Mercado Financeiro

Em um dia marcado pela tensão global, a Bolsa registra queda acentuada nesta terça-feira, 28, puxada pela desvalorização das ações da Vale e siderúrgicas e com o temor do mercado internacional sobre o risco de default pela primeira vez na economia americana.

Soma-se a isso, ainda, a reação dos investidores sobre a postura mais dura adotada pelo Copom para os ajustes na taxa de juros do País, reforçada na ata da última reunião do colegiado divulgada durante o período da manhã.

Foto: B3/Divulgação
Sede da B3 em São Paulo - Foto: B3/Divulgação

Às 16h10, o Ibovespa, principal índice da B3, recuava 2,82%, perdendo o patamar dos 111 mil pontos: 110.376. Na contramão, o dólar avança forte, cotado a R$ 5,426, alta de 0,64%.

Os juros futuros seguem em alta. Além da reação à ata do Copom, sofrem pressão na parte curta da curva, enquanto os longos são influenciados pela alta dos juros dos Treasuries, próxima de 1,5% - maior patamar dos últimos três meses.

Nesta terça-feira, a secretária do Tesouro americano, Janet Yellen, voltou a apelar ao Congresso para que seja suspendido o teto de gastos do país. Por meio de cartas enviadas aos congressistas, Yellen alertou que o Tesouro ficará com limitados recursos em 18 de outubro, caso deputados e senadores não aprovem a suspensão do teto até lá.

"O Tesouro ficará com recursos muito limitados que se esgotariam rapidamente. É incerto se poderíamos continuar a cumprir todos os compromissos da nação após essa data", declarou a secretária do governo Biden, antes de alertar que a previsão é incerta e pode ser alterada para uma data mais próxima ou distante.

Com esse clima de tensão, que se soma ainda ao monitoramento do Federal Reserve (Fed, o banco central americano) sobre a retirada de estímulos da economia, e a preocupação com a crise energética global, as bolsas americanas estão derretendo. Às 16h15, o S&P 500, Dow Jones e Nasdaq despencavam 1,46%, 1,09% e 2,22%, na sequência

Yellen sinalizou ainda sobre "sérios danos" à confiança de consumidores e empresas, além de "significativas perturbações" no mercado financeiro, caso a decisão de suspender o teto fique para o "último minuto".

Segundo ela, as consequências poderiam ser desde "aumento de custos de empréstimos para contribuintes" e "impactos negativos sobre a classificação de crédito nos próximos anos", até maiores incertezas que podem exacerbar "a volatilidade do mercado e minar a confiança de investidores".

Ações na B3

Na Bolsa local, além do cenário internacional, as ações com maior peso na cesta de ativos da B3 operam em baixa. No universo das commodities, o preço do petróleo segue em alta, impulsionado pelos reflexos da crise energética. Beneficiadas por esse cenário, as ações da Petrobras trafegaram em alta até o início desta tarde, quando viraram o sinal e passaram para a trajetória de queda. Às 16h11, os papéis da petroleira recuavam 0,48%

Já o preço do minério de ferro voltou a cair no mercado chinês, absorvendo os efeitos negativos da crise do setor imobiliário no país. Com isso, a Vale e as demais siderúrgicas vivem um dia de derretimento em seus papéis.

No mesmo período, as ações da Vale, CSN, Usiminas e Gerdau despencavam 4,43%, 6,74%, 7,84% e 2,26%, respectivamente.

Os bancos, que tendem a se beneficiar com o aumento dos juros, também operam no vermelho, depois de começarem o dia em alta. Bradesco, Itaú e Santander caíam 1,45%, 0,57% e 0,14%, às 16h14.

A Braskem começou o dia em alta, ao informar que a subsidiária Idesa assinou um aditivo contratual com a mexicana Pemex para a quitação de pendências. No entanto, as ações da petroquímica viraram o sinal e operavam em queda de 2,52%, às 16h15.

A XP deu início à cobertura para as ações da Natura&Co, com recomendação de compra e preço-alvo de R$ 65. No entanto, os papéis da companhia recuavam 2,54%, no mesmo horário.

Ajustes duros na taxa de juros

Além das questões que envolvem o cenário internacional, os investidores tomaram conhecimento sobre a ata da última reunião do Comitê de Política Monetária (Copom) do Banco Central, divulgada pela autoridade monetária durante a manhã.

