Mercado Financeiro

As empresas de tecnologia dominaram os mercados em 2020. Suas ações se valorizaram de forma vertiginosa, disseminando o raciocínio de que basta ter a tecnologia (smartphone e app) para se investir em tecnologia.

Seria tão fácil assim ganhar muito dinheiro? O objetivo desse artigo é mostrar que não é bem assim.

A política

Usando a eleição norte-americana como exemplo, ela por si só gera bastante volatilidade nos mercados, tanto lá como aqui.

Nesse caso, trata-se de uma disputa presidencial bastante acirrada, podendo inclusive ser contestada por um dos candidatos, o que traria ainda mais incertezas em um ano já bastante difícil.

Além disso, a escolha dos novos membros das duas casas legislativas pode definir a facilidade e a rapidez na aprovação de determinadas pautas, visto que existe a chance de um único partido vencer na Câmara, no Senado e na Casa Branca.

Havendo uma vitória do partido democrata, eis o que pode afetar o mercado acionário dos EUA: o aumento dos impostos para as empresas, elevando inclusive o que pagam sobre os seus lucros no exterior. Maior fonte de receita da proposta de Biden, é dessa forma que ele pretende financiar:

Partindo desse ponto, como as carteiras de investimentos seriam ajustadas? Primeiramente, haveria uma mudança setorial, onde as ações das empresas beneficiadas com subsídios para energias limpas, por exemplo, seriam compradas com a venda das ações daquelas sujeitas a regulamentações mais rigorosas (petroleiras) ou com grandes operações no exterior (tecnologia).

ETFs

Essa mudança não se refletiria de imediato nos principais Exchange Traded Funds (ETFs) negociados diariamente, visto que só são atualizados de tempos em tempos, de acordo com os parâmetros definidos pelas próprias bolsas de valores.

Dito de outra forma, esses ETFs primeiro perderiam dinheiro, ficando em desvantagem quando comparados com os fundos de gestão ativa, que identificam essas mudanças rapidamente e capturam as ações das empresas com os preços mais desalinhados.

Dado o dinamismo do mercado financeiro, a verdade é que estragos dessa natureza podem acontecer em qualquer lugar do mundo, não poupando sequer as monarquias, onde a troca de poder segue uma linha sucessória bem definida e que, pelo menos em tese, deveria evitar surpresas.

Em 2016, a Grã-Bretanha realizou o plebiscito para votar a permanência (ou não) dentro da União Europeia (“Brexit”). Os impactos no mercado inglês, refletindo a decisão pela saída, foram sentidos já no dia seguinte e desde então não se recuperaram. Passados 4 anos, as negociações ainda estão em andamento.

Os millenials e a tecnologia

O que as empresas Hertz e Nikola, uma fabricante de caminhões elétricos, possuem em comum? Ambas caíram no gosto e nas ordens de compra e de venda de ações de jovens investidores.

Muito por conta das redes sociais e sem nenhum fundamento, como mostram a falência da primeira e a demonstração do protótipo de segunda, que propositalmente colocou o caminhão elétrico no topo de uma ladeira para que ela facilitasse o seu deslocamento.

Os exemplos não se limitam a um determinado setor como mostra bem o caso da Wirecard, uma empresa de meios de pagamento.

A negligência dos gestores (como também dos agentes de supervisão financeira) andou de mãos dadas com o crescimento acelerado de uma empresa que começou as suas atividades como plataforma de pagamentos para sites de pornografia e jogos de azar.

O resultado não poderia ter sido outro:

Tudo em apenas 3 dias!

Para o investidor leigo, até então, não havia motivos para não investir. Afinal, a empresa fazia parte do índice DAX da Bolsa de Frankfurt, juntamente com outras empresas bastante tradicionais.

Participação

Apesar de negociarem freneticamente, os investidores nascidos a partir da década de 80 possuem pouquíssima representatividade (7%) quando comparados com a geração de seus pais e avós (26% para o segundo grupo, quando tinham a mesma idade, chegando a 50% hoje).

