Mercado Financeiro

A Bolsa viveu um dia de queda livre no pregão deste início de semana. O risco de calote da Evergrande, uma empresa imobiliária chinesa de porte colossal, derrubou os mercados em todo o mundo nesta segunda-feira, 20, e trouxe para os investidores uma forte onda de aversão ao risco. O Ibovespa registrou uma queda acentuada de 2,33%, aos 108.843,74 pontos, menor patamar desde 23 de novembro de 2020. O dólar subiu 0,83%, aos R$ 5,332.

O temor se justifica quando observamos alguns números dessa empresa. Hoje, o grupo está desmoronando com uma dívida de cerca de US$ 304 bilhões, o equivalente ao PIB da Romênia, por exemplo.

Foto: B3/Divulgação
Sede da Bolsa de Valores em São Paulo - Foto: B3/Divulgação

No mercado de dívida externa o risco de calote causa calafrios quando se leva em consideração que a Evergrande tem emitidos US$ 19 bilhões em títulos (bonds).

Aqui no Brasil, além do Ibovespa desabar, esse temor internacional impacta diretamente no credit default swap (CDS), espécie de seguro contra calotes do País e que, por isso, é considerado um termômetro para o risco Brasil.

Os contratos de CDS com vencimento em cinco anos estavam em alta superior a 9% ou cerca de 17 pontos, operando a 197 ponto-base contra 180 pontos-base no fechamento de sexta-feira, um movimento bastante raro de acontecer.

Além desses temores, a queda no preço do minério de ferro e outras commodities ajudou a derrubar o mercado. As ações da Vale e Petrobras despencaram no pregão.

Os papéis da mineradora derreteram 3,19%, enquanto os da petroleira desvalorizaram 1,40%. Juntas, as duas empresas respondem por mais de 20% da cesta de ativos do Ibovespa.

O mesmo movimento marcou o desempenho dos bancos no pregão de hoje. As ações do Itaú, Santander e Bradesco tiveram um forte recuo de 2,41%, 3,75% e 2,96%, respectivamente. Os bancões representam cerca de 17% da carteira teórica do principal índice da B3.

Sobe e desce da B3

Acompanhando a queda nas commodities e a desvalorização da Vale e da Petrobras, as siderúrgicas recuaram forte neste pregão. CSN, Usiminas e Gerdau caíram 2,58%, 1,58% e 0,41%, respectivamente. Enquanto isso, a PetroRio registrou baixa de 6,08%.

A maior queda do dia ficou por conta das ações da Braskem, que despencaram 11,20%, após a Novonor, ex-Odebrecht, apresentar um novo modelo de venda da petroquímica.

Nesta segunda-feira, com o anúncio da fusão com a Hering, as ações do Grupo Soma caíram 0,87%. Já os papéis da Rumo desvalorizaram 1,77% após a companhia divulgar que irá assinar um contrato para a construção de uma nova ferrovia no Mato Grosso.

A Copel divulgou o pagamento de proventos, no valor de R$ 1,4 bilhão - R$ 1,1 bilhão em dividendos intercalares e R$ 239 milhões em Juros sobre Capital Próprio (JCP), totalizando um dividend yield (valor do dividendo sobre preço da ação) de 8,1%. Com a notícia, os papéis da companhia subiram 4,98%.

Dólar em alta

A aversão ao risco no exterior dá o tom dos negócios no Brasil e no exterior e o dólar fechou em alta nesta segunda-feira. A moeda norte-americana é fortalecida no mercado internacional, à medida que ativos de risco e commodities são penalizados por temores dos investidores quanto à crise financeira da Evergrande na China.

A moeda americana disparou ao longo do dia e chegou a ser negociada a R$ 5,377, mas perdeu força e fechou o pregão com alta de 0,83%, cotada a R$ 5,332.

Fed

No ambiente internacional, os investidores também seguem na expectativa com a próxima reunião do Fomc (Copom americano) nos Estados Unidos, que acontecerá na próxima quarta-feira, 22, e que definirá os juros de curto prazo do país.

