Economia

Depois da arrancada da Selic para 7,75%, até quando deve durar o ciclo de aperto monetário? Confira as projeções

Especialistas consideram que a trajetória de alta da taxa Selic deve continuar até meados de 2022, ano em que haverá as eleições

Data de publicação:28/10/2021 às 03:01 - Atualizado um mês atrás
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Como já era esperado pela maioria dos analistas e investidores, o Comitê de Política Monetária (Copom) do Banco Central (BC), elevou a Selic em 1,5 ponto percentual, levando a taxa básica de juro de 6,25% para 7,75% ao ano. Esse é o maior nível para a taxa desde outubro de 2017, quando o colegiado reduziu a Selic de 8,25% para 7,50% ao ano. Mas até quando e quanto os juros vão subir?

O mercado já conta com um ciclo de alta dos juros e aperto monetário, previsto inicialmente para terminar em fevereiro de 2022, mais prolongado, tendo em vista a inflação acelerada e as perspectivas de aumento do risco fiscal, como as manobras do governo para furar o teto de gastos e, com isso, conseguir pagar o Auxílio Brasil de R$ 400. A questão agora é saber qual a intensidade da alta nos juros e em que espaço de tempo ela vai ocorrer.

Foto: Envato selic juros futuros
Copom eleva a Selic em 1,5 ponto percentual, com a taxa chegando a 7,75% ao ano

Cenário fiscal

Para Alexandre Almeida, economista da CM Capital, o Copom deve aplicar ajustes à Selic dentro da mesmo magnitude em suas próximas reuniões. Até porque no comunicado emitido logo após o encontro desta quarta-feira 27, as autoridades monetárias já sinalizaram um aumento de 1,5 ponto porcentual para a reunião de dezembro, o que elevaria a taxa para 9,25%.

O especialista ressalta que essas "pancadas mais fortes" podem acontecer em decorrência da volatilidade das últimas semanas, provocada pelo cenário fiscal do País que ficou em pauta pelo aumento de gastos do governo e a reformulação do limite do teto.

De acordo com o economista, embora o resultado do IPCA-15 de outubro tenha vindo acima das expectativas do mercado - que esperava uma alta de 1,00%, enquanto o indicador avançou 1,20% -, o avanço mais firme da inflação já estava precificado nas expectativas para a Selic. Há duas semanas, antes mesmos dos episódios do teto de gastos e previsão de novas despesas, o mercado trabalhava com uma alta de 1 ponto percentual para a taxa na reunião de outubro.

No entanto, o anúncio de que o Auxílio Brasil pagará parcelas de, no mínimo, R$ 400 para os beneficiários, e de que é intenção do presidente Bolsonaro pagar um benefício para os caminhoneiros para compensar a alta dos combustíveis além das tentativas do governo para furar o teto de gastos de modo a acomodar todas essas medidas populistas em ano pré-eleitoral, levaram o mercado a uma revisão de projeções para a Selic e a inflação.

A chefe de economia da Rico, Rachel de Sá, comenta que, no comunicado divulgado pelo BC logo após a reunião, o colegiado chamou atenção para a piora da situação fiscal, mas ainda deixou a questão em aberto, sinalizando que as recentes discussões sobre mudanças nas regras fiscais aumentam o risco de "desancoragem" das expectativas de inflação.

"Em bom português, para os diretores do Banco Central, o risco fiscal - que chamavam atenção há bastante tempo - ainda não se concretizou, mas as discussões sobre mudanças nas regras fiscais afetam a perspectiva de agentes na economia sobre onde os preços estrão no futuro - impactando o esforço do controle de preços", diz Rachel.

Selic X Inflação

Além do aumento da dívida do governo, especialistas explicam que o pagamento das parcelas do Auxílio Brasil elevarão a quantidade de dinheiro em circulação na economia, o que resulta em maior pressão inflacionária, sobretudo para os preços dos setores de serviço e varejo. Assim, a missão do BC é, justamente, tentar frear a escalada de preços nos próximos meses, o que justifica a alta nos juros acima do previsto anteriormente.

Almeida destaca, ainda, que há uma defasagem de cerca de seis a nove meses entre a decisão de política monetária e o seu real impacto na economia. Dessa forma, as medidas adotadas pelo BC já miram, há algum tempo, o controle da inflação de 2022 e 2023, tentando trazer o indicador para o mais próximo possível do centro da meta.

O especialista chama a atenção para o fato de a elevação da taxa de juros não ter controle sobre os preços administrados, como é o caso da energia elétrica e dos combustíveis, uma vez que o valor desses serviços é estabelecido por meio de contratos, e não com base na oferta e demanda do mercado.

