Mercado Financeiro

A Bolsa, que já vinha bem com a recuperação das commodities, saltou 1,84%, aos 122.282 pontos, com a decisão do Federal Reserve (Fed, o banco central norte-americano), que manteve a taxa de juros inalterada nos Estados Unidos, entre 0% e 0,25%. Especialistas explicam que, com as taxas baixas, os títulos americanos são menos atrativos, o que favorece os ativos de riscos de países emergentes, como as ações brasileiras, aos olhos dos investidores estrangeiros.

Imediatamente após a divulgação, a alta era ainda maior e o Ibovespa chegou a marcar 113.321 pontos. Mas o índice perdeu um pouco de força até o fechamento do pregão, com os investidores em compasso de espera para outra decisão importante desta quarta-feira, que ocorreu agora à noite, com o Comitê de Política Monetária (Copom), do Banco Central, elevando a Selic, taxa básica de juros, para 6,25% ao ano.

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Sede da B3 em São Paulo - Foto: B3/Divulgação

O ajuste veio em conformidade com o que esperava o mercado, depois da sinalização dada pelo presidente do Banco Central, Roberto Campos Neto, ao afirmar que "o BC não irá alterar o plano de voo de política monetária a cada número novo de alta frequência de inflação que seja divulgado". Esse nível será mantido até o dia 27 de outubro, quando o Copom volta a se reunir para definir o rumo dos juros.

Esta é a quinta alta consecutiva da Selic, que deve continuar subindo até a última reunião do Copom no ano, em dezembro. As projeções dos analistas e economistas é que o BC eleve a taxa a até 8,50%, numa tentativa de controlar a escalada da inflação.

Decisão do Fed

Os integrantes do Comitê Federal de Mercado Aberto (Fomc, na sigla em inglês) tomaram a decisão manter a taxa de juros inalterada de forma unânime. A maioria do colegiado disse esperar por uma alta de juros a partir de 2023.

O comunicado continua apresentando preocupações em relação a evolução da atividade econômica, que apesar de ter apresentado recuperação relevante, voltou a apresentar fraqueza por conta da variante delta, o que demonstra que as condições relacionada à pandemia continuam sendo o principal risco para economia, explica Alexandre Almeida, economista da CM Capital.

Além disso, o colegiado também apresentou uma preocupação forte em relação ao crescimento inflacionário e ao nível de desemprego, "de forma que a instituição se preocupa em baixar os níveis para a meta estipulada", afirma Almeida.

Sobre o programa de compra de ativos, caso os dados de atividade continuem a apresentar crescimento relevante, "é de se esperar uma redução do ritmo", ressalta o economista, destacando que a instituição deve anunciar o fim do tapering em seu próximo comunicado, em novembro.

De acordo com Paloma Brum, analista da Toro Investimentos, "no que tange aos possíveis desdobramentos sobre os ativos brasileiros, a redução de estímulos à economia estadunidense cada vez mais próxima tende a servir de estímulo para certo nível de saída de capital de economias emergentes, o que pode implicar num real mais depreciado e num fluxo menor de recursos para ativos de risco no Brasil."

A especialista explica ainda que, embora o movimento possa ser negativo para o País, "o ciclo de alta na SELIC, que vem sendo implementado pelo COPOM, tende a amenizar esse movimento de saída de capital da economia brasileira".

Com a decisão, em Nova York os índices acionários se fortaleceram. O Dow Jones subiu 1,00%, enquanto o S&P500 avançou 0,93% e o Nasdaq, 0,99%.

Dólar avança

O dólar viveu um dia volátil no pregão desta quarta-feira e fechou com alta de 0,40%, cotado a R$ 5,291.

Logo após a decisão do Federal Reserve, a moeda americana caiu, batendo a mínima do dia de R$ 5,251. Porém, pouco tempo depois, o dólar voltou a se valorizar frente às divisas emergentes e chegou a máxima de R$ 5,318.

Para o economista da CM Capital, a alta até o fechamento veio depois do discurso do presidente do Fed, Jerome Powell, que afirmou que a redução do programa de compra de ativos começa em novembro, o que apresentou uma "retomada do viés mais agressivo quanto à política monetária".

Sobe e desce na B3

Com o cenário mais ameno no exterior, os bancões operam no azul e ajudam a puxar o Ibovespa para cima. Às 14h24, o IFNC, índice que engloba as empresas do setor financeiro da Bolsa, incluindo os gigantes, disparava 2,94%.

