Mercado Financeiro

“Viva de renda”, “seja o próximo milionário da bolsa” e “alcance a independência financeira” são as frases mais comuns para capturar os incautos e jogá-los nas inúmeras pirâmides financeiras que circulam na internet.

Afinal, não é segredo para ninguém que o mundo dos milionários traz fascínio e curiosidade entre as pessoas comuns. Amados por uns, odiados por outros e copiados de um modo geral sem muito critério, chegou a hora de descobrir o que realmente fazem com as suas fortunas.

Personalização

Qualquer pessoa que tenha feito um curso de finanças pessoais sabe que, para poder investir,  ela precisa conhecer antes as suas receitas e despesas. Da mesma forma, ela também sabe que existem investimentos com graus distintos de risco, que exigem mais ou menos tempo para gerarem retorno.

Porém, ao se entrar no mundo do private banking, percebe-se que as coisas não seguem bem essa lógica.

A verdade é que o milionário tem algumas peculiaridades. Ele não necessariamente investe naquilo que faz mais sentido do ponto de vista financeiro, mas naquilo que o mais rico do seu grupo de relacionamento investe.

Assim, percebe-se nele características típicas do ser humano como o “efeito manada” (transformado no que se chama de FOMO nas redes sociais) e investir olhando pelo retrovisor, com base na performance passada.

Reverter esse comportamento exige tempo e persistência. Portanto, é praxe entre os profissionais que atendem a esse público presenteá-lo com alguns “mimos” e certas conveniências para conquistar a sua confiança. Além disso, é fundamental conhecer aquilo que faz parte da sua rotina e de suas paixões.


Segmentação

Superada essa primeira barreira, o tamanho da riqueza determina de que forma ela será gerida.

Seleção de fundos

Essa é a estratégia mais simples de se executar. Dependendo da idade e do perfil, define-se a proporção de cada classe de ativos dentro da carteira. Entre a parte que ficará em renda fixa, por exemplo, seleciona-se o fundo que mais se destaca nesse segmento e assim sucessivamente.

Carteiras administradas

Bastante comum entre os High Net Worth, nas carteiras administradas, seleciona-se os ativos diretamente. Por exemplo, antes de se alocar em renda fixa, faz-se uma triagem de títulos públicos e privados que atendam a determinadas necessidades. Caso o investidor milionário esteja interessado em papéis isentos de Imposto de Renda (IR), então direciona-se a escolha para debêntures incentivadas, CRIs e CRAs, e assim sucessivamente.

Isso exige mais tempo para compor toda a carteira de ativos, tanto em termos de monitoramento como de execução. Eventos de mercado impactam nos preços desses ativos, sem contar o próprio processo de compra e venda dos mesmos.

Fundos exclusivos

Disponível apenas para os Ultra High Net Worth (multimilionários), trata-se do estado da arte do mundo dos investimentos.

Suas principais vantagens são:

Investimentos

Desmistificar a imagem de que os milionários passam o dia inteiro fazendo day trade foi o que me incentivou a escrever o livro “Family Office: O que a gestão de fortunas me ensinou sobre dinheiro, família e sociedade”.

É fato que eles possuem boa parte dos ativos negociados no mercado financeiro, mas o que os diferencia dos demais investidores é a abordagem que possuem em relação a eles, sustentada basicamente em 3 pilares:

  1. Visão de longo prazo;
  2. Diversificação internacional;
  3. Investimento em fundos com menor liquidez, mas que podem oferecer resultados muito superiores aos demais investimentos.

É nesse último item, focado na economia real, onde superam aqueles que se dedicam única e exclusivamente a olhar gráficos de análise técnica.

Private equity e venture capital

São os fundos especializados em comprar empresas, organizá-las, consolidá-las e posteriormente vende-las, com lucro. Distribuídas em várias “safras”, elas possuem um tempo de maturação para que possam ser negociadas, trazendo sempre um novo fluxo de oportunidades para esses fundos.

Os setores de educação e de saúde são alguns dos exemplos de como esses fundos funcionam. Conforme os investidores de varejo entram nos IPOs, os milionários do private equity lucram, vendendo as suas participações.

