Economia

Uma das grandes preocupações para 2021 é a volta da inflação. No caso do Brasil especificamente, ela tende a chegar a 6% ao ano no fim do primeiro semestre. Isso quer dizer que, em algum momento, o Banco Central (BC) terá que subir os juros para atender ao que determina o regime de metas de inflação.

Alguns gestores do mercado já desconfiam que isso possa ocorrer antes e com mais intensidade do que o esperado, visto que a inflação de serviços pode trazer surpresas, conforme essas atividades são retomadas. Isso por si só seria suficiente para gerar uma grande venda de ativos, trazendo prejuízos para a maioria dos investidores pessoa física.

Mas, antes que alguém entre em pânico, vale aqui um pouco de contexto.

Baixa inflação

Mundialmente falando, a inflação nunca retornou aos níveis de antes de crise de 2008. Isso permitiu que governos e bancos centrais fossem bastante ousados na última década. Com os juros já baixos, não há muito que a política monetária possa fazer. Não por outro motivo, surgiram os programas de compras de ativos e os juros negativos.

Na pandemia, isso se mostrou ainda mais verdadeiro. Consequentemente, índices de endividamento público superiores a 100% do PIB já não causam tanto espanto entre os gestores internacionais, muito mais preocupados em remunerar os recursos diante de baixos retornos e uma economia real em frangalhos.

Percebe-se então que toda a valorização vista ao longo de 2020 só se sustenta se não houver nenhuma expectativa de inflação fora do controle quando a atividade econômica voltar aos trilhos.

Repique inflacionário

Depois de tanto tempo em casa, a primeira coisa que a sociedade de um modo geral deseja é recuperar o tempo perdido. Assim, não é difícil de imaginar um grande contingente de pessoas disputando uma oferta inicialmente limitada de bens e serviços, seja por conta de cadeias globais sofrendo com a falta de insumos, seja por conta dos profissionais que não conseguem voltar a trabalhar.

Inevitavelmente, haverá um aumento de preços, ainda que atenuado no longo prazo. O problema é que, dado o ineditismo da pandemia, existe o risco de os bancos centrais errarem na dose, dificultando a vida de governos, empresas e pessoas altamente endividados.

Se os ativos que possuem se desvalorizam (quando trazidos a valor presente) a cada aumento de juros, como esses agentes irão honrar esses compromissos, cujos valores só aumentam?

Oferta de moeda

São outros fatores que determinam a dinâmica inflacionária no pós-pandemia. Ao contrário do que previa Milton Friedman, não há mais uma relação direta entre a oferta de moeda e a inflação.

Hoje, praticamente 20% de todo o dinheiro que circula no mundo não existia antes da covid-19. Da mesma forma, os balanços dos principais bancos centrais (usados para financiar os programas de estímulo à economia) cresceram mais de 20% do PIB somado de Estados Unidos, Inglaterra, Japão e União Europeia.

Entretanto, no que diz respeito à inflação de longo prazo, não se sabe se ela realmente se estabeleceria em patamares mais altos. É fato que as expectativas dos agentes econômicos não apontam para isso e o desemprego permanecerá em níveis elevados por um bom período, reduzindo qualquer chance de um mercado de trabalho mais apertado.

Produtividade

Um estudo do Banco Mundial mostra que, em países que já enfrentaram pandemias, observa-se uma queda de 9% na produtividade depois de um período de 3 anos. Porém, talvez isso não se repita agora.

Da mesma forma que o computador mudou as nossas vidas, a digitalização ocorrida durante o ano pode acelerar o crescimento econômico sem causar inflação. Ela seria inclusive uma das formas de se elevar a renda per capita no longo prazo, desde que acompanhada de educação de melhor qualidade, mais investimentos e o uso de novas tecnologias.

Para tanto, precisa estar inserida em políticas públicas próprias, propiciando o desenvolvimento da infraestrutura mais adequada. Olhando para trás, o último grande salto de produtividade foi na década de 90, quando os emergentes se integraram às cadeias de suprimento globais, assimilando novos meios de produção.