A atenção se volta a eventuais sinais sobre redução do ritmo de recompra de títulos pela autoridade monetária, operação que coloca no sistema financeiro americano US$ 120 bilhões por mês.

Uma pista que poderia vir no comunicado do Fed, após o anúncio da decisão sobre os juros, ou no pronunciamento do presidente do banco central americano, Jerome Powell.

Taxa de juros local e inflação

No cenário interno, os economistas do mercado mais uma vez ajustaram suas projeções para a inflação e taxa de juros do País com viés altista, piorando suas estimativas.

De acordo com o boletim Focus, divulgado pelo Banco Central nesta segunda-feira e que traz as estimativas dos especialistas, para 2021 o Índice de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA), que mede a inflação, subiu de 8,00% para 8,35%. E de 4,03% para 4,10% para 2022.

Já a Selic, considerada a taxa básica de juros do País, aumentou de 8,00% para 8,25% em 2021. E de 8,00% para 8,50% em 2022.

Bolsonaro na ONU

Os investidores acompanham a movimentação sobre a viagem do presidente Jair Bolsonaro à Nova York. O chefe do Executivo embarcou na véspera e participará da Assembleia-Geral da Organização das Nações Unidas (ONU). Ele permanecerá nos Estados Unidos de 19 a 22 de setembro.

Ao chegar no hotel Intercontinental Barclay, em Nova York, Bolsonaro entrou pela porta dos fundos. Alguns poucos manifestantes contra o governo aguardavam o presidente com faixas. Não havia apoiadores do presidente no local.

A outros hóspedes que entravam no hotel, o pequeno grupo de manifestantes gritava em português e inglês "Bolsonaro genocida" e "criminoso".

O presidente fará o discurso de abertura da Assembleia-Geral da ONU na terça-feira, 21. Nesta segunda, 20, ele se reúne com o primeiro-ministro do Reino Unido, Boris Johnson.

Bolsonaro antecipou, na quinta-feira, 16, que deve defender a tese do marco temporal das terras indígenas em seu pronunciamento nos EUA.

Em uma transmissão nas redes sociais, o presidente defendeu que um eventual veto do Supremo Tribunal Federal (STF) ao marco temporal "é um perigo para a segurança alimentar do Brasil e do mundo". Tradicionalmente, o chefe de Estado do Brasil faz o discurso de abertura na Assembleia-Geral.

A ida de Bolsonaro a Nova York e sua participação presencial na Assembleia-Geral entrou em pauta durante a semana passada, após uma polêmica envolvendo a obrigatoriedade da vacinação contra a covid-19 para participação no evento, uma vez que a cidade sede da ONU passou a exigir o comprovante de vacinação para uma série de atividades, como circulação em ambientes fechados.

Na quinta-feira, no entanto, a própria organização confirmou que não exigirá comprovante de vacinação contra a covid-19 das autoridades que estarão presentes no evento. 

Covid-19: Prevent Senior

Uma ex-funcionária da rede Prevent Senior ouvida pela Polícia Civil de São Paulo disse que a estratégia da operadora de saúde ao conduzir um estudo com hidroxicloroquina em pacientes com covid-19 tinha como objetivo reduzir custos com internações e, ao mesmo tempo, dar "visibilidade" à empresa como referência no tratamento do vírus.

O depoimento da testemunha, que não teve a identidade revelada por motivos de segurança, faz parte do inquérito aberto para investigar as mortes ocorridas em hospitais do plano de saúde.

No depoimento, a ex-funcionária listou uma cadeia de comando com 11 médicos da direção da empresa que seriam responsáveis por pressionar toda a equipe médica da rede a adotar o tratamento precoce com o chamado "kit covid", composto por hidroxicloroquina e azitromicina, fármacos sem eficácia comprovada contra o novo coronavírus.

A orientação, disse ela aos policiais, era enviar o medicamento para a casa dos pacientes com sintomas, mesmo antes de qualquer teste diagnosticar a doença.

"Tais medidas de combate à pandemia visaram apenas a redução de custos com a internação de pacientes, uma vez que o hospital é do próprio convênio e internações geram custos", diz o relato da testemunha. Segundo ela, a prática era recorrente nas unidades da rede.

