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Economia

Web 3.0: saiba o que é a nova geração da internet e como ela vai impactar as finanças

Conceito, que atraiu investimento do surfista Gabriel Medina, é a nova geração da internet, em que estão incluídos os metaversos, sistemas de blockchain e tokens não-fungíveis (NFTs)

Data de publicação:21/06/2022 às 06:46 -
Atualizado 8 dias atrás
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Junto ao investidor serial Ricardo Siqueira e ao multifamily office Carpa, o surfista brasileiro Gabriel Medina lançou nesta segunda-feira, o Kauai Ventures, um fundo de venture capital que tem a meta de investir em startups que operem dentro da Web 3.0. O fundo terá como foco empresas de jogos de fantasias e créditos de carbono.

A Web 3.0, também chamada apenas de Web3, que chamou a atenção de Medina, é na verdade um conceito que vem ganhando cada vez mais espaço entre os entusiastas da tecnologia, investidores e de outras pessoas comuns. Trata-se da nova geração da internet, em que estão incluídos os metaversos, sistemas de blockchain e tokens não-fungíveis (NFTs), só para citar alguns exemplos.

web 3.0 Fundo de criptoativos da Fox
NFTs fazem parte da Web 3.0 | Foto: Envato

O que é a Web 3.0?

De acordo com Gustavo Torrente, professor de inovação e tecnologia da FIAP, para entender o que é a Web3 é necessário dar um passo atrás e relembrar quais são as gerações anteriores da internet.

A primeira delas, a Web 1.0, foi onde a internet de fato surgiu. Lá estavam as páginas estáticas, os primeiros navegadores, fóruns online e sistemas de mensagens instantâneas, como o saudoso MSN, por exemplo.

Para o professor de Direito Empresarial e Inovação Financeira do Ibmec, Isac Costa, que também é engenheiro de computação pelo ITA, na primeira geração da internet, os usuários podiam utilizá-la de forma passiva. Torrente compartilha da mesma opinião e destaca ainda que a Web1 pode ser descrita como um meio das pessoas consumirem conteúdos.

Já na segunda geração - que é onde estamos agora -, além de novas tecnologias como fibra ótica e 4G, vieram as redes sociais e o público passou a ter a capacidade de produzir e compartilhar seus próprios conteúdos, com uma atitude mais ativa, comenta o professor da FIAP.

No entanto, ressalta Costa, todas essas atividades dentro da Web 2.0 contam com um intermediário. No caso dos conteúdos, são as big techs, como Facebook e TikTok. Com as finanças, temos os bancos e empresas de pagamento e assim por diante.

Por fim, chegando à Web 3.0, que é o futuro, segundo os especialistas, todas as operações que ocorrerem na internet serão de ponto a ponto, sem a intermediação de nenhuma instituição. Essa é a premissa básica da nova geração da web: um funcionamento sem nenhum intermediário armazenando dados, com tecnologias cada vez mais inovadoras e que buscam garantir a segurança entre todas as operações.

Como a Web 3.0 funciona?

Em resumo, a proposta da Web3 é, justamente, reunir o que há de melhor nos dois modelos anteriores da internet, mas agregando uma maior descentralização e segurança para os dados dos usuários e para o próprio conteúdo que é compartilhado. O pilar da Web3, portanto, será a descentralização, retirando de algumas poucas companhias o papel de organizar esse conteúdo digital.

Para que isso seja possível, a tecnologia utilizada será uma velha conhecida dos investidores de criptomoedas: a rede Blockchain (cadeia de blocos). A ideia é que todo conteúdo compartilhado possa gerar um registro único, garantindo assim o direito de propriedade sobre esses conteúdos - um dos grandes problemas da internet 2.0, quando há muita apropriação indevida, algo que se tornaria mais difícil no ambiente Web3.

Para exemplificar como seria esse funcionamento, Torrente fala sobre os aplicativos de corrida e seus motoristas, bastante populares na atualidade. Hoje, um motorista com uma avaliação excelente na Uber precisa começar do zero em outro aplicativo para conquistar a mesma boa reputação. Neste caso, a Uber ou qualquer outro app servem como uma empresa centralizadora.

Com a ideia da Web3, no entanto, os dados do motorista são de propriedade exclusivamente dele e, independente da plataforma em que ele estiver, o cliente conseguirá ver sua reputação como profissional de maneira igual, porque todos os sistemas serão interligados - apenas para a prestação do serviço e não para o controle dos dados.

Há também uma proposta de tornar os conteúdos em tokens não fungíveis (modelo de atribuição única de um ativo), de modo que outras pessoas não possam se apropriar indevidamente de outras ideias pela exclusividade. Além disso, para projetos digitais que exijam a participação de mais de um usuários, os tokens seriam utilizados para aquisição.

Impactos da nova geração da internet nas finanças

O professor da FIAP pontua que o internet banking e o pix são exemplos práticos de como as finanças funcionam na Web 2.0. Os serviços acontecem de forma bastante tecnológica e rápida, mas precisam da intermediação de um banco ou outra instituição financeira. A ideia da Web3 é que as transações possam ocorrer de usuário para usuário, sem uma terceira parte de confiança.

