Finanças Pessoais

O mercado financeiro chega à reunião do Comitê de Política Monetária (Copom), do Banco Central, nesta quarta-feira, 4, dividido entre uma ala majoritária de analistas que prevê uma alta de um ponto porcentual na taxa básica de juros, a Selic, e uma corrente minoritária que estima uma elevação de 0,75 ponto porcentual.

O grupo minoritário segue alinhado à sinalização dada pelo Banco Central, em comunicado divulgado após a última reunião do Copom, em 16 de junho, quando adiantou novo aumento de 0,75 ponto porcentual no juro básico na reunião do colegiado em agosto.

Rendimento à base de juros vai permanecer negativo, abaixo da inflação

Os sinais de inflação persistente, contudo, formaram uma ala, com número crescente de adeptos nos últimos dias, que passou a apostar em uma elevação maior, de um ponto.

O atual ciclo de ajuste na taxa básica começou em março deste ano, com uma alta de 0,75 ponto porcentual, repetida pelo Copom em outras duas reuniões que se seguiram, em maio e junho. Ajustes que levaram a Selic de 2,00% ao ano para o atual nível de 4,25%.

Pesquisa feita pelo Valor Econômico com 95 instituições financeiras entre 26 de julho e 1º de agosto apontou que 75 casas projetam uma alta de um ponto porcentual e 20 acreditam que o BC persistirá, mais uma vez, no atual ritmo de elevação da Selic.

Dados mais recentes, porém, indicam alterações nesse quadro de expectativas, comenta Mauro Orefice, diretor de Investimentos da BS2 Asset. Segundo ele, 92% dos analistas passaram a ver chances de uma elevação de um ponto e surgiu um grupo formado por restantes 8% que passaram a apostar fichas em uma alta maior, de 1,25 ponto.

Jansen Costa, sócio da Fatorial Investimentos, afirma que o medo de aumento da inflação faz o mercado trabalhar com a possibilidade de 1 ponto. “A curva de juros precifica isso”, reforça. “Mas é possível também que o Banco Central mantenha o ritmo de alta de 0,75 ponto e divulgue  um comunicado ou uma ata mais dura.”

A expectativa do mercado está alta, reforça Orefice, para quem esse possível comunicado mais duro pode antecipar a contratação de um aumento de mais um ponto para a reunião seguinte do Copom.  “O mercado já espera uma alta de um ponto na Selic na próxima reunião, daí a importância de monitorar o comunicado que o Banco Central vai soltar após a decisão do Copom nesta quarta.”

O economista e sócio da BRA, João Beck, também aponta vários motivos que respaldariam uma elevação mais forte da Selic pelo Copom nessa reunião de agosto: recuperação do dólar, aumento de energia elétrica com a revisão de bandeiras, que se encontra na vermelha 2, geadas que afetarão os alimentos com alta de preços, dentre outros.

A elevação da Selic torna as aplicações de renda fixa com juros pós-fixados mais atraentes, avalia Costa, sócio da Fatorial Investimentos. “Produtos atrelados ao CDI ficam mais interessantes para a pessoa física, porque o rendimento aumenta”.

João Beck, sócio da BRA, diz que focar em títulos pós-fixados é o melhor caminho no atual cenário, mas vê também outras opções. “Algumas ações de empresas com boa capacidade de repassar preços podem ser alternativas interessantes para se proteger da inflação.”

Selic mais alta, mas sem proteger o dinheiro

A elevação da Selic aumenta o rendimento nominal de títulos de renda fixa atrelados à taxa básica, mas o desempenho que efetivamente remunera o investidor continua em terreno negativo no curto prazo, ainda sem margem positiva em relação à inflação corrente, que continua rodando acima dos juros.

A inflação pelo IPCA para 2021 projetada por analistas e economistas do mercado financeiro no último boletim Focus está em 6,79%, pouco abaixo da Selic de 7% ao ano estimada para o fim deste ano.

Como o IPCA acumulou variação de 3,77% no primeiro semestre e a taxa Selic está equilibrada em 4,25% ao ano, após três altas consecutivas de 0,75 ponto, a expectativa do mercado é que ocorra uma convergência no segundo semestre e esses indicadores fechem o ano quase empatados.

