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Economia

Mitos e verdades na economia sobre a guerra da Ucrânia

A invasão da Ucrânia acelerou algumas tendências, como a reversão da globalização

Data de publicação:30/03/2022 às 00:30 -
Atualizado 2 meses atrás
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Uma verdade irrefutável é que a invasão da Ucrânia acelerou algumas tendências.

A primeira delas é a reversão da globalização. A formação de blocos econômicos é uma realidade desde que Donald Trump passou a usar tarifas sobre o comércio internacional como instrumento de política externa.

Atualmente, ninguém quer depender de governos que não compartilham da mesma visão. Como resultado, um mundo mais dividido e que cresce menos, o que vale inclusive para a China.

Ucrânia
A guerra na Ucrânia acelerou algumas tendências, dentre elas a reversão da globalização - Foto: Envato

É fato que os países se reorganizarão para garantir o abastecimento energético, tecnológico e de suprimentos, o que definirá a composição de suas respectivas reservas internacionais.

De um modo geral, pode-se dizer que as nações as formam com base nas suas relações de comércio ou nas suas relações geopolíticas. Com a aplicação de sanções, o foco passou a ser a garantia da soberania.

Moedas digitais

Um dos mitos é a perda do status do dólar como moeda de reserva. Por mais que se alegue que esse sistema é imperfeito por beneficiar demasiadamente os EUA, é preciso entender a dinâmica das negociações internacionais.

Ainda que a China possua a sua moeda digital, o seu sistema de pagamentos (CIPS) e a sua própria rede para processar operações com cartões, apenas 3,2% das transações entre fronteiras são feitas em yuans.

Há nove anos, a China se lançou na Belt and Road Initiative (nova “Rota da Seda”), financiando grandes projetos de infraestrutura em um mundo onde:

• 39,92% dos pagamentos internacionais são feitos em dólares;
• 36,56% dos pagamentos internacionais são feitos em euros.

Por países cujas reservas são:

• 59,15% em dólares;
• 20,48% em euros.

A Olimpíada de Inverno, um espetáculo à parte, funcionou como palco para o lançamento do yuan digital, com ambições de equiparar a moeda à representatividade da China no comércio global.
Entretanto, para que haja uma maior aceitação internacional, o trade-off é abandonar o controle de capitais, uma decisão política que ficará a cargo de Xi Jinping, levando-se em conta o próximo ponto.

Transição energética

No curto prazo, alguns fatores serão determinantes para o mercado de commodities energéticas.
Dadas as restrições impostas à Rússia, o incremento na oferta de petróleo dependerá de uma resposta da OPEP, do setor de exploração de xisto dos EUA ou da política de tolerância zero da China em relação à covid-19.

Por parte do cartel, Arábia Saudita e Emirados Árabes Unidos poderiam compensar pelo desequilíbrio. Já pelo lado dos EUA, o aumento dos juros e a pauta ESG inviabiliza os custos de financiamento de uma atividade que, em outras circunstâncias, se beneficiaria enormemente da flexibilidade de produção.

O fato de a China ainda estar impondo lockdowns retira do mercado global de petróleo uma demanda equivalente à produção da Venezuela, mas é um tanto ingênuo imaginar que um acordo assinado pela União Europeia para garantir o GNL suprido pelos EUA eliminará totalmente a dependência de governos autocráticos como o comandado pelo Kremlin.

Considerando as metas impostas para se endereçar o aquecimento global, 70% da geração de energia deverá ser provida por fontes renováveis em um período não superior a três décadas, multiplicando exponencialmente a demanda por cobalto, cobre e níquel.

Concentração geográfica

Tal como no caso do petróleo e do gás, as reservas desses metais estão geograficamente concentradas, o que traz novos dilemas globais.

Quando o petróleo e, em menor grau, o gás passaram a substituir o carvão nos países do G7, sua proporção na matriz energética também seguiu o mesmo padrão, passando de 26% para algo em torno de 70%.

Não por outro motivo, o enriquecimento dos chamados “petroestados”, muitos dos quais localizados no Oriente Médio. A título de comparação, durante a década de 1970 (época que contou com dois choques do petróleo), o PIB per capita do Qatar cresceu 12%. Onde antes só havia deserto, hoje existem grandes centros urbanos.

Mesmo com a transição energética, é mito a ideia de um mundo livre de combustíveis fósseis. Haveria então o delicado equilíbrio geopolítico entre dois grupos:

  1. Produtores de baixo custo, com o agravante de que aumentariam o seu market share para 57%.
  2. Os países em ascensão, com potencial de se transformarem em “eletroestados”.

Maldição verde

Com a emergência climática, atender nas quantidades desejadas é um dos grandes desafios. Novas minas levam mais de uma década para se tornarem operacionais e, desde o fim do superciclo de commodities liderado pela China, as empresas deixaram de investir.

Isso quer dizer que as mineradoras podem se deparar com dois cenários:

1. Minas cujas reservas são de qualidade inferior, o que aumentaria os seus custos de produção;

2. Minas em economias instáveis, cujos problemas tendem a piorar conforme se tornam mais dependentes de uma única commodity (“commodity curse”).

A história recente está repleta de casos de países que sepultaram seus setores exportadores conforme suas moedas se apreciaram (“doença holandesa”) ou que se alavancaram excessivamente durante a bonança.

Conclusão

Com as reservas do banco central da Rússia congeladas, discute-se a substituição do sistema baseado na moeda dos EUA e nos títulos norte-americanos por outro baseado em commodities (e não criptomoedas de emissão privada), no qual ativos reais serviriam como lastro.

Levando-se em conta o setor energético, a geopolítica se realinhará em função dos acordos de comércio a serem firmados para o acesso a determinados metais, substituindo em parte (e não totalmente) o fluxo de petrodólares vigente.

Do lado das economias democráticas, a Austrália é um dos países a se destacar, juntamente com o Chile, com grandes reservas de lítio e cobre no deserto do Atacama. Do lado oposto, o Congo, com quase metade das reservas globais de cobalto e a China, com reservas de alumínio, cobre e lítio.

O cenário para o crescimento global, após dois anos de pandemia, não poderia ser mais sombrio. Com preços de energia e alimentos mais altos, muitos países reduzirão substancialmente as suas relações com o exterior, o que, juntamente com os juros mais altos no mundo, colocarão em risco qualquer retomada mais consistente.

A decisão por não se financiar a guerra de Putin está dada. Resta saber como financiar a economia do futuro, gerando novas oportunidades, sem repetir os mesmos erros.

*Este artigo não reproduz necessariamente a opinião do portal Mais Retorno.

Sobre o autor
Nohad Harati
Possui MBA em Finanças e LLM em Direito do Mercado Financeiro (ambos pelo Insper/SP). É gestora de uma carteira proprietária, além de ser responsável por um Family Office.