Mercado Financeiro

O mercado financeiro trabalhou cauteloso, com o freio de mão puxado, no dia anterior, com as atenções voltadas para a divulgação da ata do Comitê de Política Monetária (Copom), do Banco Central (BC) que acontece nesta terça-feira, 28.

Foto: Envato mercado
Mercado segue em compasso de espera por conta da divulgação da ata da última reunião do Copom - Foto: Envato

Na última quarta-feira, 22, o Copom aumentou em um ponto porcentual, para 6,25% ao ano, a taxa básica de juros, a Selic. E a expectativa é que o BC confirme, nessa ata, a sinalização dada no comunicado emitido logo após a última reunião de que a Selic deve subir mais um ponto porcentual no próximo encontro do colegiado do BC, nos dias 26 e 27 de outubro. 

Além disso, o mercado espera um tom mais duro na linguagem das autoridades monetárias ao explicitar a condução dos juros, em face da persistente elevação da inflação.

Dólar

O dólar em trajetória de valorização – emplacou ontem a quarta alta seguida, de 0,66%, para R$ 5,38 – é apontado por alguns analistas como um dos fatores de pressão sobre a inflação.

Em tese, a alta dos juros, puxados pela elevação da Selic, funcionaria como freio ao avanço do dólar, por atrair capital estrangeiro para investir na renda fixa do País, mas isso não tem ocorrido.

Com o aumento da aversão ao risco, sobretudo político, pela aproximação das eleições presidenciais, e fiscal, pelas preocupações com o aumento das despesas públicas e estouro do teto de gastos, parte dos investidores está procurando o dólar como proteção enquanto os estrangeiros estariam resistindo em trazer dólares para investir no País.

Para uma corrente do mercado, foi essa constatação que teria levado o BC a anunciar a oferta de 14 mil contratos tradicionais de swap cambial em leilões extraordinários, para atender a possível aumento de demanda por dólares com a proximidade do fim de ano. 

Contratos de swap são títulos cambiais que asseguram a compra de dólar em data futura e, por isso, servem de hedge ou proteção contra as variações do dólar. É como se o BC, na prática, estivesse aumentando a oferta de dólares no mercado para segurar as cotações.

Juros futuros

A iniciativa do BC no mercado de dólar pressionou os juros futuros, diante da desconfiança de agentes econômicos e financeiros de que o BC poderia usar o câmbio também como instrumento para o controle da inflação.

Os juros futuros subiram em contratos de todos os vencimentos, desde os mais curtos até os mais longos. Os juros DI para vencimento em janeiro de 2022 subiram para 7,15% e os para vencimento em 2027, para 10,55%.

A alta dos juros de vencimentos mais curtos é vista como normal pelo mercado, como movimento de ajuste a uma Selic em elevação, uma visão que não cabe nos vencimentos mais distantes, já que estaria refletindo uma desconfiança dos investidores em relação à eficiência da política monetária de abaixar a inflação e os juros no horizonte mais longo.

O comportamento dos juros futuros serve também como referência para a comparação do investidor que está em bolsa de valores avaliar a vantagem, ou não, de permanecer na renda variável ou se migra para a renda fixa remunerada por juros altos em ambiente de menos volatilidade.

A Bolsa de Valores de São Paulo, a B3, fechou com ligeira valorização de 0,27% ontem, em 113,583 pontos.

Faltando três dias úteis para o fechamento de setembro, a B3 acumula desvalorização de 4,38% no mês, até o momento, e o dólar, uma valorização de 4,06%.

Dados da inflação de setembro

Na quarta-feira, 29, o mercado financeiro tomará conhecimento do primeiro índice de inflação fechado do mês, o Índice Geral de Preços do Mercado (IGP-M). Calculado pela Fundação Getúlio Vargas (FGV), o índice carrega peso relevante de preços no atacado, sob influência do dólar, e é usado no reajuste de contratos de locação residencial.

Outro evento ligado à inflação que estará no foco do mercado é a divulgação, na quinta-feira, 30, do Relatório Trimestral de Inflação (RTI), pelo Banco Central, com detalhamento sobre dados de inflação. É um relatório no qual a autoridade passa a régua sobre o comportamento da inflação e traça certo horizonte sobre a evolução de preços na economia.

Auxílio Brasil

Além dos números econômicos da semana e da ata da última reunião do Copom, o cenário fiscal se mantém no radar dos investidores.

Na noite anterior, o Congresso aprovou um projeto de lei que autoriza o governo federal a usar a reforma do Imposto de Renda como fonte de recursos para compensar a criação do Auxílio Brasil, programa desenhado para substituir o Bolsa Família.

Após receber o aval do Senado, a proposta seguirá para a sanção do presidente Jair Bolsonaro. O texto altera a Lei de Diretrizes Orçamentárias de 2021 e autoriza o uso de propostas legislativas em tramitação como fonte de compensação para criação ou aumento de despesa obrigatória para programas de transferência de renda.

No entanto, o projeto da reforma no IR foi aprovada pela Câmara dos Deputados, mas segue parada no Senado, com risco de a medida causar queda na arrecadação.

O impasse em torno da compensação levantou críticas entre técnicos. Além de a compensação estar vinculada a um projeto que ainda não foi aprovado, o Auxílio Brasil ainda depende de compensação pelo lado do gasto para ser lançado.

O governo aposta na aprovação da Proposta de Emenda à Constituição (PEC) dos precatórios para abrir espaço no teto de gastos e destravar o programa social, mas ainda não há acordo no Legislativo.

