Mercado Financeiro

A Bolsa bem que tinha ensaiado uma alta, ainda que tímida, pela manhã desta quinta-feira, após dois pregões de fortes quedas. Condição que deixa muitas ações como verdadeiras pechinchas e atrai o investidor. Durante a tarde, o Ibovespa trafegou no negativo com quedas acentuadas de Petrobras, Vale e bancos, pesando sobre o mercado os desdobramentos da paralisação dos caminhoneiros, a inflação acima das expectativas e as tensões no cenário político.

A novidade veio com a mudança de postura do presidente Jair Bolsonaro, que após uma reunião com o ex-presidente Michel Temer, fez uma retratação pública com uma "Declaração à Nação", em que afirma não ter tido a intenção de agredir os Poderes em seus discursos no 7 de Setembro. Ele justificou que suas críticas "por vezes contundentes, decorreram do calor do momento". Foi o suficiente para provocar uma reação positiva na B3. O Ibovespa fechou com alta de 1,72%, aos 115.360,86. Quase na mesma proporção, o dólar caiu 1,85%, cotado a R$ 5,227.

Foto: B3/Divulgação
Sede da Bolsa de Valores em São Paulo - Foto: B3/Divulgação

O "manifesto de pacificação" foi sugerido e escrito pelo ex-presidente, que confirmou a informação para a TV Globo. De acordo com assessores que acompanharam a reunião, que durou cerca de quatro horas, Temer aconselhou Bolsonaro a tentar uma reaproximação entre os três Poderes para apaziguar a crise institucional.

Não se sabe até quanto, mas pelo menor por ora, houve um alívio nos ânimos políticos. Pelo sim, pelo não, muitos investidores decidiram voltar rapidamente a suas posições em ações.

Protestos dos caminhoneiros

Segundo o último boletim divulgado pelo Ministério da Infraestrutura, após atingir 15 Estados com bloqueios na parte da manhã, não há mais registros de trechos interditados por caminhoneiros nas rodovias federais. No entanto, ainda há pontos de concentração em 13 Estados.

A Polícia Rodoviária Federal zerou os pontos sensíveis com algum impedimento de entrada ou saída de caminhões.

Foram liberados corredores logísticos essenciais na BR-116 e BR-101 na Bahia, BR-101 em Sergipe, BR-101 em Pernambuco, BR-116, BR-285, BR-386 e BR-392 no Rio Grande do Sul e BR-447 no Espírito Santo.

Apesar da movimentação, há divergências sobre a interrupção das atividades. O movimento não tem apoio formal da categoria, o Conselho Nacional do Transporte Rodoviário se diz contra a greve motivada por pauta política e, principalmente, antidemocrática.

A paralisação dos caminhoneiros cria intranquilidade no mercado financeiro porque o episódio remete à greve da categoria que em 2018 praticamente paralisou o País e estrangulou a atividade econômica.

Ainda que seja por poucos dias, os pontos de bloqueio feitos pelos caminhoneiros podem provocar danos à economia que levarão meses para serem reparados.

No final da noite anterior, circulou pelas redes sociais um áudio do presidente Jair Bolsonaro pedindo aos participantes o fim da ação, argumentando que ela atrapalha a economia, provoca desabastecimento, inflação e prejudica sobretudo os mais pobres.

Sobe e desce da B3

Nesta quinta-feira, a Petrobras ficou no negativo durante quase todo o dia, virando o sinal no final da tarde com as notícias vindas de Brasília. A petroleira fechou com alta de 2,12%. Já a PetroRio teve o avanço mais expressivo do dia na B3, de 8,32%.

As mineradoras e siderúrgicas operaram sem sinal único, apesar da queda no preço do minério de ferro na China. As ações da Vale registraram queda de 0,36%. A empresa informou que prevê despesas entre US$ 2,7 bilhões a US$ 3,2 bilhões ligadas ao desastre de Brumadinho (MG). O Credit Suisse informou que mantém a avaliação de compra (outperform) da companhia.

A instituição financeira comunicou que elevou a recomendação de compra das ações da Gerdau - revisou o preço-alvo por ação de R$ 37 para R$ 39,50. Com isso, os papéis da companhia subiram 1,33%. Usiminas e CSN subiram 0,51% e 2,98%, na sequência.

Os bancos, que também iniciaram o dia no vermelho, fecharam em alta após a declaração de Bolsonaro. Bradesco e Santander avançaram 0,43% e 0,54%, na sequência, enquanto Itaú teve um avanço mais acentuado, de 1,32%.

As empresas do setor de varejo tinham quedas expressivas até o meio da tarde, refletindo os números da inflação de agosto, divulgados pela manhã, que vieram acima das expectativas do mercado. No entanto, assim como a maior parte dos ativos brasileiros, Magalu, Lojas Americanas, Lojas Marisa e Lojas Renner viraram o sinal e tiveram variação positiva de 0,32%, 2,29%, 1,55% e 1,79% em seus papéis.

Depois de anunciar que pretende investir US$ 3 milhões na fintech Traive, do setor agrícola, a Minerva saltou 3,90%.

A ações da Azul reportaram avanço de 2,39%, com a divulgação dos números de tráfego e capacidade da companhia de agosto, que subiram 173% e 168,4%, respectivamente.

Inflação de agosto acima do esperado

Durante a manhã, o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) divulgou a inflação de agosto. De acordo com o levantamento, o Índice de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA) subiu 0,87% no período, acumulando alta de 9,68% em 12 meses. Em relação ao mês anterior, houve um recuo ante a alta de 0,96%.

O resultado veio muito acima do projetado pelos analistas, que apostavam em uma mediana positiva de 0,71%. Para Étore Sanchez, economista-chefe da Ativa Investimentos, a grande surpresa no indicador foi a forte contribuição da gasolina e dos preços de veículos novos e reparação de automóveis.

