistas é que venha em linha com a retomada da economia americana pós-abertura.

Quer dizer, se o nível de estoque vier mais baixo que o esperado seria indicação de ritmo mais forte da atividade e possível pressão sobre a inflação, o que poderia reforçar a perspectiva de que os juros subam em prazo mais curto nos EUA.

CPI da Covid: Pazuello depõe

No cenário doméstico, a CPI da Covid, que vinha recebendo uma atenção apenas marginal do mercado financeiro, na forma de monitoramento, vive um dia de forte expectativa nesta quarta-feira com o depoimento do general Eduardo Pazuello, ex-ministro da Saúde, perante à comissão do Senado. 

O general Pazuello ganhou o direito de permanecer calado às perguntas que criem provas contra si, por decisão do Supremo Tribunal Federal (STF), mas está obrigado a responder a outras que se refiram às demais pessoas envolvidas na ação ou omissão de combate ao coronavírus, inclusive ao presidente Bolsonaro.

No início de seu depoimento para o colegiado, o ex-ministro da Saúde não abandonou a defesa tanto de sua administração, quanto a do presidente Jair Bolsonaro, destacando positivamente as ações realizadas pelo governo e pelo Ministério da Saúde no combate a covid-19, reforçando a defesa de fármacos sem eficácia comprovada para o tratamento da covid com a defesa da liberdade do médico de prescrever medicamentos "off-label", ou seja, fora da bula.

Na véspera, a oitiva do ex-chanceler Ernesto Araújo terminou após sete horas de depoimento à comissão da Covid no Senado.

Apesar da defesa das ações do governo federal durante a pandemia da covid-19, o testemunho do ex-ministro das Relações Exteriores foi marcado pelo apontamento, repetidas vezes, de que as ações do Itamaraty estiveram vinculadas às orientações do Ministério da Saúde.

Em seu testemunho, Araújo também afirmou que a Casa Branca procurou "discretamente" as representações brasileiras em Washington (EUA) para a "alocação de doses excedentes" de vacinas contra a covid-19. O motivo da discrição, segundo Araújo, era para evitar "uma discussão mundial" sobre os países que poderiam receber ou não os imunizantes.

Na próxima quinta-feira, 20, será a vez da secretária de Gestão do Trabalho e da Educação na Saúde, Mayra Pinheiro, conhecida como 'capitã cloroquina', depor no Senado.

Meio Ambiente: operação Akuanduba

Outro assunto que ajudou a elevar a tensão do mercado nesta quarta-feira é a Operação Akuanduba. A polícia federal faz buscas em endereços ligados ao ministro Ricardo Salles e ao Ministério do Meio Ambiente para apurar crimes contra administração pública supostamente praticados por agentes públicos e empresários do ramo madeireiro.

Além das buscas, o STF determinou o afastamento preventivo de dez agentes públicos ocupantes de cargos e funções de confiança no Ibama e no Ministério do Meio Ambiente.

De acordo com a Polícia Federal, as investigações tiveram início em janeiro deste ano "a partir de informações obtidas junto a autoridades estrangeiras noticiando possível desvio de conduta de servidores públicos brasileiros no processo de exportação de madeira".

MP da Eletrobras

Integra ainda o cenário de tensão política a Medida Provisória que permite a privatização da Eletrobras. De acordo com o presidente da Câmara, Arthur Lira, a proposta deve ser pautada na sessão plenária desta quarta-feira.

"A Medida Provisória estará na pauta de amanhã, pelo acordo que foi feito com o Senado", afirmou Lira, em resposta a uma reclamação do deputado Danilo Cabral, que disse ainda não ter tido acesso ao relatório. "Não podemos fazer um debate estratégico para o País a toque de caixa", disse Cabral.

O relator da Medida Provisória, deputado Elmar Nascimento, disse que seu parecer não é perfeito e poderá receber aperfeiçoamentos na votação na Câmara e no Senado.

Mau humor em Wall Street

As bolsas de Nova York fecharam em baixa nesta quarta-feira, com os investidores preocupados com a possibilidade de alta da inflação e dos juros. O S&P 500 registrou queda de 0,29%, com Dow Jones na mesma esteira, com recuo de 0,48%, e o Nasdaq 100 em queda sensível de 0,02%.

O temor do mercado é de que a inflação acima da meta de 2% não seja um fato temporário e acabe levando o Fed a modificar sua política monetária, dificultando o cenário para ações que tendem a ter bons ganhos com taxas de juros mais baixas.

Segundo a última pesquisa realizada pelo Bank of America (BofA), a inflação encabeçou a lista dos maiores riscos de cauda, seguida por uma crise no mercado de títulos e bolhas de ativos. Já a covid-19 ficou em quarto lugar.

Sobre a possibilidade de reação do Fed à alta da inflação, o chefe de estratégia de mercado da Mediolanum International Funds, Brian O'Reilly, diz que "esse sempre foi o principal risco: os BCs retiraram a tigela de liquidez antes do fim da festa".

A inflação entre 2% e 4% pode ser o "ponto ideal" para as ações, avalia O'Reilly. Ele pondera que a alta de preços não é necessariamente negativa a todos os setores. A recuperação econômica deve continuar beneficiando ações como as de bancos, bem como empresas de viagens e lazer, que são sensíveis à reabertura.

Bolsas asiáticas fecham em queda

As bolsas da Ásia e do Pacífico fecharam majoritariamente em baixa nesta quarta-feira, seguindo o fraco desempenho de Wall Street na véspera, em meio a renovadas preocupações com o avanço mundial da inflação, que pode forçar grandes bancos centrais a retirar medidas de estímulo mais cedo do que se imaginava.

O índice acionário japonês Nikkei caiu 1,28% em Tóquio, aos 28.044,45 pontos, enquanto o Xangai Composto - o principal da China - recuou 0,51%, aos 3.510,96 pontos, e o Taiex registrou leve perda de 0,08% em Taiwan, aos 16.132,66 pontos. Os mercados de Hong Kong e da Coreia do Sul não operaram hoje devido a feriados.

Na Oceania, a bolsa australiana também ficou no vermelho, com queda de 1,90% do S&P/ASX 200, aos 6.931,70 pontos, influenciada principalmente por ações de mineradoras e petrolíferas.

No dia anterior, as bolsas de Nova York caíram de forma generalizada pelo segundo pregão consecutivo, refletindo temores de que pressões inflacionárias possam levar o Federal Reserve (Fed, o banco central dos EUA) a apertar sua política monetária antes do esperado.

A exceção na região asiática hoje foi o Shenzhen Composto - índice chinês formado por empresas de menor valor de mercado -, que garantiu modesta alta de 0,14%, aos 2.327,46 pontos. / com Tom Morooka e Agência Estado

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Repórter do Portal Mais Retorno.

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