Política

Apesar da pauta cheia de assuntos a serem monitorados, o mercado não deixa de acompanhar os passos do governo.

O presidente Jair Bolsonaro completou 1.000 dias de governo e aproveitou o ensejo para comentar sobre vários temas, desde vacinas até a corrupção. O chefe do Executivo voltou a lançar dúvidas sobre a efetividade das vacinas contra a covid-19 – mesmo elas tendo passado por testes de segurança e eficácia e aprovadas pela Agência de Vigilância Sanitária (Anvisa) e por órgãos sanitários do mundo inteiro.

Além disso, ressaltou que o PIB do País caiu “apenas” 4% no ano passado, enquanto em “outros países”, a queda foi de 9%. No entanto, a informação colocada pelo chefe do Executivo não condiz com os números do Banco Mundial, que ressaltou que a média de recuo do PIB mundial foi de 3,6%. Na América Latina, a retração foi de 6,3%.

Enquanto isso, a Ordem dos Advogados do Brasil (OAB) entrou com uma ação no Supremo Tribunal Federal (STF) para obrigar o governo federal a tirar do papel políticas públicas de combate à fome.

A OAB atribui o cenário a um ‘desmonte’ de políticas públicas de combate à fome e distribuição de renda, combinado aos efeitos da pandemia de covid-19.

“A atual gestão do governo federal muito contribui para esse cenário de miserabilidade”, diz a ação assinada pelo presidente da entidade, Felipe Santa Cruz.

No Senado, o clima é de trabalhos acelerados pela Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) da Covid, que segue se aproximando de sua data de conclusão. Os dias seguem movimentados principalmente no que diz respeito às investigações sobre a atuação da Prevent Senior durante a pandemia.

Denúncias apontam que a operadora de planos de saúde teria submetido pacientes sem consentimento a tratamentos experimentais contra a covid-19, além de indícios de fraude de resultados de estudo sobre o uso da hidroxicloroquina para tratamento da doença.

Wall Street e o mundo

Lá fora, o clima é de atenção em relação à crise energética que ocorre na China e sobre os passos do Federal Reserve (Fed, o banco central americano) sobre a retirada de estímulos da economia. Os futuros operam sem direção única.

Na véspera, o presidente da autoridade monetária, Jerome Powell, disse que o teste de inflação para reduzir a compra de títulos foi cumprido, enquanto o ateste de empego “está praticamente cumprido”

Representante do Fed, Fed Lael Brainard afirmou, separadamente, que o mercado de trabalho pode, em breve, atingir seu padrão para reduzir as compras de ativos, enquanto ao presidente do Fed de Nova York, John Williams, observou que moderar a compra de títulos é mesmo uma tendência de curto prazo.

Os investidores também estão de olho em Washington, onde os republicanos do Senado bloquearam um projeto de lei que suspenderia o teto da dívida até 2022.

No continente asiático, as bolsas fecharam em baixa nesta terça-feira, à medida que os analistas começam a reduzir suas projeções de crescimento da China em meio a preocupações com choques de oferta.

Cortes no fornecimento de eletricidade e esforços de Pequim para cumprir metas de redução de consumo de energia e de emissões de carbono estão levando economistas a revisar para baixo suas previsões de avanço do Produto Interno Bruto (PIB) chinês neste ano.

A Nomura, por exemplo, agora espera que a China cresça 7,7% em 2021. Antes, sua projeção era de alta de 8,2%. Dados oficiais mostraram também que o lucro do setor industrial chinês segue aumentando, mas em ritmo mais lento.

O índice japonês Nikkei caiu 0,19% em Tóquio hoje, aos 30.183,96 pontos, enquanto o sul-coreano Kospi recuou 1,14% em Seul, aos 3.097,92 pontos, e o Taiex registrou queda de 0,76% em Taiwan, aos 17.181,44 pontos.

Na China continental, o Xangai Composto subiu 0,54%, a 3.602,22 pontos, mas o menos abrangente Shenzhen Composto apresentou baixa de 0,18%, a 2.402,20 pontos.

Por outro lado, o Hang Seng teve desempenho relativamente bom hoje, com alta de 1,20% em Hong Kong, a 24.500,39 pontos, à medida que preocupações com as repercussões da crise de liquidez da gigante do setor imobiliário chinês Evergrande parecem estar se dissipando. A ação da Evergrande em Hong Kong subiu 4,71%, impulsionando outras empresas do setor.

Nesta terça-feira, o Banco do Povo da China (PBoC) injetou mais 100 bilhões de yuans (quase US$ 15,5 bilhões) em recursos no sistema financeiro chinês por meio de operações de recompra reversa de 14 dias, segundo comunicado divulgado no site da instituição.

Essa é mais uma tentativa de manter a liquidez do sistema bancário em meio às preocupações com a gigante do setor imobiliário chinês. Na quinta-feira, 23, uma subsidiária da empresa falhou em honrar o pagamento de juros sobre bônus externos. Desde a semana passada, circulam relatos de que o governo chinês planeja reestruturar a Evergrande e estatizá-la.

Na Oceania, a bolsa australiana ficou no vermelho, após números fracos do setor varejista mostrarem que lockdowns motivados pela pandemia de covid-19 continuam a prejudicar a economia doméstica. O S&P/ASX 200 caiu 1,47% em Sydney, aos 7.275,60 pontos. / com Júlia Zillig e Agência Estado

Imagem do autor

Colaborador do Portal Mais Retorno.

Deixe seu comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *


Veja mais Ver mais