Mercado Financeiro

O analista de sistemas Marcos Oliveira, 48 anos, aplica a maior parte de seu dinheiro em ações no mercado americano. Ele construiu um caminho próprio: da bolsa local, a B3, aos papeis de empresas dos EUA mais conhecidas e cobiçadas, para então identificar ações globais, de segmentos menos explorados, com mais riscos e potencial de ganhos mais altos.

Após uma experiência malsucedida na Bolsa em 2008, o analista se afastou por uma dúzia de anos do mercado de ações. Mas no ano passado, em plena pandemia, com papéis que se encontravam na bacia das almas, ele enxergou o momento como uma boa oportunidade para retornar às compras. Ficou animado, e a partir daí o trajeto foi curto até chegar ao mercado internacional para se posicionar em ações de grandes corporações internacionais.

Foto: Jaap Arriens/Nur Photo via Getty Images
Crescimento da Amazon é muito maior do que o PIB de vários países - Foto: Amazon/Reprodução

Investir no exterior, assim como Marcos fez, tem sido a estratégia adotada por um número cada vez maior de brasileiros, preocupados com os riscos fiscais, econômicos e políticos, inerentes ao País. A tentativa é a de diversificar a carteira e ancorar o patrimônio em ativos que estejam fora de alcance das crises internas.

O acesso a papeis como Facebook, Amazon, Tesla, entre outros, foi muito facilitado pela tecnologia e novos formatos para aplicações em mercados internacionais, especialmente nos EUA.

Ações mais procuradas

Para o gestor e sócio-fundador da SFA Investimentos, Ciro Aliperti Neto, em cenário global de taxas de juros mais baixas as ações são beneficiadas e, em particular, as de empresas de tecnologia, inovadoras, que têm a capacidades de romper com os modelos tradicionais. São elas que estão chamando mais a atenção dos investidores que querem investir fora do País.

Diferentemente da bolsa brasileira, que é composta fortemente por ações de empresas de commodities, bancos e varejo, as bolsas americanas contam com uma grande participação dos papéis de empresas de tecnologia. Daí esse interesse pelo mercado dos EUA. Aqui, a participação das techs é de cerca de 1%, segundo a estrategista de renda variável da XP, Jennie Li.

Segundo Li, investir no mercado externo possibilita aos investidores brasileiros ter acesso a setores que não existem localmente, como é o caso do mercado de tecnologia. “É difícil ter uma tese de investimento contra essas ações, pois são de grandes companhias dominantes globalmente, com crescimento sólido, e que tem uma atuação disruptiva”.

Segundo Li, investir no mercado externo possibilita aos investidores brasileiros ter acesso a setores que não existem localmente, como é o caso do mercado de tecnologia. “É difícil ter uma tese de investimento contra essas ações, pois são de grandes companhias dominantes globalmente, com crescimento sólido, e que tem uma atuação disruptiva”.

O que é preciso saber para investir bem lá fora

Se está mais fácil para aplicar no exterior, o brasileiro vai gastar mais se a comparação for feita com os custos da Bolsa brasileira, a B3, ressalta o sócio e diretor da Apollo Investimentos, João Guilherme Penteado.

“O brasileiro está em busca de proteger seus ativos dos riscos brasileiros. E por isso acaba apostando em um mercado mais caro, que é o americano, porém que traz mais segurança”, analisa ele.

O lucro em dólar das empresas de tecnologia faz brilhar os olhos dos investidores brasileiros, como é o caso da Amazon. “O faturamento da empresa é maior do que o PIB de muitos países. Mesmo já sendo gigante, ela não para de crescer”, aponta Penteado.

Montadora Tesla
Apesar de controversa, Tesla lidera o ranking das empresas internacionais que mais foram negociadas pelos brasileiros em maio - Foto: Tesla/Divulgação

O estrategista da Constância Investimentos, Gustavo Akamine, chama a atenção para outro aspecto para que as aplicações sejam feitas com maior nível de segurança. É que embora a predileção do brasileiro seja a de investir em gigantes já conhecidas no mercado, quem pretende encontrar outras opções precisa levantar o maior número possível de informações sobre a empresa e o setor em que atua.

“É preciso conhecer a fundo a empresa, entender seu negócio para, a partir daí, participar do seu ciclo de crescimento. Muitas vezes ela não entrega o que o investidor espera”, adverte o estrategista.

Para Penteado, há uma tendência de o brasileiro se sentir mais confortável em investir em empresas que lhe são familiares. “Eles acabam seguindo o conselho de Warren Buffet: seja dono da empresa que produz aquilo que você gosta de usar”.

