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Entenda por que as ações do Magalu despencaram mais de 67% em 2021

Cenário macroeconômico e concorrência crescente são os principais responsáveis pela queda

Data de publicação:29/11/2021 às 05:00 -
Atualizado 8 meses atrás
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Em 2020, em meio às medidas de isolamento social adotadas como forma de combate ao avanço da pandemia de covid-19, as ações do Magazine Luiza dispararam cerca de 110% de janeiro a dezembro, o que as tornou uma das queridinhas da Bolsa de Valores. Sustentada por seu forte marketplace e operações de e-commerce, a empresa saiu às compras.

Com a volta da circulação das pessoas ao comércio físico, o aumento da concorrência no e-commerce varejista e, principalmente, a deterioração do cenário macroeconômico brasileiro, levando a uma escalada dos preços e dos juros combinada com queda na atividade econômica, tudo isso fez os papéis da companhia, que investiu pesado em aquisições ao longo de 2021, despencarem nada menos que 68,03% no ano.

ações do magalu
No longo prazo, empresa tem potencial para ser o principal e-commerce brasileiro

A concorrência cresceu

De acordo com Rodrigo Crespi, especialista de mercado da Guide Investimentos, para entender o porquê de uma desvalorização tão acentuada, a primeira coisa que o investidor deve levar em conta é a base comparativa. "No ano passado, com as restrições e comércio físico fechado, todo o fluxo de dinheiro era destinado ao e-commerce", comenta ele.

Com a virada do ano, o avanço da vacinação e a volta à normalidade, entretanto, a renda do consumidor passou a ser disputada e dividida entre as lojas físicas e o comércio online. Simultaneamente, a concorrência digital - que, atualmente, é a maior força do Magalu - também cresceu. Em 2021, empresas como Mercado Livre, Amazon e, sobretudo, a gigante asiática Shopee ganharam força e espaço entre os brasileiros.

Até o investimento em marketing por parte da concorrência aumentou e as propagandas da Shoppe, empresa de Singapura, migraram do ambiente das mídias sociais para aparecem, também, em horários nobres dos principais canais de TV aberta do Brasil.

Crespi destaca, ainda, que os bancos digitais apresentam uma nova forma de concorrência. Essas instituições estão desenvolvendo seus próprios marketplaces, com condições exclusivas para os clientes e, muitas vezes, também oferecem o famoso "cashback" (ou dinheiro de volta, na tradução).

Antes de mais nada é preciso considerar a base comparativa, lembra ele. No ano passado, com as restrições e o comércio físico fechado, todo o fluxo de dinheiro, além de um cenário de juros bastante baixo, acabou beneficiando muito o e-commerce. "A gente viu tanto empresas de tecnologia quanto de e-commerce subindo não só no Brasil, mas no mundo todo".

Cenário macroeconômico

Em 2020, quando o momento se mostrava positivo para as ações do Magalu, o cenário macroeconômico brasileiro era bastante diferente do observado agora. Como forma de tentar reduzir os impactos econômicos causados pela pandemia, o Banco Central (BC) reduziu a Selic, taxa básica de juros, a patamares historicamente baixos, na casa dos 2% ao ano.

Uma Selic baixa impulsiona a atividade econômica, uma vez que os processos de financiamento e tomada de crédito por parte do consumidor ficam mais baratos, com menos juros a pagar. Além disso, com a redução de taxas, fica mais fácil, também, para as empresas conseguirem levantar dinheiro de investidores para aplicar em seu crescimento.

Pedro Palmezani, analista CNPI da CM Capital, destaca, também, que no ano passado "muitas empresas registraram um aumento e até recordes de vendas com o consumo impulsionado pelo auxílio emergencial, o que não se repetiu neste ano".

Outro aspecto que tem um forte impacto no setor varejista em geral, incluindo o Magazine Luiza, é a crescente pressão inflacionária. Crespi explica que, além de reduzir o poder de compra dos consumidores e levar a uma alta na taxa de juros, a inflação alta também pressiona as margens operacionais da companhia. "O Magalu tem uma margem de manobra de repasse de inflação muito mais limitada do que os concorrentes internacionais", afirma o especialista.

A equipe de Research da XP Investimentos que cobre as ações do Magalu ressalta que, com base em dados apresentados pela companhia, apesar das operações no segmento online da rede varejista seguirem fortes, as vendas em lojas físicas reportaram queda de 8% na comparação anual. "A companhia sinalizou uma continuidade de uma perspectiva desafiadora no canal por conta do macro", comenta a XP em relatório.

Assim, "em relação à rentabilidade, a margem EBITDA (Lucro antes dos Juros, Impostos, Depreciação e Amortização) caiu 2,5 pontos percentuais ano a ano, devido a uma margem bruta pressionada pela maior participação do e-commerce e inflação de custos, enquanto houve um aumento de despesas de marketing no e-commerce e a performance das lojas físicas levou a uma menor diluição de despesas operacionais”, acrescentam a corretora.

Vale a pena investir nas ações do Magalu?

Tendo em vista que as ações da Magalu estão sendo negociadas, atualmente, há um valuation bastante atrativo - no fechamento da última sexta-feira, 26, os papéis eram vendidos a R$ 8,06 - os analistas da XP comentam que muitos investidores podem pensar que este é o momento para investir na companhia.

Porém, a corretora considera que é necessário cautela e atenção a outros fatores como apetite a risco, prazo de investimento do investidor e comparação de valuation com os papéis de companhias concorrentes. A XP destaca, ainda, as perspectivas de risco para a empresa.

  • Ainda existe um grande risco para os resultados das companhias varejistas, dado que a demanda pode ser mais fraca, devido ao cenário macroeconômico, e a concorrência deve continuar bastante acirrada;
  • Os produtos eletrônicos e de linha branca, que são categorias-chave para o comércio eletrônico, tendem a ser mais cíclicos devido ao tíquete médio mais alto, e a demanda dos consumidores por essas categorias pode ter sido de certa forma antecipada durante a pandemia;
  • As grandes redes varejistas estão mais expostas às classes mais baixas, que também sofrem mais em um ambiente macroeconômico mais difícil;
  • O cenário competitivo deve permaneça desafiador, o que acaba aumentando a pressão na rentabilidade das companhias.

Para Rodrigo Crespi, no curto e médio prazo a tendência é que os papéis da rede varejistas continuem sentindo os impactos trazidos pela deterioração macroeconômica. "Porém, no longo prazo, visto que a parte operacional do Magalu é bastante avançada e até superior ao de seus concorrentes, é uma empresa que deve continuar desempenhando bem e tem tudo para ser o principal e-commerce brasileiro", finaliza o especialista.

Sobre o autor
Bruna Miato
Repórter na Mais Retorno