Mercado Financeiro

Os mercados iniciam os negócios do novo mês em meio a um cenário de muitas expectativas, permeado por indefinições e incertezas, domésticas e globais. Algumas novas, outras nem tanto.

Nos últimos dias, reapareceu aqui certo desconforto causado pelas preocupações relacionadas ao controle fiscal, à medida que o governo parece estar mais inclinado a reforçar as medidas de proteção social que podem colocar em risco o controle das contas públicas.

Foto: B3/Divulgação
Sede da B3 em São Paulo - Foto: B3/Divulgação

A preocupação com possível desarranjo nas contas do governo, que abalou o mercado de ações na sexta-feira e se agrava pelas motivações eleitorais, pode continuar influenciando negativamente os mercados, sobretudo o de ações, de acordo com especialistas. O temor é que o aumento de despesas, com possível reforço do Bolsa Família e outras medidas, leve a um endividamento que desrespeite o teto de gastos.

Em um contexto de muitas dúvidas, uma alta mais forte da Selic é, para analistas e gestores de mercado, uma das poucas possíveis certezas, já nesta virada de mês. Tem ganhado corpo, nos últimos dias, a aposta em torno de uma alta de um ponto porcentual no juro básico, por decisão do Comitê de Política Monetária (Copom), do Banco Central (BC), nesta quarta-feira, 4.

Mercados esperam por uma Selic mais alta

A previsão majoritária entre analistas e economistas de mercado é que a Selic seja elevada de 4,25% ao ano para 5,25%, como forma de evitar que a crescente deterioração de expectativas com a atual dinâmica de preços na economia tenha impactos de alta ainda mais fortes sobre a inflação do ano que vem.

Diante de tantas incertezas dificulta a percepção de uma trajetória mais clara para os mercados, de acordo com analistas e especialistas do mercado financeiro.

Continuam no radar dos investidores em bolsa, pelo lado externo, as preocupações com o ritmo de recuperação da economia global, que enfrenta percalços com a disseminação da variante delta do coronavírus.

A instabilidade recente no mercado de commodities, sobretudo de minério de ferro e aço, além do de petróleo, que influencia as ações das gigantes do Ibovespa, como Vale e Petrobrás, deve ser segregada da análise e do entendimento do mercado de ações como um todo, segundo especialistas. “O mercado está muito atento aos resultados de balanços de empresas, se vão corresponder às expectativas de investidores”, avalia Flávio de Oliveira, head de Renda Variável da Zahl.

Sobre o forte tombo da B3 na sexta-feira, ele diz que a queda do Ibovespa até 120 mil pontos (fechou em 121.800,79 pontos) faz parte do jogo, portanto uma correção normal. “A perda desse nível poderia levar a uma reversão de fluxo e de tendência.”

Em sua avaliação, boa parte da expectativa de reabertura da economia já está incorporada no preço das ações, sobretudo nas do setor de varejo. “Sendo assim, notícias positivas nessa área não devem impactar tanto o mercado, mas as negativas devem mexer com o humor dos mercados.”

Otimista com o mercado de ações, Oliveira diz que, pelas perspectivas atuais, o Ibovespa pode fechar o ano em torno de 140 mil/145 mil pontos.

Scott Hodgson, gestor da Galápagos Capital, afirma que o movimento de volatilidade e vaivém deve continuar no mercado de ações, com a atenção dos investidores voltada ainda ao cenário externo. “Principalmente aos dados macroeconômicos, como emprego e inflação, que poderiam persuadir o Fed (Federal Reserve, banco central americano) a começar a reduzir a recompra gradual de títulos.”

Gustavo Menezes, gestor da área macro da MZK Investimentos, recém-adquirida pela AZ Quest, também acredita em trajetória positiva para a bolsa de valores, apesar do ciclo de elevação dos juros. Mas ressalta que o BC deve calibrar a dosagem de ajuste para não prejudicar a recuperação da atividade. “Precisa ver até onde pode levar o ajuste da Selic, para não acabar desaquecendo a economia.”

Por enquanto, Menezes vê um processo de elevação dos juros ajustado ainda a uma perspectiva de crescimento saudável para a economia e construtivo para a bolsa de valores. Com um cenário-base de viés otimista, ele estima uma expansão do PIB de 5,3% em 2021 e de 2,8% em 2022.

Renda fixa

Como certeza nesta virada de mês é que a Selic dará mais um passo para cima. A dúvida é o tamanho, mas nos últimos dias analistas as apostas foram revisadas para cima. A estimativa inicial de uma alta de 0,75 ponto porcentual foi elevada para um ponto.

“O IPCA-15 de julho, de 0,72%, veio acima das expectativas”, explica Simone Pasianotto, economista-chefe da Reag Investimentos. A inflação pelo IPCA projetada pelo mercado para o mês está acima, em 0,93%.

O gestor da MZK Investimentos diz que o mercado tem focado na inflação persistente porque ela tem relação com a condução dos juros pelo BC. O desconforto do BC e do mercado aumentou porque o componente serviços, que não é um fator sazonal, passou a pressionar o IPCA, analisa Menezes. “A resposta de um BC mais reativo é um juro mais alto.”

Uma Selic mais alta aumenta a atratividade da renda fixa, afirma Oliveira, head de Renda Variável da Zahl. Para a dúvida sobre a escolha mais indicada, aplicação com taxa de juro pré ou pós-fixada, Menezes, da MZK Investimentos, afirma que “a pós-fixada é uma maneira de proteção enquanto o BC não concluir o ciclo de elevação da Selic. A prefixada exige um pouco de cautela, é preciso ver até onde vai o ajuste e decidir por ela quando o ciclo de alta dos juros estiver terminando”.

Dados do último boletim Focus apontam que analistas de mercado financeiro consultados pelo BC projetam uma Selic de 7% no fim de 2021 e também no fechamento de 2022, para um IPCA estimado de 6,56% neste ano e de 3,80% no próximo. Por essas previsões, ao fim e ao cabo do ajuste em curso na Selic, os juros fechariam ligeiramente positivos, acima da inflação, em 2021 e com ampla margem real em 2022.

dólar
Volatilidade marca comportamento do dólar

Dólar

A elevação da Selic tende a ter efeitos positivos sobre o câmbio, ao atrair capital estrangeiro para aplicação em renda fixa no País. “É possível que seja benéfica até para estabilizar o dólar”, acredita Oliveira. “Um ajuste mais forte dos juros justificaria um câmbio mais apreciado, valorizado”, reforça Menezes.

O gestor da MZK Investimentos não acredita em pressão externa sobre os mercados. “A mensagem do Fed é que a inflação é transitória, e isso traz um alívio na urgência do banco central americano de fazer um ajuste mais forte na política monetária ou nos juros.”

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Colaborador do Portal Mais Retorno.

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