Renda Variável

O cenário microeconômico, o ambiente de negócios em que atuam as empresas na vida real, vai bem, como deixam claro os resultados sólidos e bons lucros das companhias estampados na maioria dos balanços do segundo trimestre.

Um desempenho que destoa da piora recente do cenário macroeconômico, do ponto de vista político e fiscal, que já passa a influenciar as expectativas de agentes e investidores com os resultados não apenas do terceiro trimestre, como de todo o segundo semestre. O contexto macro não é amigável às companhias, mas mesmo assim os preços baixos de algumas ações pode ser um convite às compras. 

FONTES: XP e RICO

“Empresas que dependem da melhora do macro, mas também da reabertura da economia, do aumento do consumo, como as do setor de consumo, financeiro e industrial”, pontua Paula Zogbi, analista da Rico.

"São empresas que estão bastante descontadas em relação à máxima delas e dependem da reabertura da economia para deslanchar”, acredita a analista.

Supostas quase pechinchas, como são chamadas as ações bem descontadas, podem ser encontradas também entre as empresas de alta qualidade, com operações robustas e líderes em seus setores. Paula diz que o pessimismo com a bolsa deixou baratas também ações de empresas como Natura, Magazine Luiza e Renner, por exemplo, considerando a relação média preço/lucro dos últimos cinco anos.

Risco na renda variável e segurança na renda fixa

O preço baixo das ações pode não ser condição suficiente para atrair o investidor à bolsa de valores neste momento, avalia Mateus Santos, especialista em Renda Variável da Valor Investimentos. “A ação pode estar barata, mas o investidor parece estar vendo que não vale a pena correr risco, que vale mais a pena ficar na segurança da renda fixa.”

É uma situação que contrasta com a do início do trimestre anterior, quando a expectativa de melhora macroeconômica e retomada consistente da economia animou os agentes econômicos, financeiros e investidores. A deterioração na economia, pelas incertezas com a crise política e fiscal, reverteu esse cenário positivo e já tem pesado sobre as empresas.

Um dos principais efeitos da percepção de aumento de risco em cenário de piora na situação econômica é a elevação da taxa de juros, principalmente nos contratos futuros. Em geral, as empresas menores, do grupo das small caps, são mais influenciadas pelo pessimismo com o cenário, mas as que mais sofrem, de acordo com especialistas, são as que precisam de crédito para financiar novos projetos de investimento.

Paula afirma que o quadro atual afeta bastante as empresas, porque a elevação dos juros, que torna o custo de capital mais alto, leva os analistas a diminuir a expectativa de lucro de empresas.

A piora das condições influencia negativamente a bolsa de valores, um sentimento que se estende até às expectativas com as empresas que reportaram bons resultados nos últimos balanços, avalia Mateus Santos.  “É um processo no qual o risco macro acaba afetando o micro, ao ofuscar os resultados passados das empresas, porque o investidor passa a tomar decisões de acordo com as expectativas futuras, à luz da piora de cenário.” 

É uma decisão que, no momento, pode estar sendo influenciada pela alta dos juros. Sem uma tendência clara para a bolsa de valores, em um ambiente de variadas e numerosas incertezas, o investidor estaria evitando correr maiores riscos na bolsa em troca de um rendimento que considera atraente e seguro na renda fixa.

Mateus Santos comenta que, além das restrições de um crédito mais difícil e caro, as chamadas small caps, que em geral trabalham com alavancagem e dívidas, são deixadas de lado pelos investidores por questões ligadas à liquidez. Os grandes fundos institucionais e multimercados preferem as grandes empresas, as blue chips, até pela facilidade de negociação de lotes maiores de ações. “Uma oferta grande de venda de ações de small caps pode fazer despencar as cotações.”

Fatores que afetam a bolsa e as ações

A economista-chefe da Latin America da Coface, Patrícia Krause, diz que o risco político e fiscal afeta os investimentos, pela proximidade das eleições, o que gera efeitos negativos sobre as empresas de modo geral e a bolsa de valores. Ela aponta ainda como grandes riscos para a economia e as empresas a crise hídrica e a inflação em alta.

Relatório da equipe de análises da XP Investimentos destaca que os riscos fiscais aumentaram e as tensões políticas se intensificaram em agosto, pressionando os mercados. Dentre as fontes de incerteza, na área fiscal, os analistas apontam a falta de consenso sobre o projeto de reforma tributária, uma indefinição que trouxe a preocupação com os riscos fiscais.

A falta de um consenso em torno das várias versões apresentadas ao projeto original adiciona incerteza à trajetória fiscal, “uma vez que pode ter um efeito negativo na arrecadação de impostos do governo”. 

O texto-base do projeto original enviado pelo governo ao Congresso no início de junho ampliou a isenção de imposto de renda para pessoas físicas, reduziu a alíquota para as empresas e aumentou a alíquota sobre lucros e dividendos, até então isentos.

Outro fator associado ao risco fiscal é o aumento do valor dos precatórios, de R$ 57 bilhões, em 2021, para R$ 90 bilhões, para pagamento em 2022. “Isso ocupará todo o espaço previsto dentro do limite de teto de gastos para 2022 que o governo planejava usar para criar um novo programa de transferência de renda, o Auxílio Brasil, em substituição ao Bolsa Família.”

Uma Proposta de Emenda Constitucional (PEC), do governo, tenta contornar o mal-estar nos mercados ao propor a alteração na regra do parcelamento dos precatórios e a criação de um fundo para o pagamento da dívida. A questão, para os analistas da XP, é que “a medida apenas adia os pagamentos e aumenta as preocupações de que a regra do teto de gastos seja contornada para acomodar despesas maiores”.

Crise entre os Poderes

Causa perturbação no mercado e eleva o risco político, segundo o relatório, o estresse nas relações dentre os três Poderes, em meio ao CPI da Pandemia, no Senado. Embora ainda distante das eleições de 2022, investidores estão preocupados com a trajetória até lá, enquanto o governo tenta melhorar sua popularidade.

Diante do cenário de agravamento do risco político e fiscal e do grande aumento do custo de capital das empresas, pela escalada dos juros futuros, a equipe de análise da XP revisou o preço-alvo do Ibovespa, para o fim de 2021, dos anteriores 145 mil pontos para 135 mil pontos.

Ainda assim, fica mantida a aposta em empresas de alta qualidade e perspectivas de crescimento robusto. Os papéis dessas empresas poderão atravessar as tempestades de forma mais sólida e tendem a reagir rapidamente dentro de uma recuperação econômica.

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Colaborador do Portal Mais Retorno.

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