Economia

A taxa básica de juros, a Selic, deverá subir para 6,25% ao ano esta semana. A maioria dos analistas do mercado financeiro, cerca de 80%, aposta em uma elevação de 1 ponto porcentual no juro básico atual de 5,25% ao ano, em decisão que será tomada pelo Comitê de Política Monetária (Copom), do Banco Central (BC), na quarta-feira, no término da reunião de dois dias que começa nesta terça-feira, dia 21.

O prognóstico da parcela restante, de 20%, é de uma elevação de 1,25 ponto porcentual, o que arredondaria a Selic para 6,50%. Uma ala que foi ganhando adesões à medida que os dados mais recentes do IPCA apontaram que a inflação, em marcha cadenciada de alta, não dá trégua. 

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Copom deve subir a taxa Selic a 6,25% na reunião desta quarta-feira, estima o mercado - Foto: Envato

O IPCA, o termômetro oficial de variação dos preços, mediu inflação de 0,87% em agosto. Embora inferior ao avanço de julho de 0,96%, o preocupante é que IPCA de agosto apontou disseminação maior de alta de preços, além de outras fontes de pressão, refletidas na composição mais desfavorável do índice.

O agravamento das expectativas com a inflação estimulou revisões para cima nas estimativas de alta da Selic nesta próxima reunião do Copom. A aposta sobre a possibilidade de uma elevação maior que 1 ponto porcentual, de 1,25 ponto, passou a encorpar e a prosperar entre analistas, movimento revisionista desencorajado pelas declarações do presidente do BC, Roberto Campos Neto, semana passada.

Campos Neto comentou em um evento que levaria a Selic para onde fosse necessário, sem que isso significasse alterar a gestão de política monetária a cada dado de inflação. A fala esvaziou as apostas em uma alta mais agressiva e trouxe de volta o entendimento ao mercado de que o que continua valendo é a sinalização de elevação de mais um ponto porcentual na Selic, em setembro, como sinalizado na ata da última reunião.

“A declaração do presidente do Banco Central foi correta tecnicamente, já que o mercado estava estimando um aumento de 1,25 ponto percentual, por uma série de fatores, como o IPCA de agosto (0,87%)”, avalia Gustavo Bertotti, economista e head de Renda Variável da Messem Investimentos. “Essa afirmação de Campos Netto colocou um freio nas especulações.”

Selic não deverá ter alta maior a cada solução da inflação

Analistas e especialistas do mercado comentam que o presidente do BC passou recado aos mais afoitos que está olhando para além das altas recentes de preço nas ponderações para a calibragem da Selic.

Os dados de inflação estimada para este e o próximo ano no boletim semanal Focus, contudo, não deixam o BC confortável em relação às expectativas para o IPCA. As projeções mais recentes para ambos os anos indicam inflação acima da meta central. A estimada para este ano está em 8%, acima da meta central de 3,75% e do limite de tolerância de 5,25% fixados pela autoridade monetária; a de 2022, de 3,98%, também supera a meta inflacionária central de 3,50%.

Analistas e profissionais de mercado avaliam que se a decisão do Copom vier em linha com a corrente majoritária das expectativas e a Selic subir 1 ponto porcentual, para 6,25% ao ano, o mercado financeiro não tende a nenhuma reação, ainda que momentânea. Mudanças de humor poderão ocorrer se o ajuste na Selic vier acima ou abaixo do esperado.

Qualquer que seja a calibragem, o efeito da decisão será imediato nas aplicações de renda fixa com juros atrelados à taxa básica, que passarão a rodar na mesma toada da nova Selic – uma taxa que, por enquanto, ainda estará correndo abaixo da inflação corrente no curto prazo.

A nova Selic, segundo especialistas, não tende a impactar negativamente a bolsa de valores. A menos que uma elevação diferente da estimada pelo mercado na taxa básica provoque um ajuste mais expressivo na curva de juros futuros – uma escalada que leve a uma remuneração mais atraente nas aplicações prefixadas de renda fixa de prazos mais longos.

Cenário é desafiador para a Bolsa

A arrancada dos juros futuros, em cenário de agravamento de instabilidade político-econômica, já tem levado investidores institucionais - como fundos de pensão, de ações e multimercado – a remodelar a carteira de investimentos, com a migração de parte dos recursos ancorada em ações para a renda fixa doméstica ou investimentos no exterior.

Qualquer que seja a nova Selic, o cenário tende a ficar mais desafiador doravante para a bolsa de valores. A nova elevação dos juros se segue ao aumento da alíquota de Imposto sobre Operações Financeiras (IOF) cobrado nas operações de crédito, definido na quinta-feira. Movimento simultâneo de alta da Selic e do IOF agravará as condições financeiras das companhias, com impacto negativo sobre as receitas e os lucros.

Um aumento de custo de financiamento que inibirá também o consumo, via compras a crédito, e tende a deprimir ainda mais a retomada de crescimento, em ritmo até agora cambaleante, a atividade econômica.

Especialistas não esperam que a elevação da Selic, que amplia a diferença entre os juros domésticos e os internacionais, próximos de zero ou negativos nos mercados desenvolvidos, atraia capitais suficientes para aumentar a oferta e deprimir ou derrubar as cotações do dólar. O motivo é a aversão ao risco em alta que afasta os investidores do País.

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Colaborador do Portal Mais Retorno.

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