Economia

‘Com pouco crescimento, estamos em estagflação’, afirma prof. Heron do Carmo

Especialista em inflação afirma que atual situação do País combina inflação alta com atividade econômica comprometida

Data de publicação:10/09/2021 às 18:08 - Atualizado 4 meses atrás
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Pautado sempre pela moderação, o economista Heron do Carmo, professor sênior da FEA/USP e um dos maiores especialistas em inflação, vê com muita preocupação o quadro atual da economia brasileira. Na sua avaliação, o Brasil está em estagflação. É uma situação que combina inflação especialmente elevada para os padrões pós-Plano Real com atividade econômica comprometida.

A principal vilã de alta da inflação e cenário econômico é a crise institucional - Foto:Youtube

A vilã do momento, segundo Heron, é a crise institucional, o que piora o cenário econômico e da inflação. Esse fator se junta aos problemas que já vinham complicando o cenário de preços, como a alta dos alimentos, dos combustíveis e a crise hídrica, por exemplo. A seguir, os principais trechos da entrevista:

Como o sr. avalia o resultado da inflação de agosto?

Estamos vivendo uma fase de surpresa sempre para pior. Segundo o Boletim Focus (do Banco Central), estamos na 22.ª semana seguida de alta de inflação para a previsão deste ano. O resultado de alta de 0,87% do IPCA (Índice de Preços ao Consumidor Amplo) de agosto veio acima da previsão do mercado, de 0,70%. Teremos muito provavelmente a continuidade do processo de aumento da previsão de inflação. Essa instabilidade institucional está contribuindo para piorar a situação.

Qual é a sua previsão de inflação para este ano?

Se não acontecer nada muito diferente até o final do ano, acredito que o IPCA feche 2021 em torno de 8,5%, quase um ponto porcentual acima do que se tinha até então. Temos um cenário de incerteza internacional como consequência da pandemia da tensão com a China e, no plano interno, uma situação de estresse institucional. Esse aumento da incerteza, da insegurança, normalmente leva a uma piora na inflação, uma piora da atividade econômica e a uma deterioração dos fundamentos. Além disso, temos um problema de conjuntura, de inflação alta e atividade menor para o próximo ano. O crescimento que se pensava entre 2,5% a 3% pode ser bem menos. Por outro lado, tudo isso contribui para comprometer o fundamento fiscal, o que contrata a continuidade da crise para o futuro.

Vamos entrar em estagflação?

Estamos entrando em estagflação, com a economia crescendo pouco, provavelmente na faixa de 1%, em 2022. Para os padrões pós-Plano Real, estamos com uma inflação especialmente elevada com atividade econômica comprometida. A situação é preocupante. A inflação está se mantendo acima do previsto e deve se sustentar assim no próximo ano. A previsão do mercado está em torno de 4%. É pouco provável que a inflação de 2022 fique abaixo de 5%. Por ora, vejo inflação na faixa de 6%.

Por quê?

Temos, de um lado, as pressões decorrentes da vacinação sobre os preços dos serviços, que estão muito defasados. Temos os efeitos da crise hídrica, que afetou a produção agrícola. Há também a questão da energia elétrica ligada à crise hídrica, a incerteza em relação ao preço do petróleo, agravado pelo fato de a taxa de câmbio estar 10% acima do esperado.

A inflação está fora de controle?

Não é que esteja fora de controle. Quando se fala em controle, logo vem a questão fiscal. E, felizmente, temos o teto de gastos, que vem dando conta do recado.

Como sair disso? Subir taxas de juros resolve o problema da alta da inflação neste momento?

Atenua. O nosso problema passou a ser de outra ordem: estabilidade política e institucional. Isto é, a certeza de que as regras do jogo serão cumpridas. A instabilidade institucional leva a mais inflação e a menos crescimento.

Subir juros é uma parte do problema, então?

Subir juros é algo para combater o sintoma. Mas precisamos combater a doença.

A solução é uma questão institucional?

Os agentes políticos têm de ter bom senso, gerenciar a situação e resolver a questão das eleições. Quem ganhar ganhou e quem perder perdeu. O fundamental é ter garantias para as regras do jogo.

Hoje pesa mais na inflação a questão da crise institucional do que a alta dos preços de uma maneira geral?

Não. Os preços de uma maneira geral e a crise hídrica têm efeito. Se estivéssemos numa situação institucional tranquila, a expectativa seria de que a economia continuasse a sua retomada com a vacinação. A inflação recuaria pelo fato de os choques perderem força. Ocorre que, com a instabilidade institucional, isso, de certa forma, contrapõe-se a essa expectativa favorável que ocorreria se tivéssemos em situação de normalidade.

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