Economia

Em reunião na última quarta-feira, 4, o Comitê de Política Monetária (Copom) elevou a Selic, taxa básica de juros brasileira, em um ponto percentual, chegando a 5,25% ao ano. Para o mercado, entretanto, mais significativo do que a elevação em si foi o tom mais firme adotado pelo Banco Central. No comunicado divulgado logo após o fim da reunião, a instituição afirmou que está previsto um aumento semelhante para o próximo encontro do Copom, em setembro.

Agora, especialistas de diferentes casas do mercado financeiro consideram que, até o fim de 2021, a Selic deverá ficar em, pelo menos, 7%, podendo ultrapassar essa marca. Esse patamar está acima do nível neutro, de 6,5%, e é influenciado pelo viés altista da inflação neste semestre.

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Banco Central adota postura mais dura e firme em último comunicado do Copom

Inflação bem acima da meta

As perspectivas para a IPCA, indicador que mede a inflação oficial do País, há muito já ultrapassaram o teto da meta estabelecido pelo BC, de 5,25%. E para piorar, adversidades como o frio mais intenso devem contribuir para um cenário com uma pressão inflacionária cada vez maior até o fim do ano.

É consenso entre os especialistas que as últimas projeções mais altas para o IPCA foram influenciadas, principalmente, pelos efeitos das condições climáticas adversas no curto prazo. Para além do aumento no preço da energia ocasionado pela crise hídrica que atinge o Brasil, as geadas do mês de julho - e que ainda podem se estender até o fim do inverno - prejudicaram o plantio e colheita de algumas culturas, elevando o preço dos alimentos.

Camila Abdelmalack trabalha com uma estimativa de 7% para a inflação em 2021 e de 4% para 2022. Na conta da economista-chefe da Veedha Investimentos entram, também, os potenciais aumentos de preço decorrentes da retomada econômica, com uma maior demanda pelo setor de serviços.

"Até então, acompanhamos uma pressão localizada nos preços administrados e nos bens industrializados. Agora, começamos a ver uma retomada no setor de serviços que vai bater nos preços livres junto com a questão climática, por isso uma inflação mais forte para 2021", explica Camila.

Já para o economista do BTG Pactual Digital, Álvaro Frasson, o IPCA até dezembro deve estar na faixa de 7,2% ao ano. Em sua análise, também aparecem as questões climáticas e ambientais influenciando nos preços de energia e alimentação. "Todas as direções impõem uma inflação altista", afirma.

No entanto, para 2022 a perspectiva é de uma trajetória benigna do índice com a normalização da produção e as expectativas de retomada econômica. Assim como a economista da Veedha, Frasson estima uma inflação de 4% ao ano para 2022. Acima da meta de 3,5% do Banco Central, mas com uma visão futura mais otimista.

Selic acima do patamar neutro

Seguindo a postura mais firme adotada pelos membros do BC, o mercado espera uma taxa de juros acima do patamar neutro - de 6,5% - até o fim do ano.

Victor Beyruti, economista da Guide Investimentos, projeta uma Selic de, pelo menos, 7% ao ano para o final de 2021, mas ressalta o viés altista. Dessa forma, a depender da próxima decisão do Copom, que acontece em setembro, a casa deve elevar suas estimativas para até 7,5%. Beyruti justifica esses números pela crescente pressão inflacionária.

De acordo com a economista-chefe da Veedha, que trabalha com uma perspectiva semelhante para a taxa de juros, também deve estar no radar do BC a pauta fiscal. "Se for só pela inflação, a Selic fica em 7%. O quanto a taxa vai ficar acima desse valor depende do encaminhamento das pautas fiscais, andamento da reforma tributária e questão orçamentária de 2022", considera.

Já para Gustavo Cruz, estrategista da RB Investimentos, o tom do comunicado do Copom sinaliza que a Selic deve ficar num patamar próximo a 7,5%. Ele ressalta que o colegiado já indicou que a taxa de juros vai ficar acima do patamar neutro para controlar a inflação. Essa mensagem, segundo o especialista, mostra que a taxa deve passar com alguma folga dos 6,5% ao ano.

"Durante o ano que vem, esse patamar praticamente se acomoda. A política monetária faz o seu papel e derruba a inflação de 2022 e, no final do ano, depois das eleições, ele (o BC) começa a normalizar e a reduzir um pouco a Selic", diz Cruz.

Alta volatilidade na taxa de câmbio

Diferentemente das expectativas para inflação e taxa de juros, não há um denominador comum a respeito das projeções para a taxa de câmbio até o fim do ano. Essa variedade de análises entre os especialistas reflete, na verdade, a alta volatilidade que o preço do dólar deve enfrentar nos próximos trimestres.

Beyruti, da Guide Investimentos, estima uma cotação entre R$ 5,20 e R$ 5,25 para a moeda americana durante o semestre. O economista aponta que os pontos mais determinantes para a variação cambial são os riscos fiscais no Brasil, as incertezas do ano eleitoral que se aproxima, além das perspectivas de que o Federal Reserve (Fed) anuncie um cronograma para a retirada de estímulos monetários, levando a um aumento na taxa de juros americana.

Para o estrategista da RB Investimentos, no entanto, a taxa de câmbio pode cair a cerca de R$ 4,80 em algum momento do último trimestre. A apreciação do real frente ao dólar pode ocorrer justamente por conta de uma Selic mais elevada, o que atrai o investidor estrangeiro para os títulos de renda fixa. Além disso, o momento de retomada econômica e a relação entre dívida e PIB que caiu ajudam a animar o mercado.

Mas, as questões fiscais e o cenário de pesquisas eleitorais do fim de ano podem penalizar a moeda brasileira e levar o dólar a encerrar 2021 acima de R$ 5. "É difícil dizer qual (a perspectiva do) câmbio final no último pregão porque a volatilidade está cada vez maior nos últimos anos", pondera Gustavo Cruz.

Já para 2022, Álvaro Frasson, do BTG Pactual Digital, não enxerga espaço para uma apreciação do real mais acentuada. Para o economista, a taxa de câmbio do próximo ano deve estar próxima aos valores do segundo semestre de 2021, porém com muito mais volatilidade.

No radar, redução dos estímulos monetários nos Estados Unidos e cenário político instável no Brasil. Por isso, o foco do investidor em 2022 deverá ser a proteção cambial.

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Repórter na Mais Retorno

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