"O que o Banco Central mais observa em suas decisões é a inflação que está relacionada à atividade econômica, com o que consumimos no dia a dia (como os serviços prestados em restaurantes ou salões de beleza, por exemplo)", comenta Almeida. Ele ressalta que a inflação desse tipo de serviço e produtos, que chegam ao consumidor final, também vive um período de alta com a flexibilização das medidas restritivas pela pandemia de covid-19.

No comunicado do Copom, o BC também destacou sua preocupação com a alta dos preços no Brasil, mesmo desconsiderando o avanço dos serviços mais voláteis, como a própria conta de energia elétrica. Para a chefe de economia da Rico, isso representa "um movimento de alta de preços mais disseminado pela economia".

Perspectivas para a Selic

O economista da CM Capital explica que, apesar dessas espichadas na Selic, em um horizonte do curto prazo para a Selic, o ciclo de aperto monetário deve continuar, ao longo de 2022, com altas menos expressivas. O economista afirma que "o mercado está precificando o aumento da Selic até junho de 2022, com ela próxima do patamar de 12,75%".

Porém, vale lembrar que 2022 é ano eleitoral, o que tende a trazer mais volatilidade para os mercados e pode resultar num alongamento acima do esperado para a curva de juros, pondera Almeida.

Na análise de Étore Sanchez, economista-chefe da Ativa Investimentos, a projeção é de que o BC mantenha a alta de 1,5 ponto percentual para um ciclo de mais três elevações da Selic, somadas a mais uma elevação de 1 ponto percentual e outra de 0,25 ponto percentual, "conduzindo a taxa para 12% em meados de 2022".

Sanchez explica, ainda, que, depois desse ciclo de aperto monetário, ao fim do próximo ano, com o objetivo de "não perder a meta de inflação para baixo, a autoridade deverá iniciar o ciclo de baixa, ao passo de reduções de 50 pontos-base em cada reunião, encerrando 2022 em 11% e conduzindo a Selic a 7,5% no primeiro semestre de 2023".

Em contrapartida, a chefe de economia da Rico projeta um ciclo de alta mais curto e menos intenso. "A decisão do Copom (desta quarta-feira) reforçou nossa visão de Selic terminando esse ano em 9,25%, com mais uma alta de 1,5 ponto percentual, e em 11% em março do ano que vem, onde deve ficar ao menos até as eleições de outubro de 2022", afirma Rachel.

Trajetória da taxa de juros

Para Alexandre Almeida, é interessante começar a analisar a trajetória de taxa de juros entre 2015 e 2016, quando o Brasil passava pela crise política que levou ao impeachment da ex-presidente Dilma Rousseff. Naquele período, a Selic permaneceu por mais de um ano (de julho de 2015 a setembro de 2016) no maior nível registrado nos últimos anos: 14,25%.

"Naquela época, a inflação atingiu um de seus maiores patamares. Durante 11 meses, o IPCA acumulado ficou acima dos 9%, sendo que em quatro destes meses, o indicador ultrapassou os dois dígitos", explica o economista. A Selic teve de superar a inflação de modo a conter a alta dos preços.

De fato, os impactos do ciclo de aperto monetário durante os dois anos pôde ser constatado diretamente na queda dos números da inflação nos anos seguintes. No cumulado de 12 meses, o IPCA registrado em 2015 foi 10,67%, caindo para 6,26% em 2016 e 2,95% em 2017, de acordo com dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE).

Finalizado o processo que desacelerou a inflação, o Banco Central, ao longo dos três anos seguintes (2017, 2018 e 2019), passou a reduzir, "em doses homeopáticas", a Selic, como um mecanismo de incentivo à economia, explica Almeida.

O economista comenta que o fim do ciclo de expansão monetária, com a baixa da taxa de juros, foi no começo de 2020. Em fevereiro, antes do estouro de casos de coronavírus no País, a taxa de juros estava em 4,25% ao ano.

No entanto, com o avanço da pandemia, o recuo da Selic teve de ser impulsionado como forma de estimular a economia em um momento de depressão inflacionária ocasionada pela adoção de medidas de isolamento social no Brasil e no mundo. A baixa nas taxas de juros, ressalta Almeida, foi um processo implementado por bancos centrais em todo o mundo.

Com a retomada econômica dos países, após o período mais duro da pandemia, a demanda por diversos bens e serviços disparou, enquanto a oferta ainda não foi completamente normalizada por problemas nas cadeias produtivas. Nesse contexto, a escalada dos preços é um fenômeno global e, principalmente em países emergentes como o Brasil, que não são a primeira opção de investimento dos investidores. O remédio amargo que vem sendo adotado para conter os preços é o novo ciclo de alta nos juros.

Almeida considera que o cenário atual se assemelha bastante ao que vivemos em 2015. Porém, o economista destaca que "ainda há uma expectativa muito forte de como o Banco Central vai se posicionar em relação ao futuro da condução da política monetária no País".

Sobre o autor
Bruna Miato
Bruna MiatoRepórter na Mais Retorno