A Prevent Senior passou a ser alvo da Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) da Covid depois de um grupo de 15 médicos, todos ex-funcionários da rede, enviar um dossiê aos senadores afirmando que pacientes receberam tratamento com cloroquina sem serem informados, o que é ilegal. Em entrevista à GloboNews, profissionais afirmaram ainda que a operadora de saúde omitiu mortes pela doença no estudo em que pretendia comprovar a eficácia do kit covid. Segundo eles, nove pacientes vieram a óbito, mas o estudo relata apenas dois casos.

Essa pesquisa foi citada pelo presidente Jair Bolsonaro, defensor do tratamento, como indício de que as drogas funcionavam em casos de covid. Enquanto isso, o presidente desestimulava outras medidas para combater a disseminação do vírus, como uso de máscaras, isolamento social e a vacinação.

As mortes de pacientes tratados com hidroxicloroquina na Prevent Senior já vinham sendo investigadas por autoridades de São Paulo desde antes da instalação da Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) da Covid no Senado, após reportagens sobre o tema serem veiculadas pela GloboNews, em abril deste ano. Uma dessas frentes é na Delegacia de Homicídio e Proteção à Pessoa (DHPP) da capital.

A rede privada informou, por nota, que "vai pedir investigações ao Ministério Público que apurem as denúncias infundadas e anônimas levadas à CPI por um suposto grupo de médicos". Disse ainda que uma advogada teria proposto um "acordo" para evitar a divulgação das informações. "Devido à estranheza da abordagem, a Prevent Senior tomará todas as medidas judiciais cabíveis."

NY: bolsas em queda

Em dia marcado pela apreensão dos investidores no âmbito global, as bolsas de Nova York fecharam em forte baixa. Os índices S&P 500, Dow Jones e Nasdaq 100 recuaram 1,66%, 1,78% e 2,10%.

Além do caso Evergrande – segunda maior incorporadora chinesa que pode dar um calote no mercado e contaminar o setor – e da perspectiva de redução do estímulo do Fed, os mercados financeiros também enfrentam riscos de incertezas sobre as perspectivas da agenda econômica de US$ 4 trilhões do presidente Joe Biden, bem como a necessidade de suspender o teto da dívida dos EUA.

De acordo com Filipe Teixeira, sócio da Wisir Research, os investidores já estavam preocupados com a desaceleração da recuperação global da pandemia e da inflação alimentada pelos preços das commodities.

A secretária do Tesouro, Janet Yellen, disse que o governo dos Estados Unidos ficará sem dinheiro para pagar suas contas em outubro, alertando para uma “catástrofe econômica”, a menos que os legisladores tomem as medidas necessárias.

Hong Kong fecha em baixa: China e Japão estão fechados

A Bolsa de Hong Kong fechou em forte baixa nesta segunda-feira, em dia de liquidez reduzida em meio aos feriados em várias partes da Ásia, inclusive na China e no Japão, à medida que os problemas financeiros da gigante do setor imobiliário chinês Evergrande continuam pesando nos negócios.

O Hang Seng sofreu um tombo de 3,3% em Hong Kong, aos 24.099,14 pontos. Apenas a Evergrande despencou mais de 10%, arrastando ações de outras empresas do ramo imobiliário negociadas no território semiautônomo.

Em meio à crise de liquidez que atinge a Evergrande, um de seus principais credores fez provisões para o calote de uma parte dos empréstimos que lhe concedeu, enquanto outros planejam dar mais prazo para que a companhia pague suas dívidas.

Os mercados acionários da China, do Japão, da Coreia do Sul e de Taiwan, por sua vez, não operaram nesta segunda-feira em função de feriados.

Na Oceania, a bolsa australiana encerrou o pregão desta segunda-feira no menor nível em três meses, com acentuadas perdas lideradas por mineradoras. O S&P/ASX 200 caiu 2,10% em Sydney, aos 7.248,20 pontos. / com Tom Morooka e Agência Estado

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