Renda Variável

O dólar abaixo de R$ 5 tem levado a uma divisão, no mundo corporativo, entre o grupo de empresas ganhadoras e o de perdedoras com esse movimento do câmbio. Um efeito que alcança as companhias que têm alguma vinculação, seja como exportadora, importadora ou prestadora de serviços, com a moeda americana e se reproduz nas ações dessas companhias na bolsa de valores, entre as que se beneficiam da queda do dólar e as que sentem as consequências negativas dela.

Foto: Envato
Companhias do setor aéreo são favorecidas com dólar mais baixo

Empresas beneficiadas

De modo geral, o recuo do dólar beneficia as empresas que têm custos atrelados aos do dólar, como as companhias do setor aéreo e de turismo, comenta Pietra Guerra, analista da Clear Corretora. As aéreas, nesse caso, são duplamente favorecidas. “A demanda por viagens de turismo tende a aumentar com o dólar mais baixo, à medida que houver maior controle da pandemia, o que beneficia empresas como a Gol e Azul, além da CVC.”

Pietra explica que cerca de 70% dos custos das aéreas estão indexados ao dólar, referentes ao arresto de aeronaves e combustíveis, cotados em dólar, o que significa que o recuo do dólar reduz também os gastos operacionais das companhias. “Além da perspectiva mais positiva de viagens do setor de turismo, há uma redução dos custos das aéreas.”

“São empresas que têm uma correlação inversa com o dólar”, comenta Filipe Villegas, estrategista da Genial Investimentos. “Além de combustível mais barato, com a queda do dólar, empresas do setor contam com a perspectiva de que, com o dólar mais fraco, o brasileiro, em condições naturais, tenha maior poder de compra para fazer viagens internacionais.”

As empresas que compram matérias-primas e mercadorias no exterior também são positivamente impactadas, segundo Pietra, porque a queda do dólar reduz os custos de importação. Companhias importadoras de insumos como a Hypera Pharma, indústria farmacêutica, e a M Dias Branco, indústria de alimentos, terão custo menor de importação, com o dólar mais baixo, e poderão aplicar os produtos aqui com maior margem de lucratividade, avalia Villegas.

O estrategista da Genial Investimentos diz que em geral o recuo do dólar favorece as empresas que têm endividamento mais forte na moeda americana, mas desta vez o movimento do câmbio deve ter um impacto menor, acredita. De acordo com ele, com a alta do dólar no ano passado as empresas endividadas em moeda americana passaram a fazer a troca de perfil de dívida em dólar por taxa de juros – uma troca da dívida dolarizada, para evitar o risco cambial, por dívida em reais, aproveitando também a queda da taxa básica de juros, a Selic, para mínimas históricas.

São empresas que seriam favorecidas com o dólar mais fraco, caso não tivessem feito a remodelação do perfil de dívida, em um momento também que os custos em reais ficam mais elevados com a alta da Selic.

Impacto negativo

O dólar menos valorizado impacta negativamente o caixa das empresas exportadoras, como a de commodities e frigoríficos, que passam a receber menos reais, na conversão do dólar para a moeda nacional, por suas vendas ao exterior. Casos de Vale, Usiminas, BRF, dentre outras.

Villegas afirma que importante também é contextualizar para entender o que sinaliza essa perspectiva de entrada de dólares que tem levado a essa correção para baixo na cotação da moeda americana. “Ou porque há uma expectativa de crescimento econômico do País e/ou porque as taxas de juro estão aumentando.”

Ficou mais lucrativo investir em renda fixa no País, comenta o estrategista da Genial, mas esse movimento de alta dos juros é interessante também para as seguradoras e o setor financeiro, avalia. “Não é um efeito direto, mas secundário da queda do dólar”, explica. “A alta dos juros desvaloriza o dólar perante o real, só que os juros mais altos acabam favorecendo o setor de bancos e seguros.”

Além de juros mais altos, dólar mais baixo, variáveis que influenciam diretamente o desempenho de empresas de alguns setores específicos da economia, outra vertente desse processo, segundo Villegas, é a expectativa de crescimento econômico. “Um cenário de momento em que as empresas ligadas ao consumo local também acabam sendo impactadas positivamente, inclusive na bolsa de valores.”

Dólar baixo, veio para ficar?

Ninguém arrisca um palpite sobre um possível nível de acomodação do dólar – já que as surpresas que o câmbio prega tornam uma temeridade cotar o câmbio. A analista Pietra, da Clear Corretora, afirma que “o cenário mais positivo de hoje comporta um dólar abaixo de R$ 5”.

Cristiane Quartaroli, economista do Banco Ourinvest, diz que uma aposta é que haverá muita volatilidade no caminho do dólar. “A volatilidade é o nome do jogo para o câmbio”, afirma, dizendo que apesar da animação e do otimismo nos mercados os fatores de risco interno, na economia e na política, continuam muito grandes.

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Colaborador do Portal Mais Retorno.

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