Mercado Financeiro

Investimentos internacionais.  Quem nunca se sentiu fascinado por esse tema?  Se antes eles se encontravam distantes da realidade dos brasileiros, hoje o que não faltam são alternativas para explorar o melhor de cada mercado: instrumentos de renda fixa ou variável selecionados de acordo com as preferências e os objetivos de cada investidor. 

Foto: Envato
Bonds - Foto: Envato

Em termos práticos, isso quer dizer escolher entre bonds, Exchange Traded Funds (ETFs) e Brazilian Depositary Receipts (BDRs), abarcando desde economias desenvolvidas até os chamados “mercados de fronteira”, categoria que inclui nações africanas ou países que nunca estiveram no mapa para receber investimentos estrangeiros.

Novos BDRs

O Brasil tem sido bastante receptivo nesse sentido.  Recentemente, a Comissão de Valores Mobiliários (CVM) autorizou a B3 a emitir BDRs de empresas negociadas nas bolsas de valores de Amsterdam, Londres e Toronto. 

Contando com aprimoramentos para evitar os excessos de algumas operações do passado, onde empresas listadas no exterior não ofereciam a devida transparência e proteção aos acionistas, é fato que isso beneficia as carteiras de investimentos de um modo geral.

Entre as vantagens, a exposição ao setor de commodities, representado por empresas privadas de primeira linha que não sofrem ingerência política ou falta de recursos por parte do Estado. 

Um outro ganho, menos visível inicialmente, é a viabilização de operações de fusões e aquisições (M&A) entre empresas estrangeiras e nacionais.  Diferentemente do que ocorre no exterior, onde os acionistas recebem parte em dinheiro e parte em ações, o mercado brasileiro ainda carecia dessa opção.

Mercado que já movimenta R$ 300 milhões por dia, os novos BDRs prometem conquistar uma nova leva de investidores.  Porém, escolher entre tantas companhias não é uma tarefa fácil.  Para quem investe pensando no longo prazo, não bastam apenas alguns relatórios de análise.  O contexto geopolítico importa.

Geopolítica, o passado

Uma verdade irrefutável é que tudo muda, principalmente quando se trata do ambiente de negócios.  Isso torna a gestão internacional um verdadeiro desafio. 

Se há 20 anos atrás todos apostavam na Europa, por conta da introdução do euro, hoje o continente perdeu boa parte do seu dinamismo.  Interferência política e a crise da dívida que quase arrastou a Grécia adiou os planos de integração europeia.

Mesmo contando com uma autoridade monetária (BCE), os países administram os seus orçamentos nacionais de forma independente.  Por conta disso, não existe um mecanismo que transfira recursos para regiões que enfrentam dificuldades momentâneas. 

Inevitavelmente, ocorre uma série de reuniões e um novo fundo é criado.  A cada improviso implementado, maior a resistência para adotar medidas que levem à solução. 

Letárgica para acompanhar o resto do mundo, o velho continente até hoje não possui uma empresa com o mesmo porte daquela fundada por Steve Jobs.  Para entender o que isso significa em números: a Apple vale sozinha mais do que as 30 companhias que fazem parte do índice de ações alemão (DAX).  Levando-se em conta o índice de ações francês (CAC), ela vale mais do que as suas 40 empresas listadas. 

Além dos problemas enfrentados para integrar nações tão distintas entre si, outros elementos deixaram a Europa para trás:

Geopolítica, o futuro

Olhando para os próximos 20 anos, percebe-se que os governos, já bastante endividados, precisarão de novas fontes de receitas.  Não por outro motivo, os esforços para se fechar as brechas fiscais utilizadas pelas empresas de tecnologia. 

Se a Europa representa bem a dificuldade de se chegar a qualquer consenso, é fato que o mundo observará muitas idas e vindas.  Em estudo, duas propostas:

  1. Tributar nos países onde as empresas fazem os seus negócios, como desejam os europeus;
  2. Impor um percentual mínimo (por volta de 15%), como defendem os norte-americanos.

Isso impediria que grandes empresas, operando em mercados desenvolvidos, paguem poucos impostos, dado que comercializam bens intangíveis.  Trata-se de algo em torno de 40% do que comercializam no exterior, o que poderia gerar uma receita anual em impostos entre US$ 50 bilhões e US$ 80 bilhões.

Com as negociações conduzidas pelos países do G7, jurisdições pequenas que oferecem benefícios tributários ou estruturas jurídicas para tal verão uma de suas principais fontes de recursos minguar.  Enquanto isso, a China usa a força de seu governo centralizado para impor as suas próprias regras.

Se antes havia a certeza de que Donald Trump tomaria alguma decisão unilateral, quem agora se arrisca a dizer alguma coisa?

Conclusão

Uma carteira verdadeiramente global inclui ativos além dos norte-americanos.  Com a recente atualização da norma pela CVM, qualquer pessoa poderá investir em empresas europeias e canadenses, se beneficiando da recuperação econômica, altamente favorável ao mercado de commodities, ou de negócios promissores em processos de consolidação.

Porém, colocar isso em prática exige conhecimento sobre as forças geopolíticas por trás da economia mundial.  Voltando para o início dos anos 2000, a integração europeia representava a chave para as melhores oportunidades.

Isso não se confirmou.  O continente, enfrentando seus próprios problemas macroeconômicos, não se atentou ao empreendedorismo em série que tomou conta do mundo.  Restrita a setores tradicionais, como a produção de artigos de luxo por exemplo, perdeu importância para a China.

A verdade é que pouco se sabe sobre como serão os próximos 20 anos.  A globalização já tinha iniciado o seu processo de reversão antes mesmo da pandemia.  No seu lugar, é possível observar países mais defensivos, tentando impor novas regulamentações e impostos para negócios que revolucionaram a vida de todos. 

Para quem prefere ignorar os governos e a geopolítica, investir tudo em bitcoin está longe de ser a solução:

“Para mim, as questões geopolíticas estão se tornando mais importantes. Como você pode entender a economia se você não entende a geopolítica? As pessoas pensam que os economistas apenas lidam com planilhas e gráficos.” Nouriel Roubini, economista

*Este artigo não reproduz necessariamente a opinião do portal Mais Retorno.

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Possui MBA em Finanças e LLM em Direito do Mercado Financeiro (ambos pelo Insper/SP). É gestora de uma carteira proprietária, além de ser responsável por um Family Office.

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