Mercado Financeiro

Com o golpe sofrido no início de 2020, é fato que ainda há muito a se recuperar: estímulos econômicos estão sendo prorrogados, mudanças a serem realizadas, e não estamos nem perto da tão almejada recuperação em “V”.

Enquanto todo mundo olha para os gráficos coloridos das ações de tecnologia e se diverte negociando opções, um ou outro acompanha superficialmente as imagens dos incêndios em locais tão distantes como Austrália, EUA e até mesmo Brasil.

Como pano de fundo, aquela doce e prazerosa ignorância sobre o que está por vir.

A próxima crise

O que as evidências de degradação da natureza mundo afora exibem é a complexidade da mudança climática. Por ocorrer simultaneamente em várias partes do mundo, exigirá medidas mais drásticas que a adoção de quarentenas, já suficientemente custosas do ponto de vista econômico.

Alguns números mostram a ordem de grandeza do próximo grande evento a ser enfrentado pela humanidade. Para que se possa manter a temperatura média do planeta em menos de 2oC acima dos níveis pré-industriais, as emissões de gases de efeito estufa precisam cair a “zero” até meados de 2050.

A título de comparação, no período mais rigoroso das quarentenas, as reduções se limitaram a apenas um dígito (entre 4% e 7%). Dito de outra forma, mesmo com toda a população do mundo trancada em casa, o nível de emissões ainda precisaria cair mais de 90% nos próximos 30 anos para que as alterações climáticas deixem de ser cada vez mais extremas e danosas.

Combustíveis fósseis

Há aproximadamente 200 anos fazemos uso de combustíveis de origem fóssil para boa parte de nossas atividades. Olhando para algumas estatísticas, temos, por exemplo:

Dados da Agência Internacional de Energia (IEA, na sigla em inglês) são reveladores: pouco mais de US$ 1 trilhão em investimentos por ano é o valor da conta a ser paga apenas pelas geradoras de energia elétrica.

Para quem imaginou os impactos na tradicional distribuição de dividendos do setor elétrico, isso é apenas o começo.

A verdade é que o mercado financeiro pode ser chacoalhado por 3 grandes questões que podem mudar radicalmente a forma como se avaliam debêntures incentivadas (infraestrutura), fundos de participações (FIPs-IE), fundos imobiliários, Certificados de Recebíveis Imobiliários (CRIs), ações e fundos de previdência de um modo geral.

Operações

Foi-se o tempo em que uma empresa produzia tudo dentro de suas próprias instalações. “Factory China” é o melhor exemplo do que as cadeias de produção globais podem fazer pela economia mundial.

Assim, percebe-se que os danos das alterações climáticas não se limitam apenas a prédios e galpões, mas também aos cortes de suprimento em função de estradas alagadas ou ferrovias interditadas. Apesar da guerra comercial entre os EUA e a China ter trazido à tona a importância de novos arranjos produtivos, ainda há muito a ser feito.

De acordo com dados da revista inglesa The Economist, 70% dos smartphones são produzidos em uma única região chinesa. O país asiático também detém metade da produção global de notebooks.

Ainda que não haja metodologia específica para se prever a ocorrência de grandes eventos climáticos, as gestoras de fundos tentam mensurar os prováveis prejuízos nos negócios. Levando-se em conta uma amostra de 11.000 companhias de capital aberto, algo em torno de 2% a 3 % de seu valor pode ir embora da noite para o dia.

Os percentuais sobem para 4% no caso de empresas de energia (cujas redes deixam de abastecer as cidades), 8% para empresas de telecomunicações (cujas torres possuem autonomia de apenas 4 horas) e 9% para estruturas detentoras de ativos imobiliários, a exemplo dos fundos de investimento imobiliário.

Setores bastante tradicionais, que antes contavam com a cobertura de seguros, hoje encontram companhias cada vez menos dispostas a subscrever apólices para danos mais abrangentes.