Nessa mesma toada do processo de ajuste, a Selic daria uma virada em cima da inflação em 2022. A litura de doados do Focus passa a ideia de que o juro básico passaria a correr acima da inflação no ano que vem, quando o mercado estima, pelos dados do Focus, uma inflação de 3,81% e uma Selic estabilizada em 7% de ponta a ponta ao longo de 2022.

Como fica o rendimento das aplicações

Acompanhe na tabela de simulação o desempenho de uma aplicação de R$ 1.000 por um ano em vários ativos de renda fixa, em dois cenários projetados para hoje: um com Selic de 5,00% ao ano, com possível elevação de 0,75 ponto porcentual, e outro de 5,25%, com possível elevação de um ponto porcentual no juro básico.

Os resultados deixam claro que em um cenário ou outro, seja de uma alta de 0,75 ponto porcentual, seja de um ponto na Selic, os resultados líquidos das aplicações, após o desconto de imposto de renda e da inflação do período, ficarão negativos. O valor que o investidor resgatar terá perdido parte do poder de compra, corroído pela inflação.

Até mesmo aplicações isentas de imposto, como as LCIs (Letras de Crédito Imobiliário) e as LCAs (Letras de Crédito do Agronegócio), embora estejam com rendimento nominal ligeiramente superior ao das demais.

Com uma Selic de 5,00% ao ano, quem aplica R$ 1.000 em LCA por um ano com taxa equivalente a 97% da taxa básica (4,85% ao ano) teria um rendimento nominal e também líquido de R$ 48,50, ou saldo total de R$ 1.048,50, após 12 meses, porque a LCA, como a LCI, é isenta de imposto.

Embora não tenha tributação, é preciso descontar ainda a inflação estimada para o período para saber se a remuneração foi suficiente para preservar o poder aquisitivo do dinheiro aplicado.

A inflação projetada para este ano é de 6,79% e o título percorre boa parte de 2022, quando se estima que o IPCA esteja mais comportado – o estimado pelo mercado financeiro para o ano que vem está em 3,81%. Ainda assim, o desconto da inflação do período reduz o valor de resgate, em termos reais, para R$ 977,31, inferior ao capital nominal aplicado.

O prejuízo é maior nas aplicações que recolhem imposto de renda na fonte sobre o rendimento, como CDB, Tesouro Selic e fundos DI.

Uma aplicação de R$ 1.000 em CDB com taxa integral (100% da Selic ou CDI, versão privada do juro básico), renderia 5% ao ano ou R$ 50 bruto após 12 meses. Descontado o imposto, daria um rendimento líquido de R$ 38,75, que, somado ao valor aplicado, daria R$ 1.038,75. O desconto da inflação do período achata o valor de resgate, em termos reais, para R$ 968,22. Indicação de que, mesmo com 100% da taxa CDI, a rentabilidade não foi suficiente sequer para proteger o poder aquisitivo do capital contra a inflação do período de aplicação.

Um cenário de Selic mais alta, de 5,25% ao ano, também não turbina suficientemente o rendimento de aplicações referenciadas na Selic em relação à inflação, corrente e projetada para o período.

Quem aplica em uma LCA por 12 meses com taxa equivalente a 97% da Selic de 5,25% (5,09% ao ano) terá, ao fim de 12 meses, um rendimento de R$ 50,93. Por não ter tributação, é um ganho líquido que será somado diretamente ao valor aplicado, o que dá um saldo de R$ 1.050,93. O valor para resgate, em termos reais, estará reduzido a R$ 979,57, após o desconto da inflação acumulada no período.

O investidor que se amarrar a um CDB de um ano que pague a Selic integral de 5,25% ao ano obterá ao cabo de 12 meses um rendimento líquido de R$ 40,69, depois de descontado o imposto. Somado ao capital aplicado, o valor de resgate será de R$ 1.040,69. Um saldo que em termos reais, do ponto de vista de poder de compra, terá sido achatado para R$ 970,02, pela inflação acumulada no período da aplicação.

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Colaborador do Portal Mais Retorno.

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