Segundo o documento, que não trouxe novidades em relação ao comunicado feito na semana passada, o comitê deve continuar adotando uma postura mais dura nos ajustes da taxa de juros para conter o forte avanço da inflação.

Nesse sentido, o comitê destacou que deve fazer um novo ajuste de 1 ponto porcentual na Selic na próxima reunião, porém não fechou a porta para patamares mais elevados. Atualmente em 6,25%, a taxa de juros deve chegar a 8,5% em 2021, segundo o BC.

A preocupação dos investidores agora é se o Banco Central está de olho na inflação para 2022, segundo os analistas do BTG Pactual. Segundo o último boletim Focus, divulgado na véspera pela autoridade monetária, as projeções para o Índice de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA) em 2021, 2022 e 2023 são 8,3%, 4,1% e 3,25%, respectivamente.

Auxílio Brasil

No cenário fiscal, uma das novidades que integra a agenda de acompanhamento dos investidores é a aprovação do projeto de lei que autoriza o governo federal a usar a reforma do Imposto de Renda como fonte de recursos para compensar a criação do Auxílio Brasil, programa desenhado para substituir o Bolsa Família.

Após aprovada pelo Senado, a proposta seguirá para sanção do presidente Jair Bolsonaro. O texto altera a Lei de Diretrizes Orçamentárias (LDO) de 2021 e autoriza o uso de propostas legislativas em tramitação como fonte de compensação para criação ou aumento de despesa obrigatória para programas de transferência de renda.

A intenção do governo é usar a arrecadação oriunda das mudanças no Imposto de Renda para bancar o Auxílio Brasil a partir de novembro. A reforma no IR foi aprovada pela Câmara dos Deputados. O projeto, no entanto, está parado no Senado e há risco de a medida causar queda na arrecadação.

O tema gera apreensão no mercado pois, além de a compensação estar vinculada a um projeto que ainda não foi aprovado, o Auxílio Brasil depende de compensação pelo lado do gasto para ser lançado.

O governo aposta na aprovação da Proposta de Emenda à Constituição (PEC) dos precatórios para abrir espaço no teto de gastos e destravar o programa social, mas ainda não há acordo no Legislativo.

Bolsas asiáticas

No continente asiático, as bolsas fecharam em baixa nesta terça-feira, à medida que os analistas começam a reduzir suas projeções de crescimento da Chine em meio a preocupações com choques de oferta.

Cortes no fornecimento de eletricidade e esforços de Pequim para cumprir metas de redução de consumo de energia e de emissões de carbono estão levando economistas a revisar para baixo suas previsões de avanço do Produto Interno Bruto (PIB) chinês neste ano.

A Nomura, por exemplo, agora espera que a China cresça 7,7% em 2021. Antes, sua projeção era de alta de 8,2%. Dados oficiais mostraram também que o lucro do setor industrial chinês segue aumentando, mas em ritmo mais lento.

O índice japonês Nikkei caiu 0,19% em Tóquio hoje, aos 30.183,96 pontos, enquanto o sul-coreano Kospi recuou 1,14% em Seul, aos 3.097,92 pontos, e o Taiex registrou queda de 0,76% em Taiwan, aos 17.181,44 pontos.

Na China continental, o Xangai Composto subiu 0,54%, a 3.602,22 pontos, mas o menos abrangente Shenzhen Composto apresentou baixa de 0,18%, a 2.402,20 pontos.

Por outro lado, o Hang Seng teve desempenho relativamente bom hoje, com alta de 1,20% em Hong Kong, a 24.500,39 pontos, à medida que preocupações com as repercussões da crise de liquidez da gigante do setor imobiliário chinês Evergrande parecem estar se dissipando. A ação da Evergrande em Hong Kong subiu 4,71%, impulsionando outras empresas do setor.

Na Oceania, a bolsa australiana ficou no vermelho, após números fracos do setor varejista mostrarem que lockdowns motivados pela pandemia de covid-19 continuam a prejudicar a economia doméstica. O S&P/ASX 200 caiu 1,47% em Sydney, aos 7.275,60 pontos. / com Tom Morooka e Agência Estado

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Repórter do Portal Mais Retorno.

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