Regulamentação

Algo em torno de 1.900 novas regulamentações ambientais foram implementadas no mundo nos últimos 10 anos. Sem julgar o mérito dessas medidas, ao se impor novas regras para a transição energética, exclui-se um adicional de 3,1% do valor de mercado das empresas negociadas em bolsa caso passem a valer ainda em 2020.

O problema é que, quanto maior a demora para adotá-las, maior o esforço que elas terão que fazer, reduzindo ainda mais o valor das mesmas. Dependendo do setor de atividade, as perdas podem chegar a 43% do valor de mercado.

Mesmo que os governos concedam um período para que as companhias se adaptem, é fato que a própria sociedade já impõe uma resposta para essa questão. As redes sociais estão aí para promover ou boicotar produtos e serviços, dependendo da lista em que estão (eco-friendly ou não).

Dito isso, restam às empresas negociar os seus ativos, vendendo os ruins e comprando os bons. Não por acaso, as petroleiras se tornaram grandes investidoras em energias renováveis pois sabem que, se saírem na frente, conseguirão condições mais vantajosas.

Litígios

Usando o mesmo período de 10 anos, mais de 110 casos contra empresas foram levados à Justiça. Para aqueles que se lembram das altas indenizações pagas pelas fabricantes de cigarros por danos à saúde, esse contexto é bastante familiar.

O argumento é o mesmo: citando novamente as petroleiras, que vendem combustíveis fósseis de forma lucrativa, elas deveriam indenizar a sociedade pela externalidade negativa que causam. Esse custo pode representar de 5% a 20% do lucro antes dos impostos.

Isso sem considerar outros problemas de ordem jurídica como, por exemplo:

Um processo contra o próprio governo britânico tornou-se notório. Ao se proibir a expansão do aeroporto de Heathrow, usou-se como motivo principal a violação das metas nacionais de mitigação dos danos climáticos.

Dado que os impactos não se limitam às indenizações, os litígios geram um efeito cascata que prejudica justamente os maiores investidores de infraestrutura do mundo, os fundos de pensão e os de previdência.


Conclusão

Atualmente, são as empresas que mensuram e publicam o quanto estão mitigando a emissão de gases de efeito estufa. Isso quer dizer que muitos dos riscos ainda são desconhecidos.

Para aqueles que buscam uma carteira literalmente resiliente ao clima, cabe verificar quem está indo além do discurso do ecologicamente correto, substituindo suas fontes de energia por tecnologias mais promissoras e implementando projetos de eficiência energética.

Como demonstrado aqui, falhas no endereçamento da questão climática expõem negócios de todos os setores a três fatores potencialmente desestabilizadores. O primeiro diz respeito às suas operações e inclui tudo aquilo que permite o seu funcionamento como logística, energia e telecomunicações.

A regulamentação, por sua vez, implica na adoção de medidas mais rigorosas ao mesmo tempo em que as companhias substituem os seus ativos. Isso traz riscos e oportunidades para um ambiente de negócios onde é preciso driblar simultaneamente as multas aplicadas pelas autoridades e os boicotes impostos pelos consumidores.

O terceiro fator é uma consequência dos demais e gera impactos imprevisíveis para a enorme indústria de fundos, para onde são canalizados os recursos de longo prazo de todos, independentemente de nível social, valores, raça ou gênero.

Dito isso, o mundo dos investimentos não serve apenas para capturar as “oportunidades” que aparecem na palma da mão. Está mais do que na hora de se apoiar nas evidências e usar o senso crítico antes de investir pois, no que diz respeito ao clima, as perdas se acumulam.

Os bancos, por iniciativa do próprio Banco Central (BC), já avaliam os riscos climáticos quando concedem operações de financiamento. Investidores de um modo geral deveriam fazer o mesmo.

“Essa é a primeira geração que sente o impacto da mudança do clima e, ao mesmo tempo, a última capaz de fazer alguma coisa.”

Barack Obama
Como Investir nos Melhores Fundos
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Possui MBA em Finanças e LLM em Direito do Mercado Financeiro (ambos pelo Insper/SP). É gestora de uma carteira proprietária, além de ser responsável por um Family Office.


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