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Economia

O que esperar do mercado financeiro com Lula eleito o novo presidente

Volatilidade deve ser a palavra para traduzir o comportamento do mercado, nesta seguda-feira, 31

Data de publicação:31/10/2022 às 05:00 -
Atualizado 3 meses atrás
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O mercado financeiro deve promover um ajuste de ativos das carteiras em um ambiente negativo, nesta segunda-feira, 31, dia seguinte à vitória de Luiz Inácio Lula da Silva (PT) no segundo turno de eleições. Volatilidade é a palavra que melhor traduz o comportamento esperado dos mercados. O ex-presidente, que governou o País entre 2002 e 2010, volta ao Planalto para o terceiro mandato a partir de 2023.

A expectativa é que o movimento de ajuste seja permeado por intensa volatilidade, em todos os segmentos, da bolsa de valores ao dólar, passando por juros, sobretudo futuros. Para os especialistas, Lula volta à Presidência em meio a um cenário de muitas incertezas.

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Mercado financeiro pode ter reação negativa até conhecer nome do Ministério da Economia - Foto: Agência Brasil

“O mercado deve ter uma reação ruim, com queda da bolsa, alta do dólar e dos juros futuros longos”, avalia Rodrigo Knudsen, head de renda fixa da Empiricus Investimentos. “Esse movimento poderia ser exacerbado e o mercado piorar muito se houver alguma contestação de Bolsonaro em relação ao resultado”, já que a diferença de votos foi muito pequena.

Ademais, “Lula vai pegar um país dividido, sem as forças do boom de commodities de 2002, o mundo quase em recessão, e o Brasil com os problemas de gastos que precisam ser corrigidos”, aponta Knudsen.

“A vitória do PT traz um ponto de interrogação grande e isso gera um viés pessimista nos primeiros dias para o mercado em geral”, avalia Marcus Labarthe, sócio-fundador da GT Capital.

Uma das preocupação do mercado financeiro, destaca Labarthe, é que “o pensamento da esquerda é de não privatizações”. A esquerda volta ao poder “em que a direita será uma oposição forte nos próximos quatro anos”, com muitas dificuldades para a gestão petista.

Mercado financeiro deve reagir com instabilidade

Gustavo Bertotti, economista-chefe da Messem Investimentos, acredita que o mercado financeiro começa a semana com muita volatilidade, “diante de incertezas com o novo governo, sem pautas claras, principalmente econômicas, e sem maioria no Congresso”.

A perspectiva é que nesse cenário, segundo Bertotti, “o dólar ganhe força e as empresas estatais passem a ser ponto de mais observação pelo risco de intervenções do governo”, com impacto sobre a bolsa de valores. “É um ambiente que não será fácil ao novo governo, Lula precisa apresentar propostas concretas e rápidas”, avalia o economista da Messem.

Alguma ideia, para analistas, deve aparecer com a sinalização de possíveis nomes para o Ministério, principalmente para o da Economia. Posições defendidas pelo partido do candidato vitorioso e pelo próprio Lula já antecipariam, para o mercado, possíveis rumos do próximo governo.

O ajuste, ainda que residual, costuma seguir às eleições presidenciais. Desta vez, o rearranjo das carteiras ou posições tende a ser mais intenso, avaliam especialistas, pelo cenário difuso em que o processo eleitoral chegou a seu desfecho, sem claro favoritismo de um dos candidatos.

Não à toa, esta segunda-feira, para os analistas, é o dia D para os ajustes à luz e da expectativa do possível governo Lula, que se inicia daqui dois meses. Ajustes que terão continuidade nos próximos dias, em decisões que seguirão ainda os desdobramentos do evento eleitoral.

Victor Candido, economista-chefe da RPS Capital ressalta que o discurso do presidente eleito, feito após os resultados, veio em tom conciliador e mais leve, sem ataques ao adversário, mas também sem indicativos sobre o que pretende fazer na economia e quem será o novo ministro da Economia. "Mas isso deve acontecer nos próximos dias ou próximas semanas e é isso que vai dar o tom ao mercado".

De imediato, no entanto, Candido acredita que os papeis das estatais devem sofrer no pregão desta segunda-feira e pesar no Ibovespa, e o mercado tende a viver mais alguns dias de apreensão. De todo modo, o investidor estrangeiro esteve presente em outubro, comprando ações brasileiras, mais de US$ 8 bilhões, e deve continuar comprando se não houver contestação dos resultados das eleições.

