Mercado Financeiro

Os mercados locais iniciam a quinta-feira, 2, digerindo a aprovação do texto base da reforma do Imposto de Renda na Câmara, que ocorreu no final do dia anterior, com apoio da oposição e do Governo - uma surpresa. A votação será concluída hoje.

Por outro lado, o Governo sofreu dois reveses na véspera no Senado. O mais duro foi a aprovação nos planos de saúde das estatais, que pode inviabilizar a privatização dos Correios. além da rejeição de uma medida provisória que fazia uma reforma trabalhista.

Foto: Arquivo
Crise hídrica tende a desacelerar ainda mais a atividade econômica no País - Foto: Envato

Na agenda do dia, o investidor deverá ficar atento à divulgação da produção industrial de julho. Enquanto que no exterior, as atenções recaem sobre os pedidos de auxílio- desemprego nos Estados Unidos.

PIB não incomodou os mercados

A indicação de que a economia brasileira desacelerou e recuou 0,1% no segundo trimestre, em relação ao primeiro, como apontaram dados divulgados pelo IBGE na véspera, não chegou a perturbar o mercado financeiro na largada do novo mês. Tanto o segmento de ações como o de dólar fecharam o primeiro dia de setembro com sinal positivo. A Bolsa de Valores de São Paulo, a B3, subiu 0,52% e o dólar, 0,20%.

A declaração do presidente do Banco Central, Roberto Campos Neto, em defesa da regra do teto de gastos suavizou um pouco as preocupações do mercado com o risco fiscal e deu um tom mais otimista aos mercados.

Ademais, o dado fraco do PIB já era esperado por analistas, por causa do cenário de incertezas que se seguiu aos bons resultados do primeiro semestre, como as preocupações com a variante delta da covid-19 e os persistentes riscos político e fiscal no País.

A desaceleração de atividade, segundo especialistas, pode ser reforçada agora pela crise hídrica, que tem levado a fortes reajustes nas contas de energia elétrica, elevando os custos de produção, e pela inflação em alta.

Energia mais cara é um dos fatores que pressionam a inflação e deve contribuir para reajustes maiores na taxa básica de juros, a Selic.

Dados econômicos: produção industrial

O setor industrial, um dos mais atingidos pela energia mais cara, apresenta nesta quinta-feira, 3, os resultados de sua produção em julho.

A expectativa é de uma queda de 0,5%, em função da escassez de componentes para a indústria automotiva e eletroeletrônica, analisa Simone Pasianotto, economista da Reag Investimentos. Ela afirma que a pressão de custos, pela alta dos preços da matéria-prima e da energia elétrica, também deve prejudicar o desempenho do setor.

Apesar de um ambiente de negócios mais calmo nesta virada de mês, investidores e gestores de mercado não disfarçam as preocupações com a aproximação de 7 de setembro.

No lugar de comemorações da data com eventos cívicos, estão previstas manifestações de apoio às ideias do presidente Bolsonaro, em meio a um ambiente de acirrada tensão política.

Entenda o que muda com a reforma do IR aprovado na Câmara

Na noite do dia anterior, o presidente da Câmara, Arthur Lira, aprovou o texto-base da reforma que altera o Imposto de Renda para pessoas físicas, empresas e investimentos.

O relator do projeto, deputado Celso Sabino, propôs o fim da restrição ao uso do desconto simplificado na tabela do Imposto de Renda da Pessoa Física (IRPF). Os contribuintes que optam pela simplificada podem abater 20% de Imposto de Renda sobre a soma dos rendimentos tributados.

Além disso, o desconto simplificado na declaração do IR estaria limitado a R$ 8 mil pelo texto enviado pelo governo à Câmara. Esse limite da dedução passou para R$ 10 mil.

Outra alteração é a ampliação da faixa de isenção da tabela do IR, que passa a ser para todos os contribuintes que ganham até R$ 2,5 mil (hoje, é R$ 1,9 mil). Os valores das demais faixas do IR também serão reajustados, em menor proporção.

Sabino informou que manteve a taxação sobre a distribuição de lucros e dividendos como estava no seu parecer, em 20%. Atualmente, não é cobrado imposto sobre esse tipo de remuneração a acionistas.

Parlamentares que participaram das negociações finais informaram que há um destaque - sugestão de mudança - ao parecer para aprovação de uma alíquota menor, de 15%.

Sabino também manteve o fim do chamado Juros de Capital Próprio (JCP), mecanismo usado pelas grandes empresas para remunerar os seus acionistas com a possibilidade de deduzir essa despesa do imposto a pagar.

Planos de saúde nas estatais

Após rejeitar uma medida provisória que fazia uma reforma trabalhista, o Senado revogou uma proposta que desmonta as regras que estabeleceram limites para os gastos de estatais com planos de saúde para empregados. A proposta pode inviabilizar a privatização dos Correios, uma das prioridades da agenda do governo Jair Bolsonaro.

