Mercado Financeiro

Especialistas não descartam a possibilidade de uma correção dos mercados nesta quarta-feira, 29, após a forte turbulência que derrubou a bolsa de valores e deu suporte a nova valorização do dólar. Hoje, no entanto, as atenções se voltam para a divulgação do IGP-M de setembro.

Um sentimento de pessimismo no mercado internacional, relacionado ao temor de uma crise energética global e à alta dos juros americanos, ajudou a azedar o humor também dos investidores domésticos.

Foto: Envato mercado
Mercado estará de olho na divulgação do IGP-M nesta quarta-feira - Foto: Envato

A Bolsa de Valores de São Paulo, a B3, recuou 3,05%, para 110.123 pontos, a maior baixa no mês após a queda de 3,78%, em 8 de setembro, após os ataques do presidente Bolsonaro às instituições nas manifestações de 7 de setembro. O dólar subiu 0,85%, para R$ 5,42, cotação mais alta desde a de R$ 5,43, de 4 de maio, portanto em quase cinco meses.

A desvalorização de ontem ampliou a perda acumulada pela B3 no mês para 7,29% e no ano, para 7,47%. O dólar acumula valorização de 4.88% em setembro e de 4,54% no ano.

A dois dias para o encerramento do mês, esses desempenhos põem o dólar como provável campeão do ranking de setembro e o a bolsa de valores como o pior investimento do mês.

Programa de estímulos do Fed

O mercado doméstico sentiu os efeitos não propriamente da queda das bolsas americanas, mas dos fatores que estiveram por trás das perdas dos principais índices de ações dos Estados Unidos, Dow Jones, S&P 500 e Nasdaq, com quedas entre 1,6% e 1,9%.

Um sentimento misto de que que o Fed (Federal Reserve, o banco central americano) pode antecipar a alta dos juros ou alterar o programa de estímulos monetários com a redução de recompra de títulos levou a uma elevação dos rendimentos dos papeis do Tesouro americano de dez anos. A taxa de remuneração dos treasuries, referência global dos juros de longo prazo, passou da linha de 1,50%, para 1,58% ao ano.

O mercado financeiro doméstico repercutiu negativamente ainda as preocupações com o temor de uma crise energética mundial. A arrancada dos preços do gás natural na Europa, em momento de consumo em alta, agravou o temor de que o custo de energia seja um desafio para a retomada de atividade econômica global.

Clima interno

O ambiente interno também teve componente de estresse, como a declaração do presidente da Câmara, Arthur Lira, de que deputados procurarão opções que evitem novos reajustes nos preços de combustíveis e de gás de cozinha. 

Manifestações como essas são vistas por investidores e gestores de mercado como aceno em direção a medidas populistas, embora o presidente da Petrobras, Joaquim Silva e Luna, tenha reiterado no dia anterior a política de preços. Ontem mesmo a estatal reajustou 8,90%, de R$ 2,81 para R$ 3,06, o preço do litro do diesel nas refinarias.

Divulgação do IGP-M

Os desdobramentos dos eventos que impactaram o mercado ontem dividirão a atenção de investidores e gestores nesta quarta-feira com a divulgação do Índice Geral de Preços do Mercado (IGP-M) de setembro, que a Fundação Getúlio Vargas (FGV) divulga logo pela manhã. É um índice que dá ideia de como está a evolução de preços no atacado, principalmente diante da aceleração das cotações do dólar.

Reformas

As reformas seguem na pauta nos investidores, mas sem grandes avanços no cenário político, o que reforça o sentimento de apreensão do mercado.

Na véspera, o senador Roberto Rocha, relator da Proposta de Emenda à Constituição (PEC) 110/2019, que trata da reforma do sistema tributário, afirmou que não pretende “se enganar” quanto aos prazos de votação, mas acredita que esse processo deve acontecer ainda em outubro.

A PEC 110 prevê a criação de um Imposto sobre Valor Agregado (IVA) dual, isto é, um federal e outro agregando os impostos estaduais e municipais sobre o consumo (ICMS e ISS) e é considerada uma reforma mais ampla e, por isso, mais difícil de ser aprovada neste momento.

Auxílio emergencial

Enquanto mantém o impasse do Auxílio Brasil, o governo começou a discutir a possibilidade de prorrogar o auxílio emergencial pago a vulneráveis devido à pandemia da covid-19, que está a um mês do fim de sua vigência.

Recriado em abril, o auxílio emergencial de 2021 paga de R$ 150 a R$ 375 mensais para cerca de 39 milhões de famílias elegíveis, enquanto o novo Auxílio Brasil deve alcançar 16,5 milhões.

O ministro da Economia, Paulo Guedes, se opõe à continuidade e alertou que gastar mais dinheiro “pode ser caminho para uma derrota eleitoral”.

A prorrogação do auxílio emergencial tem sido defendida por aliados do governo no Congresso. Para essa ala, a medida pode ser adotada mesmo que se resolva o impasse em torno dos precatórios, dívidas judiciais que saltaram a R$ 89,1 bilhões em 2022 e ocuparam o espaço fiscal antes reservado à ampliação do Bolsa Família.

O governo apresentou uma Proposta de Emenda à Constituição (PEC) para parcelar os débitos, mas o texto está sendo alvo de negociação com parlamentares e ainda não foi votado.

Cada dia sem avanços na solução para as dívidas judiciais é contabilizado no Palácio do Planalto como um impulso a mais à ideia de prorrogar o auxílio emergencial.