Bolsa pode cair e dólar, se valorizar

“O consenso de mercado é que os ativos performem negativamente, em um primeiro momento, como reação à vitória de Lula”, comenta Carlos Macedo, economista e especialista em alocação de investimentos da Warren Investimentos. “É possível que, nesse ambiente, a bolsa tenha uma queda de 3% a 5% e o dólar se valorize entre 1% e 3%”, acredita.

Para Sérgio Zanini, sócio e gestor da Galapagos Capital, “segunda-feira deve ser um dia de bastante volatilidade, ao longo de todo o dia”, avalia. O pico do ajuste dessa volatilidade, segundo ele, seria nesta segunda, day-after da eleição, e os preços se ajustariam em direção a uma tendência.

“O normal é a volatilidade de preços dos ativos diminuir e voltar a patamares normais ao longo da semana. A menos que ocorram eventos como desdobramento das eleições de domingo", diz Zanini

Macedo destaca que gestores e investidores devem considerar ainda outras variáveis para o ajuste da carteira de ativos ao novo cenário.

Embora o candidato à reeleição pelo PL tenha assegurado “que quem tiver mais votos leva”, a magnitude do impacto negativo da vitória de Lula no mercado vai depender de Bolsonaro vir a contestar ou não os resultados e também de haver manifestações que coloquem em xeque o resultado das urnas. “Enfim, se vai haver alguma crise, um ruído institucional, o que será ruim para os ativos brasileiros”, avalia o especialista da Warren.

Macedo não pauta sua análise apenas pelo viés negativo. “A performance do mercado poderia ser até positiva se Lula anunciar Meirelles (Henrique Meirelles, ex-presidente do Banco Central no governo anterior do presidente Lula e ex-ministro da Fazenda no governo Michel Temer) como seu ministro da Economia”, avalia.

Agenda desafiadora com o novo Congresso

Persiste ainda certa desconfiança de uma ala do mercado em relação ao governo de esquerda. Analistas apontam, contudo, dois freios que podem inibir tentativas por grandes mudanças pelo governo petista: um Congresso de perfil conservador e um Banco Central (BC) independente.

O governo Lula terá de submeter as propostas de mudanças a um Congresso formado em sua maioria por deputados e senadores com viés ideológico de direita, visão mais conservadora. Uma composição parlamentar que, para especialistas, torna mais desafiador, para um governo de esquerda, transitar com determinadas pautas pela Casa.

Outro freio de controle às iniciativas ousadas do governo na área monetária é o Banco Central independente. O instituto do mandato fixo de quatro anos para o presidente e diretores dá autonomia e independência para as decisões monetárias, sem a influência de interesses do Executivo. O atual presidente da autarquia, Roberto Campos Neto, fica no comando do BC até 31 de dezembro de 2024.

Risco de interferência em estatais põe bolsa em alerta

Um governo de esquerda traz logo à memória, de gestores e investidores, o risco de ingerência em empresas estatais, com impacto no mercado de ações em geral. Para Zanini, da Galapagos, a participação do Estado é a principal variável que tende a influenciar a performance e o preço das ações na bolsa de valores.

Em termos setoriais, a bolsa tem uma representatividade importante de empresas estatais, como Petrobras e Banco do Brasil, explica Zanini. “Daí que, se o governo usa o balanço das estatais para uma finalidade social, o resultado é uma margem de lucro mais baixa”, pontua. “Com impacto no valor e no valuation das empresas.”

O gestor da Galapagos afirma que outro setor que pode ser impactado pela interferência estatal é o bancário. Zanini avalia que sob Lula o governo tenderia a usar o BNDES e bancos públicos para uma participação mais ativa no mercado de crédito. “Dependendo de como for, essa presença mais ativa do Estado no crédito pode acabar desestimulando a atuação do setor privado, principalmente das fintechs.”

A vitória de Lula pode trazer alento para alguns setores, “como os de construção, educação, bancos e varejo”, aponta Rodrigo Cohen, analista de investimentos e co-fundador da Escola de Investimentos. “A perspectiva de mais crédito para a população tende a beneficiar esses setores.”

Cohen prevê um ambiente de volatilidade para o mercado financeiro nesta segunda-feira e, sem nenhuma sinalização de equipe econômica pelo presidente eleito, “o mercado deve abrir em baixa, o que pode ser ótima oportunidade para a compra”.

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Sobre o autor
Tom Morooka
Colaborador do Portal Mais Retorno.

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