No entanto, há outras oportunidades no mercado de ações nos Estados Unidos, em empresas de outros setores, "Na verdade, há absolutamente de tudo nas bolsas americanas. Desde pequenas empresas na Nasdaq até gigantes globais de todo tipo. De banco com 200 anos de vida até empresa de produtos de maconha", ressalta o diretor da Apollo.

Segundo Penteado, os investidores devem olhar lá fora para ações de setores que se favorecem da inflação e da alta dos juros. "Elas devem ter um desempenho melhor no médio prazo. No curto prazo, companhias ligadas ao setor da construção civil e varejo estão apresentando números bons".

O diretor destaca que o investidor pessoa física que pretende investir no mercado externo e ampliar seu horizonte precisa ter um direcionamento. “Muitas vezes falta conhecimento para avançar em terrenos onde ele não conhece e isso acaba prejudicando seus investimentos. O brasileiro age muito pelo emocional”.

Em alguns casos, o acesso a papeis de outros setores é feito somente via ETFs (Exchange Traded Funds), os chamados fundos atrelados a índices de referência lá fora, como S&P 500, Nasdaq, entre outros.

As ‘queridinhas’ dos brasileiros

A plataforma Stake fez um levantamento das 10 empresas que foram mais negociadas pelos brasileiros no mercado financeiro internacional em maio. A grande maioria refere-se a empresas do setor de tecnologia – desde carros elétricos, softwares, e-commerce, dispositivos tecnológicos e até mesmo companhia de voos espaciais.

A Tesla foi a companhia mais buscada pelos brasileiros para investir em seus ativos, de acordo com os dados da Stake. Mesmo com a volatilidade de seus papéis, a empresa se mantém no topo de interesse.

O sobe e desce das ações da automotiva em grande parte reflete as atitudes e declarações polêmicas de seu fundador, Elon Musk, nas redes sociais. Uma das mais recentes, sobre bitcoins, chegou a provocar uma desvalorização de 30% nos papeis da companhia na Nasdaq. Vez ou outra, o executivo consegue também arrumar problemas com o mercado chinês.

No meio das eleitas, há também companhias de entretenimento, como a rede americana de cinemas AMC Entertainment, que ocupa o 3º lugar no ranking de buscas.

De acordo com o diretor-executivo de operações da Stake, Paulo Kulikovsky, uma ação mais dinâmica e volátil que se destacou na plataforma no período foi a Virgin Galactic, cujos papéis subiram 30% em maio.  

“Devido aos voos de teste bem-sucedidos, a exibição da viabilidade de executar turismo espacial trouxe muitos investidores interessados na empresa de Richard Branson”, afirma, referindo-se ao dono do Grupo Virgin.

FONTE: STAKE

Muito empenho

Para transitar pelo mercado americano com algum conforto, o analista Marcos Oliveira teve de buscar muita informação em vários canais, sobre empresas e setores, levantar dados confiáveis e se aprofundar no assunto. “Hoje eu abro mão de assistir TV e séries na Netflix para investir meu tempo em aprender cada vez mais sobre o mercado financeiro para ir aumentando o risco das minhas aplicações”.

Para Marcos, investir no mercado externo trouxe mais segurança e rentabilidade para o seu patrimônio, cerca de 60% estão lá fora - Foto: Arquivo Pessoal

Ele conta que conseguiu duplicar o valor investido em empresas americanas na época da última eleição para presidência, mesmo com instabilidade no mercado, tamanha a familiaridade que conseguiu adquirir com as bolsas de Nova York. E a partir desse conhecimento, Oliveira ampliou seus horizontes para investimentos de risco, comprando papéis de empresas do setor de energia renovável e de urânio.

“Há muita oportunidade no mercado financeiro americano que não envolve somente o investimento em ações das companhias globais conhecidas”, aponta Oliveira.

Atualmente, sua carteira está com exposição dividida entre a Bolsa brasileira (40%) e o mercado americano (60%), sendo 40% nas ações de empresas mais conhecidas e 20% alocada em ativos com risco mais elevado. Para os 80% do patrimônio, Oliveira conta com a assessoria de uma corretora. Mas para os 20% no risco, ele investe sozinho.

“Se os investidores fizerem uma pesquisa, é possível encontrar empresas lá fora com crescimento acima de 700 % no último ano. Fora o fato de que a rentabilidade é em dólar”, reforça.

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Repórter do Portal Mais Retorno.

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