CPI da Covid: Prevent Senior e o governo

Enquanto os investidores estão às voltas com o monitoramento do cenário internacional e no aguardo do avanço das reformas, a Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) da Covid no Senado intensificou os trabalhos nas últimas semanas, com uma agenda voltada à investigação das denúncias que envolveram a operadora de saúde Prevent Senior.

Na véspera, a advogada Bruna Morato, representante de médicos que denunciam a rede por fraudes na pandemia, acusou o governo Bolsonaro de firmar um “pacto” com a operadora de saúde para validar o tratamento da covid-19 com medicamentos sem eficácia comprovada contra a doença, o chamado kit covid.

O objetivo, segundo ela, era usar um estudo realizado em hospitais da rede para validar o discurso do Palácio do Planalto contrário ao isolamento social e ao lockdown, adotados como forma de evitar a propagação do vírus.

Em um depoimento de mais de seis horas ao colegiado, Morato disse que a estratégia estava alinhada com interesses do Ministério da Economia e era intermediada por integrantes do chamado "gabinete paralelo", formado por médicos defensores do chamado "tratamento precoce", que prestou assessoria informal a Bolsonaro durante a pandemia.

Bruna Morato ressaltou ainda que os relatos recebidos pelos médicos eram de “um interesse” da Economia para que o País não parasse e que, se houvesse lockdown, haveria uma grande perda econômica.

"O que eles tinham que fazer era conceder esperança para que as pessoas saíssem às ruas, e essa esperança tinha um nome: hidroxicloroquina", completou, citando um dos medicamentos do kit covid.

Nova York e o mundo

Nos Estados Unidos, o clima de tensão da véspera parece ter se dissipado um pouco, pois os futuros das bolsas de Nova York buscam recuperação nesta quarta-feira, após uma forte queda em seus principais índices. O impasse no Congresso do país sobre a elevação do teto da dívida segue ainda sem um caminho definido.

O movimento de inclinação da curva de juros dos Treasuries começou após o presidente do Federal Reserve (Fed, o banco central americano), Jerome Powell, sinalizar que o processo de redução das compras de ativos pode ser anunciado em novembro.

O analista-chefe da CMC Markets, Michael Hewson, diz que “enquanto alguns argumentam que o aumento dos rendimentos está sendo impulsionado pelo otimismo econômico, isso parece difícil de conciliar com a realidade”.

Segundo Hewson, o cenário envolve a queda da confiança do consumidor em um momento no qual os preços da energia estão subindo, as cadeias de suprimentos estão cedendo e o inverno está no horizonte. Para ele, o temor sobre a inflação está de volta.

No Senado dos EUA, Powell e a secretário do Tesouro, Janet Yellen, pressionaram pela suspensão do teto da dívida do país. A economista voltou a alertar para um possível default inédito do país e a possibilidade de haver crise financeira e recessão.

Os comentários acalorados da senadora Elizabeth Warren também pesaram nos mercados. Após criticar o trabalho de Jerome Powell frente à autoridade monetária, ela disse que ele é um “homem perigoso para chefiar o Fed” e é por isso que ela se opõe à sua nomeação.

A crise energética se tornou um problema global. Na Europa, as contas de luz deram um salto recentemente. Dependentes do uso de gás natural para a geração de energia elétrica, os países da região foram afetados pelo aumento no preço do combustível fóssil, que é resultado do descompasso entre oferta e demanda.

Segundo o economista Aldren Vernersbach e pesquisador da Fundação Getulio Vargas (FGV), a Europa precisa diversificar as fontes de energia antes de acelerar a transição energética.

A China também enfrenta uma crise semelhante, o que fez com que instituições financeiras como Nomura e Goldman Sachs cortassem a projeção para o crescimento da economia do país neste ano.

Abordando o continente asiático, as bolsas por lá fecharam em queda nesta quarta-feira. A exceção foi a de Hong Kong, impulsionada por notícia de que a endividada gigante do setor imobiliário chinês Evergrande fechou um acordo bilionário para a venda de uma fatia num banco comercial.

O índice japonês Nikkei sofreu queda de 2,12% em Tóquio, aos 29.544,29 pontos, enquanto o sul-coreano Kospi recuou 1,22% em Seul, aos 3.060,27 pontos, e o Taiex caiu 1,90% em Taiwan, aos 16.855,46 pontos.

Na China continental, o Xangai Composto teve baixa de 1,83%, aos 3.536,29 pontos, e o Shenzhen Composto apresentou perda ainda mais expressiva, de 2,29%, aos 2.347,16 pontos.

Em Hong Kong, por outro lado, o Hang Seng avançou 0,67%, aos 24.663,50 pontos, uma vez que a ação local da problemática Evergrande saltou 14,98% após a incorporadora revelar que uma de suas unidades chegou a um acordo para vender participação de quase 20% no Shengjing Bank, por cerca de US$ 1,5 bilhão.

Mas a situação da gigante chinesa segue inspirando cautela. Hoje, a Fitch cortou a nota de crédito da empresa de CC para C, após uma subsidiária não honrar o pagamento de juros sobre bônus externos que venceram na semana passada.

E o PBoC, como é conhecido o banco central chinês, continua fazendo agressivas injeções de capital no sistema financeiro, atento aos desdobramentos da crise da Evergrande.

Na Oceania, a bolsa australiana ficou no vermelho, seguindo o tom predominante da Ásia. O S&P/ASX 200 caiu 1,08% em Sydney, aos 7.196,70 pontos. / com Júlia Zillig e Agência Estado

Imagem do autor

Colaborador do Portal Mais Retorno.

Deixe seu comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *


Veja mais Ver mais