Economia

A melhora das perspectivas de crescimento da economia e o avanço da vacinação contra a covid-19, ainda que lento, já fazem empresas multinacionais retomarem os planos de investimento no Brasil, antes paralisados ou prejudicados por causa da pandemia.

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Otimismo com a retomada econômica do País está impulsionando as empresas estrangeiras a fazer novos investimentos - Foto: Envato

Nos últimos meses, tem crescido o número de companhias estrangeiras que anunciam novos projetos de expansão, aquisições ou aportes de capital no País, destaca o Estadão neste domingo.

O grupo português de distribuição e geração de energia EDP, por exemplo, anunciou recentemente um plano de investir R$ 10 bilhões no Brasil nos próximos cinco anos.

A montadora francesa Renault pretende aplicar R$ 1,1 bilhão em sua linha de produção já neste ano e no próximo. A marca de alimentos e bens de consumo Nestlé, da Suíça, fará um investimento de R$ 900 milhões em suas fábricas no País.

Já a norueguesa Equinor, do setor de petróleo e gás, revelou este mês que planeja investir US$ 8 bilhões, ao lado de empresas parceiras em um consórcio de exploração de petróleo, para iniciar a extração no campo de Bacalhau, na Bacia de Santos, que deve começar a operar em 2024.

"Temos uma perspectiva de longo prazo. Até 2030, esperamos investir mais de US$ 15 bilhões", diz Veronica Coelho, presidente da Equinor no País.

Investimentos diretos

A retomada dos aportes estrangeiros é vista no Indicador de Investimentos Diretos no País (IDP), divulgado pelo Banco Central (BC). Depois de despencar em 2020 para o menor nível em 10 anos, os investimentos voltaram a crescer.

De janeiro a maio, a entrada de recursos de empresas estrangeiras somou US$ 22,5 bilhões, de acordo com os dados do BC. O valor é 30% maior do que no mesmo período do ano passado, quando o IDP acumulado foi de US$ 17,3 bilhões. Mas a quantia está abaixo do nível de 2019, antes da pandemia, de US$ 26,1 bilhões.

Ainda que uma parte significativa do IDP seja composto por reinvestimentos dos lucros obtidos no País, o investimento direto é visto como um recurso de mais qualidade, porque é destinado à atividade produtiva.

A expansão está longe de alcançar os patamares de anos anteriores. Considerando os últimos 12 meses encerrados em maio, os investimentos diretos representavam 2,6% do Produto Interno Bruto (PIB), nível abaixo do registrado nos últimos anos. Entretanto, as condições agora são mais vantajosas para a entrada de estrangeiros.

"O custo de entrar no Brasil está relativamente baixo, por causa da depreciação do real. É um ambiente favorável para aportes produtivos no curto prazo. É claro que no Brasil há sempre muita incerteza. Mas, seis meses atrás, as perspectivas eram piores", diz o economista Livio Ribeiro, pesquisador associado do Ibre/FGV e sócio da consultoria BRCG.

Preocupação com os riscos

Os últimos 12 meses foram uma montanha-russa para as operações da Tronox no Brasil, um grupo industrial americano com 7 mil funcionários no mundo e especializado na fabricação de dióxido de titânio, insumo químico usado na pigmentação de tintas e plásticos.

No ano passado, a demanda pelo produto despencou durante a fase mais crítica da pandemia, e o faturamento líquido da empresa no País chegou a cair pela metade no segundo trimestre, para R$ 78 milhões.

Nos meses seguintes, porém, a fábrica da empresa, localizada em Camaçari (BA), verificou uma retomada repentina, puxada pela demanda da construção civil e pela necessidade de reposição de estoques.

O faturamento deu um salto: chegou a bater R$ 281 milhões no quarto trimestre e se manteve em R$ 226 milhões nos primeiros três meses de 2021.

Com a melhora do mercado, a matriz nos EUA decidiu colocar em prática um plano de investimentos de R$ 137 milhões no Brasil, que era preparado desde outubro de 2019.

Os recursos serão usados para modernizar a fábrica em Camaçari, automatizando processos industriais. Também está no radar o lançamento de novo um produto para o segmento de tintas.

