Renda Variável

Em setembro, a Bolsa de Valores, a B3, entrou em terreno pantanoso e até hoje encontra dificuldades para sair dele. A movimentação dos investidores também é capaz de retratar o atoleiro, desde o fluxo de investidores estrangeiros que foi negativo, à redução do total investido por pessoas físicas ou à menor alocação em ações pelos fundos de investimentos.

O Índice Bovespa escorregou dos 120 para 110 mil pontos no fim do mês e permanece patinando, sem forças para sair do lugar. E motivos não faltam, tanto os domésticos como os internacionais, para justificar as perdas. Os estrategistas da XP Investimentos, Fernando Ferreira e Jannie Li, mostram a entrada e saída de diferente investidores, elencam os principais fatores que pesaram sobre esse mercado e traçam perspectivas para a bolsa.

Foto: B3/Divulgação
Sede da Bolsa de Valores em São Paulo - Foto: B3/Divulgação

As projeções mais modestas de crescimento para 2022, a inflação em alta, crise hídrica e a proximidade das eleições estão entre as razões internas que explicam a queda no preço das ações na B3, segundo eles. Já no cenário externo, houve aumento da volatilidade como consequência da crise no setor imobiliário da China, crise energética e desaceleração no crescimento em nível global, além da sinalização de que o Federal Reserve deve dar início à retirada de estímulos à economia americana (tapering) ainda esse ano.

Todas essas incertezas, segundo os dois analistas, estariam precificadas pelo mercado, na medida em que o Ibovespa despencou de 130 mil pontos em junho para os atuais 110 mil pontos, com queda de quase 18%.

“Em setembro, o Ibovespa continuou apresentando desempenho inferior ao de seus pares internacionais, com retorno de -6,6% em moeda local. Com o real mais fraco, o resultado é de -11,7% em dólar” dizem os estrategistas. Só para comparar, as ações globais, medidas pelo MSCI ACWI, registraram perdas de -4,3% no mesmo período.

Apesar disso, o número de investidores pessoas físicas continuou crescendo no mês. "Essa tendência, somada ao potencial de migração de renda fixa e poupança, que juntos somam mais de R$ 5 trilhões (levando em conta somente fundos investidos em renda fixa), para a renda variável, nos deixam otimistas em relação ao potencial de crescimento da Bolsa no longo prazo", dizem os analistas.

Fluxo de investidores estrangeiros foi negativo

O fluxo de investidores estrangeiros na Bolsa brasileira foi negativo no mês de setembro, com um saldo de -R$ 4,8 bilhões, mas isso sem considerar a movimentação decorrente por IPOs ou follow ons.

Embora tenha registrado um saldo positivo de R$ 8,5 bilhões em agosto, o saldo mensal voltou a ser negativo, em setembro. Considerando o saldo total de 2021 até agora, o resultado é positivo em R$ 71,8 bilhões. Também sem considerar IPOs e follow ons.

Os estrategistas apostam em aumento do fluxo de investidores estrangeiros. "Como mencionamos em relatórios anteriores, a continuação do retorno desses investidores para a Bolsa brasileira se dará pelos seguintes fatores: melhor resolução sobre a trajetória fiscal e política do país; continuação da recuperação econômica; cenário positivo para as commodities e os mercados emergentes; e o avanço crescente das iniciativas ESG pelas empresas brasileiras", pontuam os estrategistas.

Fundos reduziram a alocação em ações

A alocação dos fundos de investimentos em ações também caiu e apresentou um fluxo negativo em agosto de R$15,0 bilhões (último dado disponível) em comparação com o mês anterior, chegando a R$ 805,3 bilhões empregados em ações.

Fernando e Jannie destacam que essa foi a maior saída mensal das posições em ações desde janeiro de 2021, quando houve um fluxo negativo de R$ 35,7 bilhões. Outro dado que chama a atenção é a alocação em ações que caiu 0,4 ponto porcentual, em comparação a mesmo mês de 2020, no patrimônio líquido das gestoras, representando apenas 14,8% do total.

Ao mesmo tempo, contrastando com esses dados, os fundos têm R$ 4,6 trilhões alocados em renda fixa. Número que correspondente a 84,9% do patrimônio do setor. Em agosto, houve um fluxo de R$ 46,8 bilhões nessa classe de ativos no portfólio total dos fundos, o que representa uma alta de 1% em relação a mesmo mês do ano anterior.

Em relação a 2020, a participação de pessoas físicas caiu

Os especialistas ressaltam que o crescimento de investidores pessoas físicas continuou positivo em setembro, com a entrada de mais 51.328 investidores na Bolsa, e alta de 1,3% em relação a setembro do ano passado. Com isso, o total desses investidores soma 3.970.384. 

Esse número quando comparado aos 3.229.318 registrados ao fim de 2020, o crescimento é mais expressivo, de 22,9%.

A queda de R$ 23,4 bilhões na participação de pessoas físicas é identificada na comparação com as posições empregadas em ações em setembro ano passado. Atualmente, o total alocado por esses investidores chega hoje a R$ 513,9 bilhões, o que expressa um aumento de 13,5% sobre os R$ 452,6 bilhões registrados no final do ano passado.

“O que reflete a evolução do mercado de ações brasileiro nos últimos anos”, destacam os dois. ”Acreditamos que esse crescimento de longo prazo está alinhado com a melhora da educação financeira no país. A leve queda mensal na posição total de investidores pode ser atribuída à queda na Bolsa no último mês, com o aumento da taxa Selic, bem como a percepção de riscos aumentando, dado as incertezas políticas e fiscais que estamos vivendo”.

As posições dos fundos de pensão

Pelos dados mais recentes disponíveis, de maio de 2021, da Associação Brasileira de Previdência Privada (Abrapp), o fluxo de alocação em ações pelos fundos de pensão foi positivo em R$ 51,3 bilhões em relação à dezembro do ano passado, com evolução de 68,0%. Com isso, o segmento fechou o mês de maio com uma alocação de R$126,8 bilhões em ações.

Já o fluxo em fundos de renda variável dos fundos de pensão foi negativo em R$ 35,1 bilhões em relação ao final de 2020, em 26,8%, chegando a R$ 95,7 bilhões.

Juntos, investimentos em ações e fundos de renda variável representam 21,0% da carteira desses fundos. Uma fatia despretensiosa quando comparada aos 71,1% alocados em renda fixa, e com um saldo de R$754,3 bilhões em maio deste ano.

“Esses revelam que a participação das instituições no mercado acionário ainda é baixa quando comparado à exposição à renda fixa, ou seja, ainda existe um grande potencial de migração da renda fixa para a variável”, afirmam os analistas

A participação dos investidores em bolsa

Os principais investidores da Bolsa brasileira são: 1) investidores estrangeiros (50,6%), 2) instituições (26,4%) e 3) pessoas físicas (16,9%). Juntos, eles representam 94,0% dos participantes do mercado acionário.

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Editora do Portal Mais Retorno.

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