Beneficiados pela alta das commodities, os papéis de diversas empresas apresentaram alta. Vale, CSN, Usiminas e Gerdau avançaram 3,55%, 1,95%, 8,70% e 5,84%. Entre as petroleiras, o dia foi positivo também e Petrobras e PetroRio saltaram 2,54% e 7,48%, na sequência. Na mesma esteira, os papéis da Suzano e da Klabin subiram 3,64% e 0,94%, respectivamente.

As ações da WEG subiram 2,06%, após a companhia anunciar o pagamento de Juros sobre Capital Próprio (JCP) no valor de R$ 86,8 milhões.

Após precificar seu follow-on (oferta subsequente de ações) a R$ 36,75 e levantar R$ 1,44 bilhão, os papéis da Totvs valorizaram 5,34%.

Evergrande

A operação do Ibovespa nesta quarta-feira refletiu também o quadro mais ameno da crise da gigante chinesa Evergrande, que está trazendo um pouco mais de calma para os mercados globais,

No entanto, as restrições mais amplas do setor imobiliário da China também estão alimentando as preocupações sobre uma desaceleração na recuperação econômica pós-pandemia.

Segundo Edward Moya, analista, os mercados financeiros têm a Evergrande como foco e ficarão de olho até uma atualização do governo chinês. Para ele, a crise envolvendo a incorporadora não levará ao contágio nos EUA, mas há muitas dúvidas sobre quem será protegido quando a China disser "basta".

Cenário fiscal: precatórios

O cenário fiscal segue na pauta de monitoramento dos investidores. Na véspera, o presidente da Câmara, Arthur Lira, anunciou a criação da comissão especial para a proposta da emenda à Constituição (PRC) dos precatórios.

A instalação do colegiado com a eleição do presidente e do relator está marcada para esta quarta-feira, 10h. Lira afirmou que pretende acelerar a tramitação da proposta da casa, contando os prazos de segunda a sexta, para dar o tempo regimental necessário.

Já o presidente do Senado, Rodrigo Pacheco, disse que a “solução” acordada no dia anterior para o pagamento de precatórios em 2022 “não é calote”.

Depois de uma reunião com Lira e o ministro da Economia, Paulo Guedes, Pacheco anunciou que enviará ao Congresso Nacional uma proposta de retirar do teto de gastos a maior parte dos R$ 89,1 bilhões devidos pelo governo em dívidas judiciais e que deveriam ser pagos em 2022.

A ideia é corrigir o montante pago com precatórios em 2016, ano em que o teto de gastos foi instituído, e travar o pagamento das despesas nesse valor, que seria de cerca de R$ 39 bilhões a R$ 40 bilhões. Com isso, cerca de R$ 50 bilhões do total previsto para 2022 ficaria "alheio ao limite do teto", e poderia ser transferido para 2023.

"Não é calote, é uma prorrogação, e também não é o parcelamento. É um formato que pode dar uma solução para este problema e tirar este problema porque temos outros para enfrentar", afirmou Pacheco.

De acordo com o presidente do Senado, a ideia é aproveitar a Proposta de Emenda Constitucional (PEC) enviada pelo governo sobre o tema para fazer a mudança. Apesar de, na prática, o acordo prever a retirada da maior parte do montante a ser pago em 2022 do teto de gastos, Pacheco disse que a regra fiscal está sendo respeitada.

"Temos uma realidade, o cumprimento do teto. Outra hipótese seria retirar precatórios do teto de gastos públicos o que, neste momento, considerando todas as pressões que há em relação a inflação, câmbio e estabilidade do país não seria conveniente", completou o parlamentar.

Pacheco comentou ainda o recebimento da reforma do Imposto de Renda no Senado e disse que já foi encaminhada para uma comissão e já há relator definido.

Bolsonaro em NY

Na noite anterior, a Secretaria de Comunicação do governo confirmou em nota que o ministro da Saúde, Marcelo Queiroga, testou positivo para a covid-19.

Queiroga está em Nova York, onde acompanhou o presidente Jair Bolsonaro em sua participação na 76ª Assembleia Geral da Organização das Nações Unidas (ONU).

