Economia

Muito se fala sobre a importância da diversificação internacional. Afinal, desde o ano passado qualquer pessoa pode investir em Brazilian Depositary Receipts (BDRs), seja para ações, Exchange Traded Funds (ETFs) ou títulos corporativos de empresas estrangeiras.

Com boa parte dos papéis concentrados em empresas norte-americanas, é fato que possuem um nível de governança superior, sem esquecer que estão expostos aos mercados mais pujantes do mundo. 

ações da desktop

Por conta disso, são ativos que interessam a todos, desde o pequeno investidor, que os adquire via o mercado fracionário, até os fundos de investimento, que os alugam sem grandes dificuldades. Passando agora por novos aprimoramentos, o apelo dos BDRs só tende a crescer. 

Ainda assim, não se trata de um investimento sem risco.

Delta

No que diz respeito à recuperação dos EUA e, consequentemente, à recuperação mundial, uma nova onda de contágio é o que mais preocupa no momento. 

O novo coronavírus, identificado como Delta, se espalha de duas a três vezes mais rápido que a sua primeira versão.  Apesar do ritmo acelerado de vacinação, muitas regiões estão atrasadas, sendo que nenhuma vacina é 100% eficaz.

Já em relação às restrições de oferta, o país também sofre com a falta de componentes eletrônicos e o rompimento de rotas logísticas importantes. Para compensar, o setor de serviços, ainda bastante tímido, mas que tende a reagir desde que as pessoas se sintam seguras para sair de casa.

Entretanto, dois elementos desconhecidos prometem ganhar destaque daqui pra frente. Um deles é o fim dos programas de auxílio. O outro é o vencimento das medidas de alívio financeiro adotadas durante a pandemia, como a proibição de ações de despejo contra inquilinos inadimplentes e a postergação do pagamento de juros sobre os empréstimos. 

Cicatriz

Entre as várias decisões tomadas por entes públicos e privados para se evitar danos permanentes na economia, a distribuição de auxílio em dinheiro às pessoas e os programas de manutenção de empregos, além de linhas de empréstimo em condições mais favoráveis.

Grande parte já se encerrou ou está se aproximando desse estágio. Por conta disso, existem 3 preocupações no horizonte:

  1. Que o término do auxílio prejudique o consumo;
  2. Que o término dos programas de emprego deixe muitos sem trabalho;
  3. Que o retorno das obrigações financeiras cause a falência de empresas e pessoas.

O último ponto é o mais difícil de se prever. Agrupando desde aluguéis e impostos não pagos até parcelas de financiamentos, cada um passou por um desordenado processo de renegociação, que agora precisa ser sanado.

Para se tentar diminuir a incerteza em relação a isso, um olhar mais atento aos dados macroeconômicos.

Indicadores

Informações que medem o pulso da economia não têm sido coerentes até o momento:

Preços dos ativos

Altamente beneficiados desde o início da pandemia, os preços dos ativos se deslocam conforme as expectativas mudam. 

O “susto” do dia 19 de julho, que tumultuou a precificação de títulos do tesouro, ações do S&P 500 e commodities energéticas, mostrou que não há muita convicção no reflation trade, estratégia onde os investidores se posicionam nos papéis que mais se valorizam com a retomada econômica.

Dados de mobilidade

Hoje é possível se monitorar a atividade em escritórios e no varejo de um modo geral.  Porém, dado que as estatísticas oficiais são publicadas com um certo atraso, os dados de mobilidade não podem ser considerados isoladamente.

Mercado imobiliário

Um mercado que permanece bastante aquecido, de forma que as transações são realizadas sem que os potenciais compradores peçam qualquer avaliação ou visita aos imóveis de interesse. 

Os números de órgãos do setor, por outro lado, mostram algo diferente: 25% dos inquilinos e 10% dos detentores de financiamentos imobiliários não sabem se manterão os seus pagamentos em dia.  Quase 3 milhões de famílias já deixaram de pagar o aluguel enquanto algo em torno de 2 milhões de lares estão inadimplentes junto aos bancos.

Diante dos fatos, as previsões econômicas são refeitas, utilizando-se as aferições mais recentes.

Conclusão

Diante do ineditismo da situação atual, é um tanto ingênuo acreditar que não há riscos no cenário externo.

Apesar da importância da diversificação internacional, não basta escolher um punhado de ações e achar que a situação está resolvida.  Até mesmo o maior e o mais desenvolvido mercado do mundo enfrenta uma série de indefinições.

As mutações do coronavírus criam o pano de fundo para problemas ainda não solucionados, como a produção e a distribuição global e a nova dinâmica do mercado de serviços.  Além disso, medidas que deixarão de dar apoio à atividade econômica.

Isso quer dizer que os verdadeiros danos estão por vir, conforme pessoas e empresas são chamadas para reassumir os seus compromissos financeiros.  Nesse ínterim, um percentual maior da sociedade norte-americana se verá sem renda, emprego ou até mesmo moradia.

Nos mercados, essa é a realidade que se impõe visto que não há nada que indique o contrário.  Trata-se de um cenário com muito ruído e pouca coerência, o que forma um ambiente bastante propício para a negociação frenética de papéis, mas sem nenhum resultado concreto.

Espera ativa 

O ano de 2020 começou com os preços dos ativos nas alturas, mesmo com as notícias desastrosas chegando da China.  Para quem estava atento, aquela foi a oportunidade de ouro para transformar em dinheiro os ganhos de anos de valorização, decorrentes da globalização e das baixas taxas de juros.

Desde então, as gigantes de tecnologia ganharam o protagonismo.  Excessivamente caras, deixaram de ser atrativas.  Entre incertezas locais e internacionais, talvez o ideal seja cultivar o que se chama de “espera ativa”, algo que a grande maioria das pessoas não consegue fazer. 

Essa combinação de disciplina e preparo é o que separa os vencedores dos perdedores, seja na vida, no esporte ou nos negócios:

“Num mercado cheio de incertezas, de tempos em tempos, uma grande oportunidade aparece.  Quando você a vê, ela é óbvia, mas você precisa estar preparado para ela.”

Marcel Telles

Sócio-fundador da 3G Capital e um dos homens mais ricos do Brasil segundo a revista Forbes.

*Este artigo não expressa necessariamente a opinião do portal Mais Retorno

Imagem do autor

Possui MBA em Finanças e LLM em Direito do Mercado Financeiro (ambos pelo Insper/SP). É gestora de uma carteira proprietária, além de ser responsável por um Family Office.

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