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Renda Fixa

Com perspectiva de fim do ciclo de alta da Selic, o que é melhor, títulos pré ou pós-fixados, curtos ou longos?

Tesouro IPCA protege contra a inflação, mas os de longo prazo ficam expostos a muita volatilidade

Data de publicação:28/06/2022 às 05:00 -
Atualizado um mês atrás
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O Tesouro Prefixado ofertado na plataforma do Tesouro Direto está oferecendo um juro prefixado em torno de 12,60% a 12,70% ao ano. Uma taxa que parte dos analistas considera atraente em cenário que estaria caminhando para o fim do ciclo de alta da Selic. Mas diante dessa perspectiva, títulos pré ou pós-fixados são os mais indicados?

A estimativa de uma ala do mercado é que a taxa básica, de 13,25% no momento, passe por mais dois ajustes e feche 2022 em 13,75%.

pré ou pós-fixados
O cenário para os prefixados é ainda de cautela pela perspectiva de nova alta da Selic - Foto: Reprodução

A taxa oferecida pelo Tesouro Prefixado está abaixo da projeção da Selic, apontam especialistas. Não apenas isso. “O cenário para o pré é ainda de cautela, dada a perspectiva de elevação da Selic e de um núcleo de IPCA pressionado”, diz Bruna Centeno, economista e especialista em renda fixa da Blue3. “E temos ainda uma eleição pela frente”, lembra.

Prefixado pode ser interessante no longo prazo

Riscos à parte, pode ser interessante travar a taxa nesse patamar para quem tem a possibilidade de ficar com o papel por mais tempo, afirma Evandro Buccini, sócio e diretor de renda fixa e multimercado da Rio Bravo. Uma estratégia que leva em conta um período ainda de inflação pouco mais alta, mas com perspectiva de queda à frente. “Depende de quanto tempo o investidor vai travar a taxa”, reforça Bruna, da Blue3.

O superintendente de produtos da Western Asset, Mauricio Lima, destaca que, em títulos prefixados, é preciso analisar separadamente os papeis mais curtos e os mais longos. “Estão sujeitos a riscos diferentes de acordo com os prazos de vencimento.”

Por causa da resiliência da inflação, prevê, o Banco Central (BC) deve começar a cortar a Selic apenas a partir do fim de 2023. “Nesse cenário, os prefixados mais curtos tendem a não se beneficiar desse movimento, do ciclo de redução dos juros”, acredita.

Em suas projeções, os títulos prefixados só devem começar a beneficiar-se do corte da Selic a partir de 2025. Lima diz que prefere os papeis de vencimentos intermediários para os mais longos, mas alerta que, “quanto maior o prazo, mais elevado também é o risco”.

O mesmo raciocínio cabe para os títulos indexados à inflação, como o Tesouro IPCA. No horizonte mais próximo, os juros de ativos de curto prazo são menores, enquanto os de longo prazo têm prêmios maiores.

O Tesouro IPCA com vencimento em 2026 remunerou nesta segunda-feira, 27, com juro de 5,52% ao ano mais correção monetária pelo IPCA. “Um juro maior que o centro da inflação de 3,50% definido para 2022”, diz Bruna, da Blue3. Meta que o BC mira ao calibrar a Selic.

Ganho de capital, um dos atrativos

A economista afirma que, se o ciclo de elevação da Selic for bem-sucedido e trouxer a inflação para a meta, haverá uma redução dos riscos e alta dos prêmios dos papeis no mercado secundário.

“Em um ambiente de maior segurança e previsibilidade, o investidor poderá aproveitar as janelas de saída, vender o papel valorizado e realocar os recursos em outras opções.”

É uma oportunidade de ganho de ponta a ponta, define a economista e especialista em renda fixa da Blue3. “O investidor pode ganhar travando um dos maiores prêmios do mercado, surfa em todo esse período de alta dos juros e ganha na outra ponta, que é a saída aproveitando essa janela de venda antecipada do título valorizado, com ágio.”

A chance de ganho de capital aparece quando, na esteira da inflação em queda, os juros de mercado e de novas emissões caem abaixo das taxas embutidas em títulos que o investidor já carrega em carteira.

Uma oportunidade que o investidor pode aproveitar para vender o papel pelo caminho, no mercado secundário, ambiente onde esses títulos trocam de mão. Com duplo ganho: com o rendimento e o papel valorizado.

Outra opção é levar o título até o prazo final de vencimento. Nesse caso, recebe o capital aplicado mais a rentabilidade prevista no momento da compra do papel. 

Como ficam os pós-fixados

Bruna comenta que a venda no meio do caminho, nessas condições, é mais comum nos títulos de inflação e nos pós-fixados indexados ao CDI. “Os ativos prefixados precisam de um horizonte de tempo maior para chegar a uma oportunidade dessas”, analisa. O motivo, segundo ela, é que “a Selic deve permanecer em dois dígitos em um período de aproximadamente um ano e meio”, prevê.

A possibilidade de embolsar um ganho de capital, além de rentabilidade, é um dos atrativos do Tesouro IPCA, sobretudo os de prazo médio e longos.

Especialistas recomendam esse título também como proteção contra a inflação. Lima, superintendente de produtos da Western Asset, afirma que, nessa função, os títulos mais curtos podem ser mais interessantes. “São títulos que respondem mais diretamente a pressões inflacionárias, incluindo as expectativas”, avalia. “Surpresas inflacionárias já estão refletidas neles, é preciso mais pressões para que os preços mudem.”

“O Tesouro IPCA protege contra a inflação, mas os títulos de prazo muito longo estão sujeitos a uma volatilidade muito alta”, o que aumenta o risco do investimento, destaca Buccini, da Rio Bravo.

Ricardo Jorge, especialista em renda fixa e sócio da Quantzed, empresa de tecnologia e educação para investidores, diz que títulos de inflação de vencimentos muito longos não são os mais indicados para o investidor pessoa física. “É melhor aplicar por períodos curtos.”

A menos que tenha um planejamento financeiro, com reserva de dinheiro que atenda às necessidades de emergência. “Se estiver em uma aplicação longa e precisar vender o título em um momento que o mercado estiver contra, poderá ter prejuízo.”

Sobre o autor
Tom Morooka
Colaborador do Portal Mais Retorno.