Ao se atentar para os grandes números, percebe-se que a melhor assessoria financeira se concentra nos que ainda vão passar a fortuna adiante e que contaram com algumas circunstâncias únicas:

O “cheque em branco”

Com os bancos digitais ocupando todos os espaços, é surpreendente que esse termo ainda seja usado. Ele se refere às Special Purpose Acquisiton Companies (SPACs), companhias listadas em bolsa com um único objetivo: comprar um negócio já existente.

Encontradas no mercado norte-americano há quase uma década, elas são bastante comuns nos negócios de tecnologia (apenas em 2020, 147 SPACs foram listadas na Nasdaq, somando US$ 56 bilhões). A Nikola, citada anteriormente, é um dos casos onde se utilizou a estrutura de uma SPAC.

Isso tem atraído até quem fez fama ganhando dinheiro de outra forma:  Bill Ackman, CEO da Pershing Square Capital Management, um famoso hedge fund, recentemente levantou US$ 4 bilhões para criar a sua própria SPAC.

SPAC

Ela funciona da seguinte forma: alguém ou algum grupo com expertise (“sponsor”) se associa a um agente financeiro para levantar recursos junto a investidores, sem que haja um ativo definido para aquisição. Assim, serve como uma alternativa ao IPO, que envolve custos e deixa nas mãos de banqueiros de investimentos as condições da oferta (rateio entre os vários grupos de investidores e preço).

Possui também uma outra finalidade que é eliminar os excessos de alguns fundos de tecnologia. Contando com gigantescos aportes de fundos soberanos para acelerar o crescimento e, ao mesmo tempo, promover sinergias entre as investidas, eles foram incapazes de evitar a “inflação de preços” na avaliação das empresas como também impor um mínimo de governança entre os empreendedores.

Uma vez listada, a SPAC mantém os recursos captados em uma conta fiduciária (“escrow”) por até 2 anos, prazo para que uma empresa de porte seja adquirida e se torne uma companhia de capital aberto. Ao final do processo, os investidores que aportaram os recursos se tornam acionistas, podendo então vender as suas ações no mercado.

Percebe-se que, por conta desses arranjos financeiros, os interessados nas startups queridinhas acabam pagando um “ágio” para investir, visto que as suas ações são detidas por um grupo bastante restrito.

No caso do Brasil especificamente, apesar da preferência pelos negócios intensivos em tecnologia, as SPACs também atendem a outro setor bastante dinâmico, o de fusões e aquisições, inevitavelmente atraindo investidores com bolsos mais fundos.

Conclusão

A tecnologia se tornou parte fundamental de nossas vidas, seja com ou sem pandemia. Isso não quer dizer que ela resolve tudo, inclusive a vida financeira.

Fazer uma boa gestão de uma carteira de investimentos exige algumas qualidades como se preparar para o desconhecido, evitar o “efeito manada” e estar aberto ao novo.

Por mais barato e simples que seja um ETF, ele pouco traz em termos de benefícios quando novas diretrizes entram nas engrenagens da economia. As empresas, no final das contas, ou se adaptam ou morrem, independentemente de quanto são admiradas ou do tamanho de seu valor de mercado.

Negociar de graça não resolve a lista de problemas mais comuns dos novos investidores: a pouca experiência sobre o mundo empresarial, a assimetria de informação (identificar o que é “fake news”), sem falar na falta de recursos.

Isso os impede de entrar nos negócios mais promissores. Apesar do mercado financeiro usar alguns termos ultrapassados (“cheque em branco”), trata-se de um dos setores mais dinâmicos do mundo. Entender essas inovações e os seus respectivos impactos em um portfólio de ativos exige um mínimo de conhecimento e de vivência.

Para quem ainda não chegou lá, o ideal é procurar por determinadas características que uma companhia deveria ter e, a partir delas, buscar as empresas que as possuem entre os diversos setores da economia:

“Estou sempre preparado para fazer a coisa certa, independentemente do que os outros pensam.”

Bill Ackman
Imagem do autor

Possui MBA em Finanças e LLM em Direito do Mercado Financeiro (ambos pelo Insper/SP). É gestora de uma carteira proprietária, além de ser responsável por um Family Office.

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