A palavra de ordem, segundo o diretor-presidente, Roberto Garcia, é a "diferenciação" para obter uma margem de lucro maior e competir com concorrentes estrangeiros. "Existe muita concorrência chinesa. Mas a diferenciação do produto e a proximidade com o cliente podem ser decisivos. E já têm feito a diferença agora", diz.

O caso da americana Tronox não é isolado. Nos últimos meses, aumentou o número de multinacionais que decidiram realizar novos investimentos no Brasil, de olho na recuperação da atividade econômica.

Um outro exemplo é o do grupo português EDP, do setor elétrico, que anunciou recentemente investimentos de R$ 10 bilhões até 2025. Eles serão aplicados em três frentes, de acordo com o presidente da operação brasileira, João Marques da Cruz.

A primeira delas é na melhoria do serviço de fornecimento de energia elétrica nos municípios atendidos por ela, no Espírito Santo e em São Paulo.

"Entendemos que é nesse momento que se deve apostar. Temos confiança de que os fundamentos da economia brasileira vão permanecer. E acreditamos que a economia vai crescer e vai precisar de infraestrutura de energia no longo prazo", afirma Marques da Cruz.

É também de olho no longo prazo que a montadora Renault anunciou em março um plano de investimentos de R$ 1,1 bilhão para este ano e 2022.

Segundo Ricardo Gondo, presidente da empresa no Brasil, o montante deve ser investido principalmente na renovação da linha de automóveis, com o lançamento do novo modelo Captur e de um novo motor turbo flex, além da chegada de dois novos elétricos, entre eles o Zoe E-Tech.

Com a retomada da atividade econômica e o crescimento das vendas de veículos, a empresa planejou um novo ciclo de investimento. Segundo Gondo, a expectativa é de que o mercado brasileiro de veículos de passeio e comerciais leves deve chegar a 2,3 milhões de unidades vendidas este ano (18% mais sobre 2020) e a 2,7 milhões em 2022.

O que impede uma recuperação mais acelerada, segundo ele, são as incertezas sobre o ritmo da vacinação, a falta de peças que tem prejudicado o setor automotivo, além de uma dúvida sobre a agenda de reformas econômicas.

"O Brasil tem de priorizar as reformas, que ainda não aconteceram - a reforma tributária, a reforma administrativa. O que precisamos é ter segurança jurídica. Precisamos ter previsibilidade. São investimentos enormes e de longo prazo. É isso que vai assegurar futuros investimentos no País", diz.

'O Brasil poderia atrair muito mais investimentos'

Na visão do economista-chefe para a América Latina do banco Goldman Sachs, Alberto Ramos, o crescimento dos investimentos poderia ser maior se a agenda de reformas tivesse avançado mais rapidamente e o governo tivesse se empenhado em promover reformas mais significativas. "O Brasil poderia estar atraindo muito mais investimento direto dado o potencial e a dimensão da economia", diz Ramos na entrevista a seguir.

Como avalia a alta do investimento estrangeiro neste ano?

Com a retomada do crescimento e a melhora do resultado das empresas, é normal que elas decidam investir no negócio e que isso leve a uma melhora dos fluxos de investimento. Agora, a gente não pode se contentar com pouco. O Brasil poderia estar atraindo muito mais investimento, dado o potencial e a dimensão da economia.

O Brasil, com uma situação fiscal saneada, com outro quadro político, poderia ter um nível de investimento extraordinário, mas não tem.

O que impede uma entrada maior de recursos?

É o risco fiscal. O Brasil ainda tem uma situação fiscal extremamente delicada. Os anos vão passando e as reformas fiscais não avançam. A gente começou a falar do ajuste fiscal quando a presidente Dilma Rousseff foi reeleita.

Já estamos há sete anos consecutivos com déficit primário, sem perspectiva de que chegue a um superávit no curto prazo. Cada vez que há uma sobra no Orçamento, como agora, há mil e uma maneiras para justificar os gastos. E fazer ajuste que é bom, nada.

Tem percebido um aumento do interesse pelo Brasil no exterior?

O interesse caiu muito nos últimos dois anos. O grande investidor estrangeiro se desinteressou pelo País. O Brasil desencantou. Começou a haver um pouco mais de interesse neste ano.

O próprio real está se valorizando com a subida dos juros, e a volta do crescimento. Aos trancos e barrancos, o processo de vacinação avança. Mas, em relação ao potencial do Brasil, ainda tem muita estrada pela frente. / com Agência Estado

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