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Os resultados de balanços no segundo semestre do ano confirmaram a expectativa de analistas de que os grandes bancos privados teriam um trimestre abril/junho de forte recuperação. Apenas o lucro líquido do Bradesco veio abaixo do de janeiro/março, como consequência da piora nos resultados do segmento de seguros do banco.

Ainda assim, juntos, os três principais bancos privados – Itaú, Bradesco e Santander – exibiram nos balanços lucro total de R$ 17,033 bilhões no trimestre abril/junho, resultado 68,2% superior ao do mesmo período de 2020.

Foto: Reprodução
Fachada de uma das agências do Bradesco

Pilares que sustentaram os balanços

O desempenho positivo dos balanços do setor bancário veio escorado por dois pilares, de acordo com especialistas. Um é que a comparação, em termos anuais, pega uma base bastante achatada pela crise da Covid-19 em 2020. Outro é que os bancos tiveram menos necessidade de constituir novas provisões contra devedores duvidosos.

O Santander lucrou R$ 4,171 bilhões entre abril e junho, alta de 4% sobre o primeiro trimestre e de 98,4% em relação a igual período de 2020. Uma rentabilidade recorde, impulsionada principalmente pelas receitas obtidas com tarifas, que cresceram 26,9%, puxadas pela reabertura da economia que redundou em maior gasto com uso de cartões.

O Itaú teve lucro de R$ 6,543 bilhões no segundo trimestre, um aumento de 2,3% sobre o trimestre janeiro/março e de 55,6% na comparação com o mesmo período do ano passado. As receitas com tarifas, somadas com a recuperação de linhas de crédito de maior risco, foram fatores que beneficiaram o resultado do banco entre abril e junho. A inadimplência sob controle também contribuiu, com menos provisões contra devedores.

O Bradesco lucrou R$ 6,319 bilhões no trimestre abril/junho, uma queda de 3% em relação ao primeiro trimestre, mas um avanço de 63,2% sobre igual período do ano passado, resultado que reflete a retomada da atividade econômica. O desempenho geral ficou abaixo do esperado pela piora do resultado de seguros, segmento que o Bradesco lidera entre os grandes bancos, impactado pela pandemia de Covid-19. O resultado de negócios com seguros caiu 58,3%, para R$ 1,574 bilhão.

Fachada de Agência do Banco do Brasil.

O Banco do Brasil teve lucro de R$ 5,039 bilhões no segundo trimestre, uma elevação de 2,6% sobre o trimestre anterior e 52,2% sobre a mesma base de comparação de 2020. O resultado foi puxado pela recuperação das receitas com tarifas e o banco prevê elevação do lucro estimado com a redução do valor do provisionamento de reserva para devedores duvidosos. A inadimplência recuou 1,86% no segundo trimestre, comparada com uma taxa de calote de 1,95% no trimestre anterior e de 2,84% no mesmo período do ano passado.

Simone Pasianotto, economista-chefe da Reag Investimentos, afirma que os resultados dos bancos entre abril e junho apontaram uma recuperação em linha com os do primeiro trimestre. Para ela, os lucros, de forma geral, refletem um cenário que combina menos necessidade de provisões, receitas de serviços impulsionadas por maior volume de operações e uma política cada vez mais agressiva de redução de custos.

O lucro do setor já era esperado, por causa da ampla liquidez no sistema, comenta George Sales, professor do Ibmec-SP.  Para ele, as várias formas de auxílio a empresas e famílias adotadas pelo governo para o combate à pandemia ampliaram o volume de dinheiro em circulação e o tamanho dos ativos dos bancos, “que fazem resultado em cima disso”, analisa.

“Os ativos dos bancos tiveram crescimento de cerca de 20%, que tem um efeito multiplicador de moeda com potencial de gerar lucro maior no segundo semestre”, acredita.  “As ações de grandes bancos tendem a ter desempenho melhor que as de muitos outros segmentos”, no curto e médio prazo, com a ajuda da reabertura econômica, que, para Sales, deve proporcionar um aumento de resultado dos bancos.

O estrategista da RB Investimentos, Gustavo Cruz, diz que de forma geral os balanços agradaram, mas faz uma ressalva ao ROE – retorno sobre patrimônio líquido - de alguns bancos, que teria vindo baixo e desapontado o investidor. “O ROE de 17,4% do Bradesco e o de 18,9% do Itaú vieram abaixo da média de 20% esperada pelo mercado.”

Hugo Queiroz, analista do TC, diz que o grande destaque dos resultados de balanços dos bancos foi a queda de risco da economia, “cristalizada na redução de 50% no nível de provisionamento dos bancos”. Uma diminuição na formação de reserva para a cobertura de calote que sinaliza que a inadimplência está controlada e bem comportada.

Balanços favorecidos pela retomada da economia e crédito

A retomada da economia e o crescimento das carteiras de crédito dos bancos são, para Queiroz, dois fatores que contribuíram para abaixar a inadimplência e reduzir o provisionamento, o que aumenta do lucro do setor bancário, que, por seus cálculos, já voltou ao patamar pré-covid. “Toda redução do risco culminou no crescimento do lucro e na melhora da rentabilidade dos bancos.”

A perspectiva é de continuidade de queda do risco e de melhora dos próximos balanços, “embora não nessa atual magnitude”, segundo Queiroz. Mas ele aponta outros dois pontos relevantes que tendem a ditar resultados positivos daqui para a frente: a redução de despesas e aceleração do crescimento de carteiras de crédito.

A esses dois fatores ele junta ainda, como terceira perna de sustentação para maior rentabilidade dos bancos, a alta dos spreads com a elevação da taxa básica de juros, a Selic. “O aumento da Selic é promissor para o setor financeiro no segundo semestre, melhora o resultado de bancos e de seguradoras”, reforça Gustavo Cruz, estrategista da RB Investimentos.

Queiroz prevê um cenário de aceleração de operações no segmento de seguridade, como o de seguro, em todas as modalidades, previdência privada, capitalização, dentre outras, contribuindo como destaque positivo para robustecer os resultados de balanço do setor financeiro.

Foto: Adrian Michael
Fachada de agência do Banco Itaú - Foto: Adrian Michael

O que recomendam os analistas

O analista do TC afirma que, mesmo diante de boas perspectivas, os papeis do setor financeiro não se valorizaram como deveriam nesse cenário. Otimista, Queiroz calcula existir um potencial de valorização de pelo menos 30% em todos eles. “Não há nenhuma sinalização de que a crise vai continuar. O pior já passou.”

Marcel Campos, analista de bancos da XP, diz que a equipe de analistas da corretora avalia as ações de grandes bancos sob uma perspectiva cautelosa, “uma vez que os preços não nos parecem atrativos”.  Existe recomendação de compra para Banco do Brasil, posição neutra para Itaú e Bradesco e venda para Santander.

Simone, da Reag Investimentos, também recomenda a venda de Santander, cuja ação está acima do preço-alvo de R$ 36,00 – fechou cotada por R$ 39,32 ontem. Posição neutra para Itaú e Bradesco – Itaú foi cotada por R$ 30,00, acima do preço-alvo de R$ 28,00, e Bradesco, por 23,20, abaixo do preço-alvo de R$ 26,00. A recomendação neutra para Bradesco se deve à piora da qualidade dos resultados, explica Simone.

Para Banco do Brasil, a recomendação de Simone é de compra. “De forma geral, os resultados vieram positivos e a ação está com preço atraente.” Cotada por R$ 30,83, ontem, bastante abaixo do preço-alvo de R$ 50,00.

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Colaborador do Portal Mais Retorno.

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