De acordo com a Secom, o ministro está bem e permanecerá nos Estados Unidos durante o período de isolamento. Os outros integrantes da comitiva presidencial testaram negativo para a doença, acrescenta o governo.

O teste positivo de Queiroga vem no mesmo dia em que o presidente Jair Bolsonaro criticou, na ONU, a obrigatoriedade da vacinação contra a covid-19 e defendeu a utilização de medicamentos sem eficácia comprovada contra a doença, gerando repercussão negativa na imprensa internacional.

Após um discurso marcado também por informações inverídicas e distorcidas, principalmente no que diz respeito à questão ambiental, o presidente Jair Bolsonaro decidiu cancelar a entrevista que concederia na véspera à ONU News, site de notícias da instituição.

A informação foi confirmada pela Secretaria Especial de Comunicação (Secom) do governo, que, porém, não quis falar o motivo da mudança de agenda.

Com isso, Bolsonaro não tem compromissos oficiais agendados para o restante do dia em Nova York. O retorno da comitiva presidencial está marcado para as 22 horas (horário de Brasília) e, até o momento, não está previsto um adiantamento do voo, diz a Secom.

Antes do pronunciamento, Bolsonaro teve encontros bilaterais nesta terça-feira com o presidente da Polônia, Andrzej Duda, e com o secretário-geral da ONU, António Guterres.

CPI da Covid: Prevent Senior

A Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) da Covid ouve, nesta quarta-feira, o diretor executivo da Prevent Senior, Pedro Benedito Batista Júnior. Ele deve ser questionado sobre a suposta adoção do chamado tratamento precoce, com remédios sem eficácia comprovada, contra a covid-19 nos hospitais do plano.

Na véspera, o senador Omar Aziz, presidente da CPI da Covid, pediu ao Supremo Tribunal Federal (STF) que rejeite o recurso do deputado federal Ricardo Barros (PP-PR) contra a decisão individual da ministra Cármen Lúcia que manteve a quebra do seu sigilo fiscal decretada pela comissão parlamentar.

A briga é sobre o limite dos poderes das comissões parlamentares de inquérito: se podem ou não determinar a quebra de sigilo de outros deputados e senadores.

De um lado, a defesa de Ricardo Barros diz que a medida é ilegal por esbarrar na prerrogativa de foro especial. Do outro, a Advocacia do Senado, que produziu a manifestação enviada por Omar Aziz nesta segunda-feira, 20, ao Supremo Tribunal Federal, defende que as quebras podem ser decretadas desde que sejam devidamente motivadas e fundamentadas.

O requerimento para quebrar o sigilo de Ricardo Barros foi apresentado pelo senador Alessandro Vieira e aprovado por maioria na comissão.

O pedido foi motivado pelas acusações feitas pelo deputado federal Luis Miranda e pelo irmão do parlamentar, Luis Ricardo Miranda, que é chefe de importação do Departamento de Logística do Ministério da Saúde, de corrupção no contrato para compra da Covaxin.

Eles afirmam que o presidente Jair Bolsonaro atribuiu as suspeitas de irregularidades envolvendo as negociações para aquisição do imunizante a um 'rolo' do líder do governo na Câmara.

Bolsas asiáticas fecham mistas

As bolsas asiáticas fecharam sem direção única nesta quarta-feira, com os investidores apreensivos com o efeito Evergrande com a reunião do Fed.

Em Tóquio, o índice Nikkei caiu 0,67%, aos 29.639,40 pontos. Na Coreia do Sul, o Kospi subiu 0,33%, aos 3,140,51 pontos.  Em Hong Kong, o Hang Seng fechou com avanço de 0,51%, aos 24.221,54 pontos.

Na Ásia, a China evitou uma grande onda vendedora na retomada das negociações após um feriado durante o qual os mercados globais foram afetados duramente pelo risco de default da Evergrande.

Segundo Filipe Teixeira, sócio da Wisir Research, o banco central chinês deve aumentar as injeções de dinheiro registradas na semana passada e se estima que precisará adicionar 130 bilhões de yuans – ou US$ 20 bilhões – até quinta-feira, 24, para garantir liquidez e colocar panos quentes sobre a questão, a menos por enquanto.

Na Austrália, o índice S&P/ASX200 concluiu o pregão em alta de 0,32%, aos 7.296,90 pontos. /com Tom Morooka e Agência Estado

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