Economia

No dia 25 de fevereiro, o retorno (yield, em inglês) dos títulos de 10 anos do Tesouro norte-americano (principal referência para se avaliar a atratividade de um investimento) ultrapassou 1,6% ao ano. 

Por que essa informação é tão importante, impactando desde grandes fundos internacionais até quem tenta ganhar a vida com day trade?

Walmart é termômetro do comércio nos Estados Unidos
Pacote de estímulos turbinaram o consumo nos Estados Unidos - Foto: Divulgação

Apesar de baixa para os padrões históricos (uma média de 3,5% ao ano há uma década atrás), ela diz muito sobre o que não sabemos. 

Como indicador de confiança que é, nada mais natural que suba quando existe uma expectativa de recuperação econômica à frente.  O problema é quando essa taxa se eleva por receio de descontrole inflacionário.

Esse temor não é sem fundamento quando se leva em conta a infinidade de demandas individuais frustradas desde o início da pandemia. 

Recursos para atende-las não faltam: parte deixou de ser gasta por pura falta de opções e parte foi suplementada pelos programas de auxílio.

Não tão seguro

O que se espera agora?  Muitos agentes econômicos acreditam que todo esse consumo represado levará a um aumento dos juros nos EUA em um prazo de 2 anos, contrariando o que o Federal Reserve (Fed) tem indicado até o momento.  Além disso, esses mesmos agentes estimam um grau de elevação maior.

Não por outro motivo, os recentes leilões do Tesouro norte-americano foram um desastre, exibindo uma total ausência de apetite por risco. 

Se existe tanta volatilidade no mercado secundário, por que alguma instituição financeira iria acrescentar mais papéis à sua carteira? Isso inevitavelmente reduz a liquidez no mercado de títulos mais seguro do mundo. 

Isso quer dizer que, se alguém precisa se desfazer deles, a contraparte apenas os aceitará mediante um grande desconto, o que deteriora as condições financeiras de toda a cadeia de crédito, afetando o custo para os tomadores (governos e empresas) e as oportunidades para os investidores.

Normalmente, as autoridades monetárias (bancos centrais) interveem quando enxergam excessos.  O segredo é não causar um problema maior do que aquele que está sendo endereçado. 

Nas condições atuais, ao se manter taxas extremamente baixas, inflaciona-se todos os tipos de ativos, propiciando a formação de bolhas, dado que são avaliados por um custo de oportunidade que sequer existe hoje.

Dinheiro de helicóptero

Se os estímulos foram considerados tímidos durante a crise de 2008, a verdade é que desta vez está se jogando dinheiro de não apenas um, mas de vários helicópteros ao mesmo tempo (o pacote de estímulos de Joe Biden, aprovado recentemente, é mais um deles). 

Ao longo de um ano, estima-se que os norte-americanos tenham acumulado US$ 1,6 tri, valor que se somará aos US$ 1.400 que cada um receberá na nova rodada de auxílio. 

Trata-se de uma montanha de dinheiro pronta para ser gasta, como os próprios indicadores de varejo de janeiro confirmaram (crescimento de 7,4% na comparação anual). Quando os EUA consomem nessa magnitude, o comércio internacional agradece. 

A dúvida agora é em relação ao futuro:  esse padrão de consumo se manterá ou as pessoas guardarão parte de suas reservas, se antecipando a um aumento de impostos, como o que está sendo cogitado para os programas de infraestrutura?

A pergunta não é trivial.  Estimativas feitas tanto por grandes bancos internacionais como pela Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE) indicam qualquer coisa entre uma recuperação econômica aos níveis do pré-pandemia e um crescimento de 6,2% do PIB mundial. 

Essa discrepância nos números se deve ao fato de os economistas não saberem qual a percepção das pessoas em relação ao que acumularam (renda versus riqueza), dado que muitos receberam benefícios em valor superior aos seus salários.

Alguns estudos trazem dados interessantes.  De acordo com eles, as pessoas tendem a gastar mais quando existe um aumento da renda (um salário maior, por exemplo) do que quando existe um aumento de riqueza (como no caso da valorização de uma carteira de investimentos).

Ainda assim, existe o risco de a economia norte-americana crescer demais e, se os EUA sobem os juros, o resto do mundo se ajusta, elevando as suas taxas também. 

Tudo por conta do modus operandi dos seguintes personagens.

Bancos centrais

Apesar dos apelos para que incorporem novos objetivos (clima e desigualdade), a verdade é que todo banco central (excluindo-se o Fed, conduzido por um mandato duplo) possui como meta a estabilidade de preços. 

Esse foco surgiu após o período inflacionário que caracterizou as décadas de 60 e 70. 

Ao lhes delegar essa função, esperava-se isolar a política monetária da interferência de governos que visavam se perpetuar no poder. 

Esse arranjo funcionou muito bem ao longo do tempo, fazendo dos bancos centrais os grandes protagonistas da recuperação econômica após a crise de 2008. 

Vistos como mais competentes e autônomos, agiram de forma mais incisiva.  Porém, seus instrumentos (calibragem dos juros e programas de compra de títulos) já operavam perto do limite no início de 2020, como os próprios altos preços dos ativos demonstravam.

Com a chegada da pandemia, houve uma necessidade de coordenação entre a política fiscal, definida pelos governos, e a política monetária, de alçada dos bancos centrais. 

Todavia, isso não quer dizer que não possam reassumir a sua principal função e definir a taxa básica de juros da economia.

Conclusão

O mercado financeiro internacional gira em torno do mercado secundário de títulos do Tesouro dos EUA. 

Refletindo expectativas dos diversos agentes que participam dele, sofre oscilações conforme o desempenho da economia norte-americana.

Quanto maior o consumo por lá, maior a pressão para que o Fed eleve os juros, ainda que ele não reconheça essa possibilidade agora, dadas as dúvidas que pairam no ar. 

As pessoas voltarão a consumir mais, menos ou na mesma proporção?  Além disso, havendo uma ameaça inflacionária, quanto tempo deve-se esperar e com que intensidade o juro deve subir? 

Isso não só impacta a retomada da economia mundial, conforme os EUA importam mais bens e serviços.

Afeta também países, que podem enfrentar desvalorização cambial, que se reflete na inflação local, empresas, que veem os seus custos de captação aumentarem, e investidores, que observam uma reavaliação (para baixo) no valor dos ativos de suas carteiras em função do aumento do risco, inclusive naquelas abarrotadas de ações disputadas como Amazon e Tesla.

Por fim, vale lembrar-se da frase de John Connolly, Secretário do Tesouro dos EUA em 1971, ano em que o acordo de Bretton Woods foi abandonado:

“O dólar é a nossa moeda, mas o problema é seu.”

*Este texto não reflete a opinião do Mais Retorno.

Imagem do autor

Possui MBA em Finanças e LLM em Direito do Mercado Financeiro (ambos pelo Insper/SP). É gestora de uma carteira proprietária, além de ser responsável por um Family Office.

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