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Grab ingressa na Nasdaq e atrai os olhos do mercado para o setor de tecnologia do sudeste asiático

Abertura de capital da empresa indica tendência de um grande mercado emergente consumidor de tecnologia fora da China

Data de publicação:03/12/2021 às 05:00 -
Atualizado 7 meses atrás
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Uma grande mudança está em curso na indústria de tecnologia asiática. Enquanto os investidores desviam os olhos do pesadelo imposto pelo governo chinês, que envolve os gigantes do setor de internet da China, um grupo de companhias do sudeste asiático segue crescendo em paralelo. Entre elas a Grab, que abriu capital na Nasdaq nessa quinta-feira, 2.

Se somado o valor atribuído pelos mercados a apenas três companhias gigantes de aplicativos listadas e que estão com quase os dois pés no mercado de capital aberto - com sedes em Cingapura e Jacarta - o número se aproxima de um quarto de US$ 1 trilhão. Acrescentam-se, ainda, cerca de US$ 70 bilhões de um mercado cheio de unicórnios – startups no valor de US$ 1 bilhão ou mais.

Foto: Reprodução
Grab faz sua estreia na bolsa Nasdaq com expectativa de valor na casa dos US$ 40 bilhões - Foto: Reprodução

Esse cenário certamente está trazendo bons prognósticos, em médio e longo prazo, de que um grande mercado emergente consumidor de tecnologia pode aumentar fora da China.

Nesta quinta-feira, 2, a Grab, com sede em Cingapura, uma empresa de tecnologia com foco no consumidor, faz seu debut na Nasdaq, por meio de uma fusão com uma SPAC (Companhias com Propósito Específico de Aquisição, em português). A expectativa é que a Grab alcance o valor de US$ 40 bilhões.

Outra gigante do setor, o GoTo Group, formado a partir da fusão da empresa Gojek, uma empresa da Indonésia focada em caronas, com a Tokopedia, uma companhia de comércio eletrônico, tem previsão de fazer sua abertura de capital nos Estados Unidos em 2022. A Sea, o maior grupo entre as maiores, e “pai” da Shopee, pioneira em comércio eletrônico, foi a primeira a ser listada na Nasdaq em 2017.

Desde então, o valor de mercado da empresa aumentou oito vezes desde o final de 2019, somando US$ 160 bilhões, tornando-a a maior empresa do sudeste asiático listada na Nasdaq.

Super apps

As três empresas são resultado da combinação de negócios como transporte de passageiros e entrega de comida, e serviços financeiros com jogos para celular. A “mistura” de segmentos varia de empresa para empresa, mas a mesma ideia permeia a intenção de todas elas: reunir centenas de milhões de consumidores em uma rede de serviços.

Apesar de as margens de lucro serem baixas, os volumes em transação são amplos. Esse tipo de modelo de negócio é chamado de super aplicativos. Em seu mercado, essas companhias já são gigantes. Com uma frota de mais de dois milhões de motoristas, a GoTo, sozinha, ostentou um volume de transações totais de US$ 22 bilhões, equivalente a 2% do PIB da Indonésia.

As perspectivas para o mercado de tecnologia de consumo do sudeste asiático sofreram altos e baixos ao longo da última década. Os otimistas, atualmente em ascensão, apontam para um mercado de 650 milhões de pessoas, com um forte potencial para um rápido crescimento econômico.

Marck Goodridge, analista de ações do banco Morgan Stanley, observa que o varejo online representou apenas 6% das vendas do varejo nos países da Associação das Nações do Sudeste Asiático (ASEAN, na sigla em inglês), em comparação aos índices de 15% na América e de cerca de 30% na China.

Por outro lado, os céticos notam uma fragmentação do mercado na região. Os mercados do sudeste asiático não são considerados um bloco econômico anexo ao gigante chinês. Mesmo nos países maiores – como a Indonésia – predominam vários idiomas, além de níveis de renda e capacidade de infraestrutura completamente distintas.

Para essa corrente, nenhuma das grandes empresas da região tem um “lucro confiável”. No terceiro trimestre deste ano, as perdas da Sea subiram para US$ 571 milhões, 30% maior em relação ao ano anterior. Juntas, Grab e Sea contabilizaram um prejuízo líquido de US$ 17 bilhões desde o início de 2018.

Investimentos

O “mar de tinta vermelha” não alarma os investidores. Eles exigiam a consolidação dessas empresas para tornar o mercado mais organizável e pronto para receber investimentos. E, de modo geral, conseguiram isso. Prova disso é o número de M&As (Fusões e Aquisições, na sigla em inglês). No final do mês passado, o volume de negócios com essas transações já havia chegado a US$ 61 bilhões, o equivalente ao montante obtido pela atividade do setor na região na última década.

Essas transações ajudaram a criar a estratégia de super apps, recebida com entusiasmo pelos consumidores. “O que os clientes desejam é ter acesso a soluções digitais mais completas e ágeis, que não são fragmentadas. Eles não querem ter cinco opções de e-commerce e três empresas de entregas de alimentos”, explica Patrick Cao, presidente do GoTo Group.

O “triunfo” do GoTo Group, da Grab e da Sea veio por meio dos poderosos rivais americanos e chineses. O Alibaba tem presença na região do sudeste asiático por meio da empresa de e-commerce Lazada, que, após ter ficado na posição de liderança durante dois anos, deixou esse posto.

Com cerca de 137 milhões de visitas em 2020, de acordo com informações da IPrice, empresa que consolida dados do setor de e-commerce asiático, a Lazada tinha um pouco menos da metade da popularidade da Sea, a líder regional. Desde que o Uber teve suas operações compradas pela Grab, nenhuma empresa americana obteve uma presença significativa no e-commerce ou no transporte de passageiros.