Com a chegada da crise de 2008, a produtividade nunca mais foi a mesma. Mesmo com as possibilidades oferecidas pela computação em nuvem e pela inteligência artificial, as empresas ainda estão aprendendo a usá-las, ajustando os seus processos internos.

Curva J de produtividade

Esse aprendizado é chamado de “curva J de produtividade”: a cada inovação, existe um deslocamento no uso de capital e de trabalho, com a consequente perda da produtividade em um primeiro momento e antes do grande salto tecnológico.

Como a pandemia forçou as empresas a se adaptarem rapidamente, tudo indica que se trata de mais um desses deslocamentos, iniciando um novo ciclo de grande produtividade. Basta pensar no avanço da telemedicina, por exemplo.

Inovação

Atendo-se ainda ao aspecto de uma economia movida por novos elementos, é no ambiente de baixas taxas de juros ou de regulamentação menos rígida que surgem as inovações financeiras.

O exemplo mais recente disso é a negociação de derivativos de água na bolsa de Chicago e na NASDAQ. Criados basicamente para fornecer um mecanismo de proteção para agentes que lidam diretamente com ela, levantaram dúvidas sobre o seu uso para fins especulativos em um mundo onde a demanda é muito superior à oferta, principalmente quando se leva em conta o aquecimento global.

Ainda assim, um mercado futuro para a água (ou a sua transformação em uma commodity) não deveria causar surpresa diante da ocorrência cada vez mais frequente de eventos climáticos extremos, visto que o principal objetivo de um contrato futuro é a transferência de um risco.

No mundo empresarial, a gestão de riscos é tão importante quanto a gestão financeira. Empresas que fazem isso bem inclusive possuem mais facilidade para levantar recursos no mercado de capitais. Imagine uma companhia de infraestrutura que investe em equipamentos e tecnologia para transportar água, reduzindo os vazamentos. Não estaria ela contribuindo para um serviço mais eficiente, dada a sua produtividade?

O mesmo pode ser dito sobre startups, disruptivas por natureza, gerando novos meios de se evitar o desperdício. Afinal, de acordo com cálculos do banco suíço UBS, trata-se de um mercado de US$ 655 bilhões.

Com os preços dos ativos negociados em bolsa na estratosfera, como já citado anteriormente, essa é uma excelente oportunidade para se investir em um segmento pouco explorado e que remunera a taxas maiores.

Conclusão

Desde a crise de 2008 que se fala no retorno da inflação. Esse temor sempre foi justificado pelos juros muito baixos e pelos programas de compra de ativos, que permaneceram em vigor por muito mais tempo que o inicialmente previsto.

Com os esforços fiscais e monetários adicionais colocados em prática para se combater os efeitos danosos das restrições à mobilidade, é fato que governos, empresas e a sociedade de um modo geral alcançaram níveis de endividamento bastante elevados.

Havendo qualquer descontrole inflacionário decorrente de um desequilíbrio entre uma demanda reprimida e uma oferta não totalmente recomposta, bancos centrais se sentirão compelidos a elevar os juros, o que causaria uma imediata redução nos preços dos ativos detidos por todos, dificultando o pagamento de compromissos financeiros.

Porém, existem dúvidas se a inflação no longo prazo é realmente uma ameaça, dado que podemos estar diante de um novo período de grande produtividade por conta da digitalização. Enquanto na década de 90 isso ocorreu por meio do comércio internacional, que barateou uma infinidade de produtos, agora é bastante provável que esse movimento seja liderado pelos serviços digitais.

Independentemente dos desafios para os próximos anos, a verdade é que sempre existirá um mercado financeiro dinâmico e criativo para endereçá-los. Seja para oferecer proteção ou explorar as oscilações bruscas de preços, uma coisa a pandemia não mudou. Capital e trabalho ainda vão atrás das melhores oportunidades:

“Burocratas no governo não conseguem controlar a economia.”

Milton Friedman
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Possui MBA em Finanças e LLM em Direito do Mercado Financeiro (ambos pelo Insper/SP). É gestora de uma carteira proprietária, além de ser responsável por um Family Office.

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