Isac Costa afirma que o modelo de finanças descentralizadas (DeFi, na sigla em inglês), já adotado por algumas empresas, é o que o mercado tem de mais próximo da Web 3.0 atualmente. Nessa ideia, uma pessoa (física pu jurídica) empresta dinheiro para outra, por meio da rede blockchain, sem que a transação seja intermediada por nenhuma instituição.

Geralmente, as taxas de juros cobradas por quem empresta são menores do que as dos bancos tradicionais. Assim, quem empresta lucra com os juros e o tomador terá de pagar menos pelo mesmo valor. É uma “legalização da agiotagem”, brinca Torrente.

De acordo com Costa, outras transações também poderão acontecer e, para isso, será necessária a tokenização dos ativos. Um token de uma ação de uma empresa chinesa, por exemplo, funcionará como um ”envelope” que garante ao seu portador a propriedade sobre aquele ativo, podendo ser utilizado como garantia para outros investimentos, independentemente do país de origem.

”Se eu tenho um apartamento em Portugal eu não posso usá-lo como garantia para um investimento no Brasil. A ideia da Web 3.0 é retirar essas barreiras geográficas porque não haverá a intermediação”, explica o professor do Ibmec.

O uso das criptomoedas no dia a dia

Para Gustavo Torrente, o uso das criptomoedas no dia a dia ”é um caminho sem volta”. Ele cita que muitos profissionais, principalmente da área de tecnologia, já recebem seus salários com criptomoedas e que muitas operações comerciais já são feitas por meio desses ativos, para além dos investimentos.

Costa é um pouco mais cauteloso e, embora acredite que algumas teses sobre o mercado cripto podem realmente acontecer - como o bitcoin ocupar o papel que o ouro tem atualmente -, aponta que outros sistemas atuais já têm um espaço importante na vida da população. Para ele, dificilmente o uso das criptomoedas poderá substituir o pix durante um bom tempo, porque esse sistema de pagamentos é muito rápido e prático para os brasileiros.

Já para operações internacionais, o professor e advogado considera que as criptos tendem a ganhar cada vez mais espaço. Isso acontece porque “apesar da desvalorização recente, um bitcoin continua valendo um bitcoin” e, em um momento futuro quando as criptos deixarem de ser vistas pelos olhos do mercado de investimentos tradicional, será possível entender que elas têm vantagens em comparação às moedas de outros países, que sofrem com as taxas de câmbio.

Segurança e riscos da Web 3.0

“Hoje as transações onlines são validadas por instituições intermediárias, como PagSeguro. Na Web3 quem valida é a própria rede. Quem está garantindo são todas as pessoas da plataforma que estão entrando em consenso sobre as operações.

A característica do blockchain é a imutabilidade, então tudo que acontece lá fica completamente registrado, não tem como ser apagado. Se você compra e não recebe a mercadoria, alguém na rede é sorteado para auditar a transação e extornar, tudo por meio de um contrato inteligente, porque tudo estará registrado”, explica Torrente, afirmando que o ambiente de blockchain é bastante seguro.

Em contrapartida, Costa comenta que a Web 3.0 apresenta diversos riscos e destaca os principais deles.

  • Instabilidade: as novas tecnologias ainda não são completamente estáveis e, por isso, estão sujeitas a falhas operacionais;
  • Fraudes: por se tratar de novas tecnologias, ainda há pouco conhecimento sobre seu funcionamento e, neste contexto, fraudadores podem se aproveitar de outras pessoas com propostas e produtos falsos;
  • Falsa sensação de segurança: as redes blockchain realmente são tecnologias com estruturas muito robustas e segura, porém boa parte das empresas ainda não contam com uma boa política de privacidade e, por isso, ainda não há certezas sobre como os dados do usuário podem estar expostos;
  • A Web 3.0 é uma tese: todo o conceito sobre a nova geração da internet é uma tese, então ninguém sabe ao certo o que vai acontecer. “Ao contrário da Web1 e da Web2, quando primeiro aconteceu e depois pensamos sobre as mudanças, na Web3 primeiro estamos vendo a concepção, antes de chegar à prática. É preciso tomar cuidado para não mergulhar de cabeça porque a piscina pode ser rasa”, afirma o professor do Ibmec.

Kauai Ventures

Conforme revelou o Brazil Journal, a ideia do Kauai Ventures é investir em NFTs de esportes. Ricardo Siqueira disse, em entrevista ao site, que pretende alocar o dinheiro em algum negócio "que faça algo parecido com a Sorare, o unicórnio francês que criou um fantasy game de futebol baseado em NFTs e foi avaliado em US$ 4,3 bilhões numa rodada com o Softbank".

Além do montante que será destinado aos games, o fundo de Medina também quer investir em créditos de carbono que vêm da preservação dos oceanos, os "blue carbon". Diferente dos tradicionais, que investem na preservação das florestas, os blue carbon são gerados a partir da preservação e/ou reconstrução de manguezais e corais. /Com Stéfano Bozza

Sobre o autor
Bruna Miato
Repórter na Mais Retorno