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Renda Fixa

Mercado secundário de renda fixa: o que é e como funciona?

Negócios acontecem entre investidores, com maior liquidez e possibilidade de movimentação dos recursos

Data de publicação:04/07/2022 às 08:12 -
Atualizado um mês atrás
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O mercado secundário é bem conhecido pelos investidores como uma oportunidade de negociar ações com outros acionistas de empresas. No entanto, você sabia que essa não é uma exclusividade da renda variável? Pois é! O mesmo processo pode ser realizado com os títulos de renda fixa, ainda que não seja tão divulgado.

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Mercado Secundário de renda fixa é um ambiente que possui importância na oferta de liquidez e a possibilidade de movimentação dos recursos. Foto: Envato

Com a taxa de juros retornando ao patamar de dois dígitos em 2022, o mercado secundário de renda fixa também se torna atrativo para que o investidor possa testar oportunidades de garantir lucros atrativos sem precisar aguardar, necessariamente, a data de vencimento do seu ativo.

O que é o mercado secundário de renda fixa?

Para começar, vamos entender a diferença entre o mercado primário e o mercado secundário. Se você já conhece os ambientes de negociação da renda variável não terá problemas, pois a dinâmica é rigorosamente a mesma.

Imagine que a Vale resolva emitir uma debênture para captar novos recursos ou então que o Banco Itaú lance Certificados de Recebíveis Imobiliários (CRIs) para que os investidores possam aportar nesse segmento. Em ambos os casos, se você comprar os títulos, o seu dinheiro estará sendo destinado para as empresas emissoras — Vale e Itaú, respectivamente.

Ou seja, o mercado primário é aquele no qual a empresa emissora do título vende o ativo para um investidor. Em outras palavras, trata-se da primeira transação daquele papel. É justamente o que ocorre na renda variável na emissão de ações ao mercado, no qual uma companhia abre a possibilidade de investidores se tornarem seus acionistas.

A partir dessa negociação no mercado primário, o investidor que fez a compra do ativo passa a ser proprietário daquele papel. No entanto, nada impede que ele faça um repasse do papel para outro comprador. É esse tipo de negociação que ocorre no mercado secundário, no qual ativos já negociados podem ser transacionados entre os investidores.

Em suma, portanto, essa é a diferença entre os dois mercados:

  • Mercado primário: ambiente no qual uma empresa oferece ativos para os investidores. Possui a finalidade de captação de recursos para a companhia (ou para o governo, em caso de títulos públicos).
  • Mercado secundário: é o ambiente em que investidores negociam os seus ativos. Possui importância na oferta de liquidez e a possibilidade de movimentação dos recursos.

Como funciona o mercado secundário de renda fixa?

Embora o conceito seja rigorosamente o mesmo entre os dois tipos de ativos, a verdade é que o mercado secundário de renda fixa é um pouco mais complexo do que o ambiente de renda variável. Até por conta desse fator, ele acaba sendo até mesmo desconhecido entre muitos dos investidores brasileiros.

No caso da renda variável, como ações ou fundos imobiliários, basta abrir o Home Broker, digitar o ticker (código de negociação de um ativo) e começar a comprar e vender os ativos diante de outros investidores. Na renda fixa, embora essa possibilidade exista, ela depende da intermediação de um agente ou assessor de investimentos.

Isso acontece porque há uma restrição de acesso ao mercado secundário de renda fixa, que fica limitado às instituições financeiras (como bancos ou corretoras, por exemplo). Isso significa que você não vai acessá-lo diretamente como investidor de varejo, mas que pode negociar seus ativos por lá após entrar em contato com o gerente da sua conta.

Neste caso, a própria instituição financeira na qual você tem conta irá acessar o mercado secundário de renda fixa e verificar as oportunidades. Por lá, ela pode repassar os títulos para outros investidores ou mesmo comprar aquele ativo.

Importante mencionar, entretanto, que geralmente há um risco adicional nesse formato de negociação, pois as instituições financeiras não possuem a proteção do FGC (Fundo Garantidor de Crédito), entidade que reduz os riscos dos papéis.

Dessa forma, é comum que quando a compra do título é realizada pela própria corretora (ou banco), ela aplique uma penalização sobre a rentabilidade — chamada tecnicamente de spread. É preciso, portanto, avaliar bem se as condições são atrativas antes de vender o seu título no mercado secundário.

Quais são as vantagens do mercado secundário de renda fixa?

A grande vantagem do mercado secundário de renda fixa está em permitir aos investidores a possibilidade de negociar os seus ativos de forma frequente — mesmo que ele não ofereça liquidez diária, o que significa que seria necessário aguardar a data de vencimento do título para receber o dinheiro.

Dessa forma, caso você tenha investido em um CDB que não permite o resgate antecipado, mas seja necessário resgatar o dinheiro, basta entrar em contato com o seu assessor para verificar as condições oferecidas para o retorno do capital investido. Lembrando aqui que esse retorno depende muito do cenário econômico do dia de negociação.

Outro ponto positivo é que, em caso de um ciclo de baixa da Taxa Selic, o mercado secundário pode reservar algumas oportunidades de compra bem atrativas. Imagine que um investidor tenha comprado um título que oferecia uma rentabilidade de 10% ao ano. Se a taxa de juros vigente for de 8% e esse ativo for ofertado no mercado secundário, trata-se de uma oportunidade interessante para compor uma carteira de investimentos.

Por fim, nesse ambiente de negociação, também podemos encontrar alguns títulos do Tesouro Nacional que não estão mais disponíveis para o varejo ou foram retirados do mercado tradicional.

Quais são os riscos do mercado secundário de renda fixa?

Se as vantagens podem animar o investidor de renda fixa, também é essencial compreender os riscos de negociar títulos no mercado secundário. A começar pela taxa de rentabilidade que, em muitos casos, pode não compensar o risco na medida em que os investidores podem estar se desfazendo do ativo em função de uma maior chance de inadimplência.

Outro risco está no próprio ambiente econômico. Mesmo títulos com data de vencimento longa podem ser marcados a mercado (nome da precificação diária do ativo, justamente caso exista alguma negociação) diariamente, alterando o seu valor a depender do cenário. E isso significa que existe chance de você ter prejuízo ao negociar o seu título.

Esse risco vale especialmente caso a instituição financeira não encontre outros investidores para repassar o título e opte pela compra do ativo. Como adiantamos, neste caso haverá a aplicação de um spread bancário que pode impactar negativamente o seu retorno financeiro.

O fato de depender de um intermediário (agente ou assessor de investimentos) para negociar os seus títulos é outro problema, pois retira autonomia do investidor.

Por fim, não podemos nos esquecer de que a liquidez do mercado secundário de renda fixa é bem menor em relação ao mercado de renda variável. Ou seja, as boas oportunidades de negociação acabam sendo mais raras e, geralmente, são esgotadas rapidamente após a abertura do mercado.

Diante desse cenário, podemos concluir que o mercado secundário de renda fixa exige uma maior curva de aprendizado por parte do investidor. Portanto, você deve estudar com calma as oportunidades e avaliar se realmente vale a pena vender um título no mercado secundário que, em muitas vezes, se mostra mais atrativo para a compra de ativos.

Sobre o autor
Stéfano Bozza
Formado em Administração pela PUC-SP. Trabalhou em empresas do segmento financeiro (Itaú BBA) e varejo (BRMALLS) até 2016, quando iniciou a jornada de produção de conteúdo para a internet com foco em finanças.