“Apesar de a surpresa ter sido em itens pouco sensíveis às políticas monetárias, impulsionados por problemas climáticos ou geopolíticos, a dinâmica inflacionária não permite que surpresas sejam sistematicamente altistas, em função do alto patamar”, diz Sanchez.

Segundo ele, a casa de análise deve rever sua projeção para o índice de 2021 – que até então era de 7,7% - e esse número deve acelerar o aumento da Selic, taxa básica de juros, pelo Banco Central.

“Com isso, e eventuais desdobramentos sobre as expectativas de 2022, a autoridade monetária deverá acelerar o passo do juro, elevando a Selic e 1,25% já na próxima reunião”, destacou.

Dólar cai

Na contramão da Bolsa, o dólar fechou em queda nesta quinta-feira. A moeda americana à vista reportou recuo de 1,85% no mercado local, cotada a R$ 5,227.

Segundo profissionais de câmbio, exportadores aproveitam os preços mais favoráveis para vender seus dólares. E o cenário internacional também é de enfraquecimento da divisa dos Estados Unidos. A queda mais acentuada veio no final da tarde, após sinalização de que Bolsonaro quer apaziguar o cenário político.

NY: seguro-desemprego, delta e Livro Bege

No cenário externo, as bolsas de Nova York fecharam no vermelho, com o mercado digerindo os novos dados sobre o mercado de emprego, preocupado com o avanço da variante delta, que pode desacelerar o crescimento da economia, e também refletindo sobre os dados do Livro Bege, divulgado pelo Fed (Federal Reserve, o banco central americano) na véspera. O índice S&P 500, Dow Jones e Nasdaq caíram 0,46%, 0,43% e 0,38%, na sequência.

O Departamento do Trabalho dos Estados Unidos divulgou durante a manhã que o número de pedidos de auxílio desemprego caiu 35 mil solicitações, somando 310 mil, segundo dados com ajustes sazonais.

O resultado ficou abaixo da expectativa dos analistas, que previam 355 mil pedidos. O total da semana anterior foi ligeiramente revisado para cima, de 340 mil para 345 mil pedidos.

O dado se junta às informações do relatório Jolts, divulgado no dia anterior, que mostrou que o número de postos de trabalho abertos nos EUA atingiu, em julho, o nível recorde de 10,934 milhões. As vagas ainda não haviam sido preenchidas naquele mês.

Na véspera, a autoridade monetária divulgou o Livro Bege. Segundo o documento, que compila percepções de empresários sobre a economia americana, o crescimento foi afetado, em parte, pela variante delta do coronavírus, que levou a uma retração nos setores de restaurantes, viagens e turismo.

Além disso, aponta o Livro Bege, a escassez de suprimentos, devido aos gargalos nas cadeias de produção, e a falta de mão de obra nos EUA têm freado a recuperação da crise.

 O presidente da distrital do Fed em Atlanta, Raphael Bostic, acredita que o banco central conseguirá iniciar a gradual redução de suas compras de ativos - num processo conhecido como tapering - ainda este ano, embora não espere que uma decisão a respeito seja tomada na reunião de política monetária de 21 e 22 de setembro.

Bostic, que na maior parte do ano vem defendendo que o Fed reduza suas compras mensais de US$ 120 bilhões em ativos financeiros, disse em entrevista que os recentes dados econômicos fracos e o ressurgimento da pandemia de coronavírus exigem mais tempo para se decidir sobre a eventual remoção de estímulos monetários.

No entanto, ele avaliou que a economia dos EUA se mantém numa "posição bastante forte" e que a disseminação da variante delta da covid-19 não interrompeu ou reverteu a recuperação do país, ainda que tenha "definitivamente desacelerado o ritmo de progresso".

Bostic, que não vota nas reuniões do Fed este ano, também reiterou esperar que a primeira alta dos juros básicos venha no fim de 2022. Ainda na entrevista, o dirigente previu que o salto da inflação nos EUA perderá força, mas ressaltou que isso poderá demorar mais do que se imaginava.

Bolsas asiáticas fecham mistas

 As bolsas asiáticas fecharam sem direção única nesta quinta-feira, com parte delas acompanhando as perdas do dia anterior em Wall Street.

O índice acionário japonês Nikkei caiu 0,57% em Tóquio, aos 30.008,19 pontos, enquanto o sul-coreano Kospi recuou 1,53% em Seul, aos 3.114,70 pontos.

Já o Hang Seng teve expressiva queda de 2,30% em Hong Kong, aos 25.716,00 pontos, pressionado por ações de tecnologia após relatos de que o governo chinês irá suspender a aprovação de novos jogos online.

Já na China continental, os mercados ficaram no azul, impulsionados por ações de siderúrgicas e de produtoras de carvão. O Xangai Composto subiu 0,49%, aos 3.693,13 pontos, e o menos abrangente Shenzhen Composto teve ganho marginal de 0,07%, aos 2.494,27 pontos. Em Taiwan, o Taiex apresentou leve valorização de 0,20%, aos 17.304,33 pontos.

Dados oficiais mostraram que a taxa anual de inflação ao produtor (PPI) da China atingiu 9,5% em agosto, superando as expectativas e tocando o maior patamar em 13 anos. Por outro lado, a inflação anual ao consumidor chinês desacelerou para 0,8% no último mês.

Na Oceania, a bolsa australiana teve perdas quase generalizadas, registrando sua maior perda diária em sete meses. O S&P/ASX 200 terminou o pregão em Sydney com queda de 1,90%, aos 7.369,50 pontos. / com Júlia Zillig e Agência Estado

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