O texto, já aprovado pela Câmara, foi aprovado pelos senadores em votação simbólica e segue agora para promulgação - ou seja, não pode ser vetado pelo presidente Jair Bolsonaro. Agora, ele será transformado em lei.

Na prática, o projeto revoga uma regra criada no governo do ex-presidente Michel Temer e que foi fundamental para reverter uma trajetória de prejuízos bilionários dos próprios Correios, quando a empresa caminhava para se tornar uma estatal dependente - ou seja, que precisa de recursos do Orçamento para bancar salários e despesas correntes.

Antes da edição da resolução, era comum que estatais bancassem mais de 90% dos custos, sem qualquer coparticipação - hoje, o limite é de 50%.

Fake news e manifestações

O presidente Jair Bolsonaro  sancionou com vetos a Lei nº 14.197/2021 que revoga a Lei de Segurança Nacional (LSN), remanescente da ditadura militar.

Criada em 1983 e pouco aplicada após a Constituição de 1988, a LSN voltou a ser usada com maior frequência pelo atual governo. Ao todo, foram 77 inquéritos abertos pela Polícia Federal com base na legislação entre 2019 e 2020 - aumento de 285% em relação aos governos anteriores.

Além de revogar a LSN, a proposta aprovada pelos parlamentares acrescenta artigos ao Código Penal para definir crimes contra o Estado Democrático de Direito.

Bolsonaro vetou integralmente o capítulo relativo aos crimes contra a cidadania e dois artigos do capítulo relativo a crimes contra o funcionamento das instituições democráticas no processo eleitoral.

Com isso, foram vetados os dispositivos que criminalizam a comunicação enganosa em massa e o atentado ao direito de manifestação.

Wall Street: futuros próximos da estabilidade

Nos Estados Unidos, os contratos futuros negociados nas bolsas de Nova York operam estáveis, com os investidores repercutindo a geração de empregos nos Estados Unidos e no aguardo dos dados sobre auxílio desemprego da semana anterior e do payroll.

Economista sênior da Capital Economics, Andrew Hunter observa que a desaceleração do crescimento de empregos privados nos últimos meses foi impulsionada pelos setores de lazer e hospedagem, educação, saúde e outros serviços, o que sugere que os temores em relação ao avanço da cepa delta do coronavírus estão pesando na decisão dos consumidores de realizar atividades que exijam muito contato.

Para Hunter, ainda que o crescimento do emprego permaneça relativamente forte em agosto, a suspeita é de que não seja suficiente a ponto de o Fed (Federal Reserve, o banco central americano) anunciar a redução gradual da compra de ativos neste mês, mas somente na reunião de novembro, prevê.

Em relação a indicadores, o IHS Markit informou que o índice de gerentes de compras (PMI, na sigla em inglês) da indústria dos Estados Unidos caiu em agosto, próximo à previsão de analistas. Já o índice de atividade industrial, medido pelo Instituto para Gestão da Oferta (ISM, na sigla em inglês), subiu no mesmo mês, contrariando a expectativa de queda.

Ao analisar o indicador do ISM, o CitiGroup observa que os prazos de entrega ainda estão se estendendo, mas em um ritmo mais lento, enquanto o índice de preços pagos - embora ainda sugira aumentos de preços - caiu modestamente, indicando um relaxamento dos problemas de oferta. Já nos critérios do PMI pela IHS Markit, "os problemas parecem ter piorado potencialmente". Mesmo que alguns problemas de ofertas não tenham realmente piorado, o banco também não percebe uma melhora sustentada, como observa em relatório.

Bolsas asiáticas fecham mistas

As bolsas da Ásia e do Pacífico fecharam sem direção única nesta quinta-feir, com investidores na expectativa para dados do mercado de trabalho dos EUA.

O índice acionário japonês Nikkei subiu 0,33% em Tóquio, aos 28.543,51 pontos, e o Hang Seng avançou 0,24% em Hong Kong, aos 26.090,43 pontos.

Na China continental, o Xangai Composto teve alta de 0,84%, aos 3.597,04 pontos, em seu quinto pregão consecutivo de ganhos, e o menos abrangente Shenzhen Composto avançou 0,41%, aos 2.427,77 pontos.

Por outro lado, o sul-coreano Kospi caiu 0,97% em Seul, aos 3.175,85 pontos, e o Taiex recuou 0,88% em Taiwan, aos 17.319,76 pontos.

Na Oceania, a bolsa australiana ficou no vermelho, à medida que ações de grandes empresas locais foram negociadas ex-dividendos. O S&P/ASX 200 caiu 0,55% em Sydney, aos 7.485,70 pontos. / com Júlia Zillig e Agência Estado

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Colaborador do Portal Mais Retorno.

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