Renda Fixa

A mão firme do Banco Central na condução da política monetária e a piora de expectativas com o cenário fiscal estão levando a uma remodelação da carteira de títulos públicos comprados pela internet na plataforma do Tesouro Direto. Em julho, os investidores preferiram o Tesouro Selic, indexado à taxa básica de juros, ao Tesouro IPCA, atrelado à inflação oficial, que vinha sendo o preferido nas compras pela plataforma desde dezembro.  Os dados foram divulgados pelo Tesouro Nacional nesta terça-feira, 24.

A captação líquida, de R$ 934,1 milhões, em julho foi a maior desde abril de 2021, quando o saldo positivo da diferença entre compra e venda de títulos públicos chegou a R$ 1,6 bilhão.

Foto: Marcello Casal Jr/Agência Brasil
Edifício-sede do Banco Central no Setor Bancário Norte, em lote doado pela Prefeitura de Brasília, em outubro de 1967

O Tesouro Selic foi o papel mais procurado pelos investidores, com participação de 44,80% nas vendas da plataforma, seguido pelos títulos indexados à inflação, o Tesouro IPCA, com 41,2%, e pelos prefixados, em terceiro, com 14% do total.

Do saldo de recursos em estoque do Tesouro Direto, no valor total de R$ 67,9 bilhões, os títulos indexados à inflação participam com uma fatia de 54,8%, os amarrados à Selic, com 25,5%, e os prefixados, com 19,6%.

Aceleração na alta dos juros deu brilho ao Tesouro Selic

O interesse por títulos indexados à taxa básica de juros, o Tesouro Selic, aumentou depois que o Banco Central (BC) acelerou o passo na elevação dos juros e indicou que pretende conduzir a Selic acima da inflação, comenta Caíque Coutinho, especialista em Renda Fixa da Veedha Investimentos. Para quem esperava um empate de zero a zero entre inflação e Selic, no fim do atual ciclo de elevação, a sinalização do BC é a de que pretende levar a Selic acima do nível considerado neutro, quer dizer que a taxa passará a rodar com margem real, acima da inflação.

A expectativa de uma virada da Selic sobre a inflação atraiu o investidor para um título que tende a proteger não apenas contra a inflação, mas também a remunerar com juro real, avalia Coutinho.

O especialista vê como interessante a opção pelo Tesouro Selic, dado o cenário de momento, mas recomenda cautela ao investidor que pensa sair do Tesouro IPCA para o Tesouro Prefixado, cuja taxa também está em alta.

O Tesouro IPCA remunera com juro real prefixado mais correção monetária pelo IPCA (Índice de Preços ao Consumidor Amplo), uma indexação a índice de preços que serve de proteção ao capital contra a inflação.  Já o Tesouro Prefixado remunera com uma taxa de juros previamente definida, em que se presume estar embutidos juro real e correção monetária em um só taxa.

Nesta terça-feira, o Tesouro Prefixado 2026, com vencimento em 1º/1/2026, foi oferecido por uma taxa em torno de 9,88% ao ano, uma taxa superior à de cerca de 8,74% ao ano, ofertada em 26 de julho. “Em 30 dias, foi adicionado um prêmio de risco superior a um ponto na curva de juros”, aponta Coutinho. Em 18 de agosto, a taxa encostou em 10,34%.

No Tesouro Prefixado 2026 ofertado ontem o investidor terá ganho se a inflação a cada ano ficar abaixo de 9,88%. Se ficar acima, terá perda. Ao contrário do Tesouro IPCA, que assegura ganho positivo equivalente ao juro prefixado, independentemente do comportamento da inflação.

Piora no cenário fiscal pressionou os juros

A alta mais recente dos juros refletiu a piora do cenário fiscal, com dúvidas dos investidores em torno do compromisso do governo com o controle das contas públicas, a partir da proposta de criação de novo programa social e de pagamento de precatórios sem disponibilidade de recursos em caixa. “Pessimista com a deterioração do quadro fiscal, o investidor passou a exigir mais prêmio para comprar títulos públicos.”

O quadro de incertezas com o controle das contas do governo pressionou também a remuneração do título indexado à inflação, o Tesouro IPCA, cuja taxa prefixada passou de 4,50% ao ano, pela primeira vez desde o início da pandemia, em janeiro de 2020. Nesta terça-feira, a taxa do Tesouro IPCA 2026, com vencimento em 15/8/2026, rondou a casa de 4,52% ao ano, mais correção monetária pelo IPCA.

A escalada dos juros, sobretudo nos títulos prefixados, passou a chamar a atenção de investidores que veem as taxas atraentes para um cenário futuro em que se presume que a inflação esteja domada pela atuação dura do BC na calibragem da taxa Selic, no ciclo de ajuste em curso.

Pelo último boletim Focus, analistas e economistas do mercado financeiro projetam um IPCA de 7,11% para este ano que, em trajetória queda, recuaria para 3,93% no fim de 2022. Tendência de baixa que seria mantida nos anos seguintes. A Selic estimada está em 7,50% ao ano, tanto para 2021 quanto para 2022.

Essa perspectiva, se materializada, redundaria em polpudos ganhos para quem abraçar um título prefixado como Tesouro Prefixado com vencimento em 2026 que embute taxa de juros de 9,88% ao ano.

“À primeira vista é uma taxa interessante, mas é preciso considerar o nível de risco país, que pode manter os juros em alta além do previsto”, alerta Coutinho, para quem é prematuro começar a pensar em prefixado. “O cenário é ainda de aumento dos juros, o melhor é ficar em um pós-fixado, garantir uma proteção em um título indexado ao IPCA.”

De acordo com ele, o momento é mais de busca de proteção do que de aposta, embora a curva de juros (nos títulos prefixados) tenha incorporado muito prêmio (adicional sobre a taxa considerada normal). “Um título como o Tesouro IPCA que remunera com juro de 4,50% ao ano, fora a correção monetária, é mais atraente e segura.”

Para o especialista em Renda Fixa da Veedha Investimentos, o grande rali do momento no mercado de renda fixa está sendo comandado por esses títulos com vencimentos próximos de 2026.

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Editora do Portal Mais Retorno.

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