Na opinião de empresas da região, isso é uma prova ampla de que o foco no mercado local rendeu frutos. Para elas, a falta de mercados internos ricos e homogêneos forçou as companhias estrangeiras a adaptar seus produtos e serviços a outros locais.

Para as mais ambiciosas, entre seus executivos impera a opinião de que isso é uma vantagem competitiva que também funcionará globalmente. No futuro, a intenção seria projetar versões desses super apps para diferentes mercados europeus e da América.

Consolidação e escala

A consolidação e a escala deveriam, em teoria, gerar lucros.  O caminho para isso pode ser as empresas se complementando ao agregar serviços e diferentes linhas de negócios - como já está ocorrendo. Ming Maa, presidente da Grab, observa que no segundo trimestre do ano, 66% dos motoristas de veículos de duas rodas tanto na Indonésia, quando no Vietnã e Tailândia trabalhavam tanto na entrega de alimentos quanto no transporte de pessoas, ante 58% registrado no mesmo período de 2020. Isso, na visão do executivo, reduz os custos.

Em relação aos lucros dessas empresas, as perspectivas são promissoras. A taxa de aceitação da Grab, que é a receita proporcional ao valor total das viagens realizadas ou entregas feitas, saltou na parte de mobilidade de 9,5%, em 2018, para 21,7% neste ano. Já em relação às entregas de comida, subiu de 5,6% para 17,1% na mesma base de comparação.

Para medir seus lucros, a empresa tem preferência pelo Ebtida (lucro antes de juros, impostos, depreciação e amortização) em relação às reservas brutas. No entanto, pelo menos a margem de 12% que ela obtém no segmento de mobilidade é mais do que o dobro dos 5,5% registrados pelo Uber. O argumento da Grab para esse quadro é que a falta de lucratividade é uma escolha da empresa, que aposta em sua rápida expansão.

Serviços financeiros

As ambições das três empresas de agregar serviços financeiros ao negócio , no entanto, significam um longo desvio do caminho para a lucratividade. Seu objetivo é compreensível. “Serviços financeiros são algo que todo super app precisa ter. Você tem uma cadeia de suprimentos, base de clientes, mas quer reduzir sua dependência dos serviços financeiros de terceiros”, diz Venugopal Garre, analista da corretora Bernstein.

De acordo com a Moody’s, agência de classificação de risco, observado no início do ano, a Grab certamente terá sua lucratividade prejudicada se levar em frente suas ideias em relação aos serviços financeiros.

Unicórnios

O boom tecnológico do sudeste asiático não é fechado somente às grandes empresas. Existem 35 companhias avaliadas em US$ 1 bilhão ou mais nos países da ASEAN, de acordo com uma pesquisa do Credite Suisse. Destas, 19 já alcançaram o status de unicórnio neste ano.

É verdade que a América em geral e a China já têm centenas de empresas avaliadas em bilhões de dólares. Mas para a região, esse movimento é algo recente, observa Nick Nash, da Asia Partners, uma empresa de private equity focada no mercado de tecnologia. Entre 2013 e 2014, dois países da região tinham apenas 10 unicórnios, antes dessa presença começar a aumentar.

Longe do esteriótipo de serem startups para lá de “sangrentas”, algumas empresas do sudeste asiático têm se empenhado em captar recursos com fundos. Um dos exemplos dados por Nash é a SCI E-commerce, especializada no varejo global e ajuda marcas internacionais a acessar o mercado do sudeste asiático. A companhia se tornou uma das maiores da região, crescendo rápido e captando menos de US$ 70 milhões. Suas receitas aumentaram para próximo de US$ 100 milhões em 2020. Ao contrário de muitas delas, a SCI já tem um fluxo de caixa positivo.

Mix de serviços

Embora as empresas que surgiram no sudeste asiático tenham focado em apenas alguns segmentos – transporte de passageiros, e-commerce, entrega de comida, jogos online, entre outros – o mix está aumentando a cada mês. A listagem nas bolsas de fora de empresas com atuações tão variadas, como a Doctor Anywhere, de Cingapura, que oferece consultas por vídeo com médicos, e a Carsome, da Malásia, que atua no mercado online de venda de carros usados, está próxima de acontecer.

Por enquanto, assim como na América e na China, onde algumas empresas lideram o mercado de internet por vários anos, no sudeste asiático as atenções do mercado se voltam para o trio de líderes – Sea, GoTo e Grab. A mais forte entre elas é a Sea, por conta de sua recente expansão fora da região asiática. O braço de jogos da empresa, que leva o nome de Garena”, é responsável pelo Free Fire, um jogo para celular que é popular em vários locais do mundo – algo que as outras duas companhias não têm.

De acordo com a Apptopia, empresa de pesquisa com sede em Boston, nos Estados Unidos, o Shopee é agora o aplicativo de e-commerce mais popular da América Latina, cuja operação teve início em 2019 no continente. A empresa também foi lançada na Polônia e na Espanha entre os meses de setembro e outubro, e na Índia.

As gigantes de tecnologia seguem um modelo de negócio que está florescendo em outros locais do mundo. Assim como o Mercado Livre, na América Latina, a Coreia do Sul tem a Kakao e a Coupang, com capitalizações de mercado de cerca de US$ 50 bilhões cada.

Com a turbulência no setor de tecnologia da China, essas empresas devem ganhar ainda mais popularidade. Um dos exemplos aconteceu com o JPMorgan Pacific Technology Fund, que administra US$ 1,5 bilhão em ativos. No final de setembro, não havia nenhuma empresa chinesa em seu portfólio. A partir de então passou a ter a Sea, com exposição individual de 7%, representando o que está por vir dos mercados de tecnologia do sudeste asiático.

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