Logo Mais Retorno
Inflação
Economia

Deflação no Brasil? Entenda o cenário e impactos nos investimentos

Entenda por que o Brasil apresentou inflação por dois meses seguidos e como isso afeta os títulos de renda fixa atrelados ao IPCA.

Data de publicação:22/09/2022 às 05:00 -
Atualizado 8 dias atrás
Compartilhe:

Nos meses de julho e agosto de 2022, o Brasil apresentou índice de inflação negativo (famosa deflação). Com queda no IPCA de -0,68% e -0,36%, respectivamente, o brasileiro se viu em uma situação extremamente rara: uma queda nos preços gerais do mercado local.

inflação ipca junho
Foto: Agência Brasil

No entanto, o que isso significa na prática? As coisas estão realmente mais baratas? Qual é o impacto para os investimentos de renda fixa? São dúvidas que surgiram nesses sessenta dias e que vamos responder no artigo de hoje.

O que é deflação?

Em primeiro lugar, caso ainda não conheça o termo, a deflação é o oposto do processo de inflação. Isto é, ao invés de representar o aumento dos preços, ela oferece um cenário em que eles são reduzidos ao longo de um determinado período.

No Brasil, a medição é feita pelo IPCA (índice de Preços ao Consumidor Amplo), que é o principal índice acionário nacional. Ele é composto por uma cesta de bens de consumo como, por exemplo, telefonia, combustíveis e educação. A depender do comportamento dos seus preços, verificamos se há inflação ou deflação.

Embora pareça positiva (afinal, o consumidor consegue comprar produtos e serviços com preços menores), a deflação é negativa para a economia de um país se for mantida no médio prazo. Isso porque o cenário representa uma redução da demanda e, consequentemente, do PIB nacional — algo que pode se converter em aumento de desemprego e recessão.

Por que o Brasil apresentou deflação?

A deflação brasileira em 2022 tem origem especificamente em uma das linhas do índice de inflação: os combustíveis. Após uma alta elevada, especialmente em função da guerra entre Rússia e Ucrânia, o petróleo vem caindo o preço do barril de petróleo. Além disso, o nosso governo isentou alguns tributos relacionados à gasolina.

Esse efeito, somado, gerou um impacto de forte queda do preço da gasolina — algo que, diga-se, não é suficiente para anular a pressão inflacionária que foi verificada desde o início da pandemia da covid19. Ou seja, a gasolina segue cara, mas não tanto como há dois meses atrás na medida em que esses fatores reduziram o seu preço.

Outro ponto muito importante é entender que a deflação representa, neste ano de 2022, pura e simplesmente uma redução do IPCA. Na prática, entretanto, ela está correlacionada com a linha de combustíveis. Os demais tipos de produtos e serviços seguem com boa pressão de preços, inclusive com resultados de crescimento.

Em outras palavras, a deflação que vimos se aplica muito diretamente ao preço da gasolina, mas os demais segmentos seguem com inflação. E aqui podemos incluir alimentação, escola, telefonia, entre outros custos essenciais para a população brasileira.

Portanto, de forma prática, a deflação pontual não tem um impacto positivo para os brasileiros, visto que custos essenciais não tiveram relaxamento nos preços. Por outro lado, a queda do IPCA pode impactar os investimentos de renda fixa que possuam esse índice como indexador...

Qual é o impacto para os meus investimentos?

Se você investe em renda fixa atrelada à inflação, muito provavelmente se assustou com as notícias de um IPCA negativo por dois meses seguidos. De fato, os rendimentos desses títulos acabam sendo afetados quando o principal índice inflacionário apresenta retração. Contudo, será que realmente devemos nos preocupar?

Apesar de parecer algo ruim, existem alguns pontos que precisamos ponderar. E, desde já, vale a pena deixar claro que, ao menos no Brasil, essa deflação deve ser temporária, de modo que não há necessidade de uma grande mudança na sua estratégia de investimentos.

Vamos então entender melhor esse cenário econômico brasileiro.

Juros reais continuam positivos

A maior parte dos títulos atrelados à inflação são híbridos. Isto é, eles possuem uma taxa de juros prefixada que é somada ao desempenho do IPCA. Isso acontece porque, sem essa taxa adicional, o investimento apenas acompanharia a inflação, sem um ganho real de capital.

Vale lembrar que a inflação representa o aumento dos preços de um determinado mercado. Ou seja, se os seus investimentos não conseguirem acompanhar o IPCA, isso significa que você perdeu o poder de compra. Desse cenário surge a necessidade de ganhos reais, sempre acima da própria inflação.

Se você comprou um título IPCA + 5% ao ano, por exemplo, continua com rendimentos positivos e acima da própria inflação. Em outras palavras, o poder de compra segue protegido para o longo prazo.

Supondo que, ao longo de um ano, o Brasil registre uma deflação de 1%. Na prática, o seu título renderia 4% neste ano (5% - 1%). Ou seja, mesmo em um período de deflação, os títulos atrelados à inflação seguem rendendo de forma positiva. Eles apenas reduzem a própria rentabilidade.

Inflação é temporária

Além disso, conforme adiantamos, a inflação é temporária e está vinculada especificamente aos combustíveis. Com a volta dos tributos e a normalização do preço do barril de petróleo, esse efeito negativo no nível da inflação deve ser anulado. Ainda mais considerando que outras linhas do IPCA não deram sinais de queda nos preços.

Esse cenário fica ainda mais nítido ao olhar para o mercado futuro de taxas de juros ou inflação. A expectativa geral do mercado é que a inflação deve ficar com uma taxa anual entre 6% e 7% ao longo dos próximos anos. Ou seja, números ainda bem atrativos para os rendimentos de renda fixa.

Não podemos nos esquecer de que o Brasil segue como um país em desenvolvimento, com eleição se aproximando e riscos políticos muito claros para a nossa economia. Desta forma, acreditar em um prazo de deflação mais longo parece uma enorme utopia neste momento.

Portanto, ainda que no curtíssimo prazo os títulos de renda fixa atrelados ao IPCA tenham rendimentos menores, essa situação logo será normalizada. Não há motivo, em suma, para uma revisão da sua estratégia ou alguma ação mais urgente de venda desses ativos.

Vale lembrar, por fim, que é justamente para lidar com esse tipo de situação que nós temos a diversificação dos nossos investimentos. Assim, a depender do cenário econômico, conseguimos uma melhor relação entre risco e retorno para o nosso patrimônio.

Sobre o autor
Stéfano Bozza
Formado em Administração pela PUC-SP. Trabalhou em empresas do segmento financeiro (Itaú BBA) e varejo (BRMALLS) até 2016, quando iniciou a jornada de produção de conteúdo para a internet com foco em finanças.

Inscreva-se em nossa newsletter