Imobiliário

Os estágios iniciais de um empreendimento imobiliário são os que apresentam os maiores retornos. Para os milionários que herdam grandes propriedades, essa é uma forma de se rentabilizar um terreno, recebendo em troca parte da construção para que seja alugada ou até mesmo vendida para um fundo de investimento imobiliário (FII).

Já para aqueles não restritos à composição da herança, a estratégia almejada passa por investir em fundos de fundos (FoFs) imobiliários. Ao invés de comprar 20 casas para alugar, que muitos acham que é como os milionários investem, os verdadeiros milionários distribuem os recursos entre os fundos de tijolo e de papéis, diversificando entre empresas, setores econômicos e localização geográfica.

Trata-se de uma excelente forma de se montar uma carteira de rendimentos isentos, dado que os fundos de investimento imobiliário não pagam Imposto de Renda (IR) sobre o que distribuem.

Infraestrutura

Os fundos de participações, específicos para infraestrutura (FIP-IE), oferecem a vantagem de agrupar empresas que funcionam mediante uma concessão de serviços públicos, de forma que são remuneradas por uma taxa fixa, além da atualização pela inflação.

Isso é fundamental para quem possui visão de longo prazo, como já citado anteriormente. O fato desses fundos serem totalmente isentos de Imposto de Renda (IR) também traz um diferencial importante quando os juros se encontram em patamares bastante baixos.

Entre os principais negócios, está o de transmissão, que remunera bem e possui regras claras e consolidadas, além das energias renováveis, de grande apelo junto ao público preocupado com o meio ambiente.

FIDCs

Um dos atrativos dos fundos que compram créditos originados por operações mercantis é o fato do investidor escolher o tipo de cota que deseja adquirir, limitando o nível de risco ao qual estará exposto.

Mesmo em momentos atípicos, como o atual, os Fundos de Investimento em Direitos Creditórios (FIDCs) podem apresentar retornos interessantes. Isso se deve ao fato de muitos deles contarem com consultorias especializadas em sanar companhias, seja pela via da reorganização de seus processos, seja pela venda de parte de seus ativos.

Conclusão

O investidor milionário sofre das mesmas limitações de um investidor comum. Por conta disso, precisa de aconselhamento para que possa ver o seu dinheiro crescer. Para lhe ajudar nessa tarefa, conta com a área de private banking e wealth management das principais instituições financeiras, além dos multi-family e single family offices para os serviços mais exclusivos.

No mundo das altas finanças, não existe limite no que diz respeito ao tipo de estrutura e oportunidades de investimentos. A verdade é que, quanto maior o patrimônio, mais complexa é a sua gestão, o que exige dinheiro e equipes com conhecimento especializado. Dito isso, a ideia de que “investem” em jatinhos e festas cinematográficas não poderia ser mais equivocada.

Diferentemente do investidor comum, os mais abastados buscam retornos diferenciados nos fundos que se concentram na economia real. Começando pelo private equity, bastante consolidado no Brasil, os milionários ganham com o potencial de empresas de médio porte que, quando aprimoradas, se tornam referências em seus setores.

Na área imobiliária, ganham não só com as propriedades valiosas que herdam como também se beneficiam da variedade de fundos imobiliários para se exporem em segmentos importantes, sem que tenham que imobilizar capital.

Por terem uma visão de longo prazo, apostam na infraestrutura que toda sociedade moderna exige, como a energia renovável, da mesma forma que financiam soluções para empresas que podem dar a volta por cima e fomentar o crescimento fundamental para uma economia dinâmica e inovadora.

É nisso que aposta a nova geração de milionários, mais internacionalizada e rica que a anterior:

“Como no xadrez, há vezes em que, para ganhar, é preciso sacrificar uma peça.“

La Casa de Papel
Descomplicando a Bolsa de Valores

Possui MBA em Finanças e LLM em Direito do Mercado Financeiro (ambos pelo Insper/SP). É gestora de uma carteira proprietária, além de ser responsável por um Family Office.


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